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Entrevista a Filipe Vargas: "aprendi que podemos encontrar o nosso lugar onde, como e quando quisermos"

Depois de uma década como criativo de publicidade, resolve virar-se para a representação. Hoje, com 45 anos, é um dos atores mais camaleónicos e vamos vê-lo na nova novela da SIC, ‘Espelho d’Água’.

Gisela Henriques

CARLAPIRES

O melhor e o pior de ter nascido nas Caldas da Rainha?

O melhor? A liberdade de movimentos, o contacto direto com o campo e com a praia em doses iguais, Óbidos, a Foz, a lagoa, o Parque, o hábito de fazer compras em mercados (ia sempre com os meus pais aos sábados de manhã à Praça da Fruta nas Caldas) e aquela coisa, que é mesmo verdade, de que na província toda a gente se conhece e isso acaba por dar alguma segurança e confiança à medida que se cresce. O pior, quando as pessoas ficavam a saber que era das Caldas, vinha logo a inevitável referência ao... das Caldas. E eu respondia sempre: "E o José Malhoa, o Bordallo Pinheiro, não conhecem?"

Depois de 10 anos a trabalhar em publicidade, resolve ser ator, porquê?

Nunca me imaginei a trabalhar como criativo de publicidade a vida toda e a certa altura essa inquietação teve mesmo necessidade de ganhar forma, num projeto de vida mais pessoal e ser ator era uma vontade que eu tinha guardada desde sempre. Um dia ganhei coragem e lancei-me: fiz as provas no Estudio Corazza em Madrid e entrei - em menos de um mês, fechei a minha vida aqui e mudei-me para Espanha, onde fiquei quase quatro anos. Voltei para fazer um casting, para o "Conta-me como foi", que foi o meu primeiro trabalho como ator e a razão para ter voltado.

Nessa altura da sua vida vai estudar e viver para Espanha, além do que estudou nas aulas, qual a maior lição que aprendeu fora de Portugal?

Quando mudamos de país tudo muda. Eu, além de estar a mudar de vida, de área de interesse, de voltar a estudar, etc., tive de começar a falar outra língua, dar-me com outras pessoas, comer outras coisas, ter outras rotinas, era tudo novo e isso ajudou bastante a mudar a cabeça para o que me tinha proposto a fazer. Guardo muitas coisas dessa vivência: a formação teatral, que foi de facto muito exigente e completa; os colegas e amigos, que mantenho até hoje; hábitos de leitura (li muitos autores espanhóis pela primeira vez e continuo a comprar o El Pais todos os domingos); hábitos alimentares (passei a comer regularmente espargos e lentilhas e gaspacho, o que não acontecia antes - só não me aventuro a fazer tortilla). Resumindo, acho que aprendi que podemos encontrar o nosso lugar onde, como e quando quisermos.

Qual é o seu lema de vida?

"Ignore nothing."

O melhor de ser ator é...

As várias personagens que interpretamos levam-nos a descobrir realidades desconhecidas, formas diferentes de pensar, coisas inesperadas - estamos sempre a aprender e a absorver e é essa, para mim, a essência de ser ator.

Já foi Cardeal (em 'A Vida Privada de Salazar'), Bispo (em 'Madre Paula') e agora é Prior (em 'Jacinta'), coincidência ou uma 'queda' natural para a vida religiosa?

Um ‘padre’ nunca é só um ‘padre’, assim como não o é um professor, um padeiro ou um médico. Nunca senti que estivesse ‘a fazer de padre’, estava a fazer de uma pessoa que também era padre, porque nunca nos definimos exclusivamente por uma só coisa. Mas respondendo diretamente à sua pergunta, não, não tenho queda natural absolutamente nenhuma para a vida religiosa, foi só uma feliz coincidência terem-me calhado estes padres todos.

Qual foi, até agora, o papel que mais gostou de interpretar?

Tenho sempre tendência a gostar mais do papel que estou a fazer e neste momento tenho dois em mão que me estão a encher as medidas: por um lado estou a gostar muito do Frei Martinho de Barros (para a série ‘Madre Paula’ da RTP1), que era o confessor do Rei D. João V e um homem culto, poderoso e livre, bastante livre; por outro, e num registo totalmente diferente, estou a dar os primeiros passos com o Hélder, um criminoso de pequena monta para a novela ‘Espelho d'Água’, que vai estrear em Maio na SIC.

O que gosta de fazer nos seus tempos livres?

Estar numa esplanada num parque a ler o jornal, com a Lola a correr de um lado para outro, é a minha ideia perfeita de um tempo-livre bem passado.

O prato (ou gastronomia) que não resiste?

Não há nada como um bom peixe fresco grelhado acompanhado por batata doce e um Redoma branco gelado.

O país onde gostaria ir de férias? Porquê?

Gostava muito de voltar à India, onde já estive duas vezes. É um país que mais parecem mil países, de tal maneira é diferente de zona para zona. Gosto das pessoas, da música, da comida, da atmosfera, do inesperado.

O papel (no cinema ou numa série de televisão) que o Filipe adoraria ter interpretado?

Para seguir a tradição de papéis eclesiásticos, não me importaria nada de ter interpretado a personagem do Jude Law na série ‘The Young Pope’.

Qual a série de televisão que não perde um episódio?

‘House of Cards’. Pelo Kevin Spacey, pela Robin Wright, pela visão fascinante e desconcertante da política.

Qual a atriz ou o ator que adoraria contracenar? Porquê?

Gostava muito de contracenar com a Luísa Cruz e estou a fazê-lo, finalmente, na novela ‘Espelho d''Água’. Já a vi muitas vezes no teatro, cinema e televisão e é sempre especial, nunca faz o óbvio, e tem sempre muita verdade.

Já não consegue viver sem...

A minha mini-coluna de som. Ando com ela de um lado para o outro, casa, carro, gravações - sempre com uma banda-sonora atrás.

Qual a música que não se cansa de ouvir?

A minha última obsessão é ‘Changes’ do Charles Bradley

O que a sua cadela Lola trouxe à sua vida?

Amor e disciplina. A Lola é uma grande companheira, dá-se bem com tudo e todos, tem um ar francamente feliz (e acho que o é). Mas, faça chuva ou faça sol, tenha de estar nas gravações às 7h ou vontade de ficar a preguiçar, aconteça o que acontecer, não podem falhar os grandes passeios sagrados de princípio e fim de dia.

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