Descodifique o que significam os ruídos do seu corpo

Joelhos e dentes que rangem, soluços incontroláveis, gases ruidosos, o estômago que faz barulho… Os sons do corpo são involuntários e na maior parte das vezes incontroláveis, mas saber interpretá-los pode ser muito útil.

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17 Maio 2012, 15:56

Está dentro de um elevador completamente cheio quando o roncar sonoro do seu estômago interrompe o silêncio. Agacha-se durante a aula de yoga e os seus joelhos rangem como dobradiças mal oleadas. A verdade é que o corpo raramente está em silêncio e o seu funcionamento presta-se aos mais variados ruídos. Infelizmente poucos são controláveis e alguns estão longe de ser prazenteiros, mas quase todos têm uma função ou servem de alerta. É o corpo a falar connosco
 

Uma crise de soluços

Os soluços têm origem em espasmos involuntários do diafragma associados ao encerramento da glote, o que impede a passagem momentânea de ar para os pulmões. Não têm propriamente uma função, são um mecanismo reflexo que pode decorrer de uma refeição engolida à pressa, da ingestão de bebidas com gás, do riso ou do choro convulsivos, por exemplo. Geralmente passam depressa e não vale a pena recorrer aos sustos para ver se passa. Os remédios mais comuns passam por reter a respiração algum tempo ou respirar para dentro de um saco de papel, o que faz aumentar os níveis de anidrido carbónico no sangue e ajuda a parar os soluços. Por vezes, estes podem durar dias e tornar-se muito desconfortáveis, caso em que a ajuda medicamentosa será necessária. Em situações raras também podem estar ligados a traumatismos ou acidentes vasculares cerebrais, insuficiência renal ou estados pós-anestésicos. Glup!

Tosse irritante

Frio, humidade, alergias ou efeitos secundários de medicamentos podem ser alguns dos factores na origem da tosse. Basicamente o corpo está a reagir a um factor irritante das vias respiratórias e não convém desprezar o alerta. Fumadores inveterados estão familiarizados com uma tosse crónica que pode converter-se em bronquites e rinofaringites. Mas há todo um leque de variantes que só um médico saberá identificar. Da tosse seca de um asmático à húmida de um constipado, é sempre importante diagnosticar o factor de origem, até porque não tratada pode dar lugar a uma insuficiência respiratória.
 

Fungadelas

A boa educação dita que fungadelas e aclaramentos de garganta são de evitar, sobretudo no teatro ou no cinema, mas na verdade elas têm uma função útil: mobilizam as secreções da faringe facilitando a sua eliminação posterior. É uma forma que o corpo tem de expulsar mais facilmente os micróbios, o que é útil no tempo frio, embora não comova ninguém no meio de uma plateia silenciosa. Há que ter em atenção que o fenómeno pode esconder uma rinite crónica e nalguns casos um tique decorrente da ansiedade, caso em que será aconselhável recorrer a terapia comportamental e evitar o teatro e a ópera.
 

Bruxismo

O chamado 'bruxismo' afecta sobretudo crianças pequenas embora também possa aparecer em adultos. Geralmente são os outros que se dão conta do hábito irritante de ranger dos dentes de forma repetitiva e inconsciente. Quando isto não acontece, pode ser o dentista a descobri-lo, através do desgaste do esmalte dentário, uma das consequências desagradáveis deste fenómeno. Dores faciais e de ouvidos, sobretudo de manhã, são outros sintomas possíveis, já que muitas vezes o bruxismo ocorre durante o sono. A ansiedade é a principal causa apontada e geralmente o hábito costuma desaparecer de forma espontânea. Se isto não acontecer, é boa ideia procurar acompanhamento especializado já que no limite o bruxismo pode dar origem a problemas articulares. O dentista poderá aconselhar um aparelho específico (moldeira) para usar durante o sono, de forma a impedir o desgaste do esmalte até o hábito desaparecer. A psicoterapia poderá ser o caminho indicado nos casos de bruxismo de origem ansiosa.
 

Ressonar

Costumam ser ridicularizadas por se incluírem nos 30% de pessoas que roncam ruidosamente quando dormem, mas só riem os que não têm o azar de partilhar a cama com eles. É que o ruído provocado pela passagem do ar pelas vias respiratórias obstruídas pode ser de tal ordem que acorde os próprios ressonadores... As causas podem ser várias, da simples constipação ou alergia até alterações anatómicas do nariz (congénitas ou traumáticas) passando por medicamentos que provoquem o relaxamento muscular, o excesso de peso ou até a posição adoptada durante o sono (de barriga para o ar é a que promove um maior entupimento das vias aéreas).

Mas mais do que um facto desagradável ressonar pode ser sintoma de uma doença: a apneia do sono que atinge cerca de 5% dos ressonadores. É este o caso quando as paragens respiratórias duram mais de 10 segundos e se repetem várias vezes durante a noite. A apneia pode ser obstrutiva, quando há obstrução física das vias respiratórias, ou então central, quando ocorre por falta do estímulo cerebral que controla a respiração. Neste caso, a pessoa esquece-se literalmente de respirar.

Consequências: além da alteração da qualidade de vida, as paragens de respiração baixam o nível de oxigénio no sangue e obrigam o músculo cardíaco a trabalhar mais intensamente, podendo haver subida da tensão arterial e até arritmias cardíacas. Existem soluções cirúrgicas, que vão desde a simples correcção nasal até às intervenções sobre o palato, úvula, amígdalas e base da língua. O Hospital de São João, no Porto, foi pioneiro na palatoplastia, uma técnica que em 15 minutos coloca três implantes no palato impedindo a sua vibração em casos de apneia ligeira.
 

Arrotar

Os romanos consideravam-no um sinal de educação que demonstrava satisfação com a qualidade da comida. A moda não pegou e actualmente arrotar é visto como bastante inconveniente para dizer o mínimo. É que além do ruído, o arroto costuma vir acompanhado de um odor desagradável da comida que está a ser digerida. Mas afinal arrotamos, ou eructamos, como dizem os especialistas, porquê? A maior parte das vezes devido ao ar que engolimos quando comemos ou falamos (sobretudo se o fizermos demasiado depressa) mas também graças a reacções químicas que ocorrem no estômago durante a digestão e que causam excesso de gases que o corpo liberta desta forma ou por via intestinal. Os gases libertados nos arrotos são sobretudo oxigénio e gás carbónico. Pastilhas elásticas aumentam a probabilidade de produzir arrotos já que obrigam a engolir mais saliva que vai acompanhada de bolhas de ar. As bebidas gaseificadas são outro item a pôr de lado por quem quer limitar este fenómeno.

Se arrotar ocasionalmente quando o estômago está cheio é normal e não representa qualquer transtorno de saúde, fazê-lo de forma crónica pode indiciar um problema mais grave como a úlcera péptica, o refluxo gástrico ou a gastroparesia. Nalguns casos pode também desenvolver-se um hábito ou tique de arrotar, quando as pessoas se sentem aliviadas ao fazê-lo. Qualquer um destes casos requer acompanhamento médico.

Flatulência

Uma pessoa normal liberta cerca de um litro de gases por dia compostos essencialmente por oxigénio, nitrogénio, anidrido carbónico e metano. Claro que há quem ultrapasse largamente esta quota, na maior parte dos casos devido a desequilíbrios alimentares. Lacticínios, feijão, repolho, brócolos, soja, cenoura crua, cebola, maçã, banana, melancia, carne gordurosa, cereais ricos em fibras, pão, e massa são alguns dos alimentos mais propensos a formar gases nos intestinos. À falta de um protocolo de Quioto dos gases internos, é possível apenas tentar evitar a ingestão dos alimentos mais problemáticos, sobretudo se for propensa a emitir este tipo de 'poluição'. O problema é que a alimentação é responsável por apenas um terço dos gases que produzimos. O ar que engolimos diariamente a falar, comer e beber é responsável pelos restantes dois terços. As pessoas mais velhas também têm uma tendência maior para a flatulência porque os seus tecidos são menos elásticos, o que torna seus órgãos menos eficazes a armazenar gases. A aerofagia é outra condição que pode contribuir para a flatulência. Basicamente trata-se de engolir ar em seco com mais frequência do que o normal, o que costuma acontecer em casos de ansiedade. A dilatação do estômago que ocorre nestes casos pode chegar a provocar dores no peito passíveis de ser confundidas com um ataque de coração. Felizmente na maior parte dos casos serão mesmo só gases.

Articulações que estalam

É a velhice dirá. Na verdade pode não ser e há bastantes pessoas novas com 'dobradiças' barulhentas. As articulações são mecanismos complexos que combinam tendões, ligamentos e cartilagem. Geralmente são lubrificadas com um líquido próprio, chamado sinovial, que contém alguns gases como oxigénio, nitrogénio e dióxido de carbono. O que acontece com o estalar dos dedos, por exemplo, é que quando se estica ou flecte a articulação, o gás liberta-se do líquido fazendo um som característico. Depois é reabsorvido novamente. Os tendões e ligamentos esticados, dos joelhos por exemplo, também podem resultar num estalar das articulações, quando se desviam do sítio original. Isto pode acontecer numa situação tão simples como levantar-se do sofá ou pôr-se de cócoras mas geralmente não é grave. No pior dos casos, será sintoma de artrite, uma inflamação das articulações que pode ter várias causas como degeneração da cartilagem (artrite degenerativa) ou problemas de auto-imunidade (artrite reumatóide). Dor e rigidez são sinais de alerta que a devem levar a procurar conselho médico.

Gorgolejar do estômago

O estômago ronca e imediatamente nos lembramos que já não comemos há um par de horas. Este órgão é um animal de hábitos e o ronco não é mais do que a sua preparação para o repasto esperado. O barulho ocorre pela agitação dos sucos gástricos dentro do estômago com os movimentos peristálticos. Ainda não há comida, mas o terreno está a postos. Para evitar o ruído o melhor é mesmo não ficar muitas horas sem comer. Uns snacks saudáveis a meio da manhã e da tarde mantêm o estômago ocupado. Pelo contrário, o hábito de comer pastilhas elásticas antes das refeições é contraproducente já que induz o estômago em erro fazendo-o pensar que vêm aí comida.

Consultoria: Jorge Brandão, clínico geral.

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