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Paulo de Carvalho: "tenho muita fé nas pessoas"

2017 está a ser um ano em cheio para o cantor português: comemora o 70.º aniversário, faz 55 anos de carreira, é júri do programa de televisão ‘Just Duets’ e acaba de editar um disco muito especial, ‘Duetos’, produzido pelo seu filho Agir, com muitos dos seus êxitos. Vamos conversar?

Gisela Henriques

Qualquer português conseguiria reconhecer a voz de Paulo de Carvalho mesmo que a ouvisse numa remota viela a 10 mil quilómetros daqui. Inconfundível, carismática, ‘camaleónica’, foi ela que nos marcou para sempre com ‘E Depois do Adeus’, que ainda nos faz arrepiar pelo seu simbolismo. Mas o talento de Paulo de Carvalho vai mais além, como se prova em ‘Duetos’, lançado no dia 19.

Como surgiu a ideia de fazer este disco?

Foi do meu filho Bernardo, do Agir. Ele fez-me a proposta, disse-me que fazia todo o sentido agora, com 55 anos de carreira, fazer um álbum sobre a minha história musical. A ideia era eu cantar 17 canções do meu repertório, que estão na memória de muitas pessoas, tal e qual como sempre as cantei e depois convidar gente mais nova e outros da minha geração, como o Carlos do Carmo e Ivan Lins, e deixar os convidados brilhar.

E foi fácil trabalhar com um filho?

Sim, ele foi muito competente, não só nos arranjos como na organização. Não foi fácil juntar 16 pessoas com agendas preenchidas. Eu também fiquei muito agradecido por ver que há companheiros de profissão que me apreciam. E, sem falsas modéstias, acho que o disco está muito bom e faz sentido tanto na minha vida como na música portuguesa.

O problema é… e agora Paulo?

Pode editar um ‘Duetos II’!

Sim, com 55 anos de carreira há muito mais músicas e êxitos. Vamos ver…

Como é que o Paulo veio parar ao mundo da música?

Eu nasci na fábrica de bebés, na maternidade Alfredo da Costa, e cresci no Bairro de Alvalade, numa família de classe média baixa. Aos 14 anos, não achava graça à escola, gostava era de futebol e mais tarde de música, mas decidi ir trabalhar para uma companhia de seguros e estudar à noite. Nessa altura, nos anos 60, por moda, havia muita vontade de formar conjuntos musicais e eu juntei-me a outros miúdos da minha idade e formámos os Sheiks, que até teve bastante sucesso, onde eu tocava bateria.

E como foi ter toda aquela atenção e sucesso aos 15 anos?

Não fiquei deslumbrado com o sucesso, apesar de ter sido parvo e arrogante para algumas pessoas da companhia de seguros onde trabalhava, porque ganhava muito bem no Sheiks.

Continuou a ter sucesso, mas quando ganha o Festival RTP da Canção em 1974, com ‘E Depois do Adeus’, torna--se quase um ícone nacional, por ter cantado a música-senha do 25 de Abril.

Sinto muito orgulho que tenham escolhido essa cantiga e que ela faça parte da nossa história, mas também gostava que se lembrassem que eu existo para além dela ou dos ‘Meninos de Huambo’, afinal são 55 anos de músicas.

É mais conhecido como cantor, mas compôs imensas músicas conhecidas, algumas delas com o Ary dos Santos. Tem saudades dele?

Sim, as letras de ‘Os Putos’, ‘Lisboa Menina e Moça’, ‘O Cacilheiro’, são dele, e eu compus as músicas. Tenho saudades dele, sim, da sua truculência, do seu carinho, da sua bondade. Se há expressão que o defina é ‘Grande em tudo’.

Era uma pessoa interessada em política antes do 25 de Abril?

Não, despertei depois, o 25 de Abril trouxe-nos isso, a possibilidade de falar, de sabermos o que se passa à nossa volta.

Nessa altura compôs
o hino do PSD?

Não, do PPD [risos], que é diferente. Fi-lo porque acreditava naquele partido e não ganhei um tostão com isso. Entretanto o partido mudou, até de nome, mas eu não.

E foi filiado no Partido Comunista?

Sim, entrei para o PC em 80 e saí em 87. Não sou comunista, mas ainda hoje voto CDU nas eleições, a não ser que eu conheça pessoas de outros partidos que se candidatem à Câmara Municipal, ou outros órgãos locais.

Como é que vê a ascensão dos movimentos de extrema direita na Europa e a eleição de Trump nos EUA?

Faz parte da vida, não foi Lenine que disse ‘Um passo à frente, dois passos atrás’? Agora estamos nos 2 passos atrás mas eu tenho muita fé nas pessoas. Estamos numa aprendizagem contínua para vivermos melhor uns com os outros. Há problemas que me preocupam mais, como o clima, um dia destes vamos querer usufruir daquilo que o planeta
nos dá e não podemos.

Foi casado 5 vezes e mantém um bom relacionamento com as ex-mulheres!

Sim, acho que não vale a pena viver uma mentira ou aguentar uma relação anos e anos mas ter outra por fora. Prefiro ter um relacionamento correto com as pessoas.
E dou-me bem com as minhas ex-mulheres porque não houve aquelas mentiras prejudiciais às relações. Mas também tive a minha fase parva, de machão, sobretudo no primeiro casamento, a partir daí tentei fazer melhor.

E tem 5 filhos. É um pai diferente para as mais pequeninas?

Tenho um com 49 anos, a Mafalda com 40, o Agir com 29, e as duas mais pequenas, de 13 e 8 anos. Eduquei-os todos com os mesmos princípios, os meus, os tempos é que são outros. Não faço questão de os ensinar por conversa, eu ensino por atos, se eles estão atentos...

Tanto a Mafalda como o Agir estão na música, teve alguma influência nessa decisão?

Tive, certamente, mas não lhes disse o que fazer. Preocupo-me com eles, porque é um meio difícil, mas só quero é que sejam felizes. É um lugar-comum, mas verdade.

Qual foi o pior momento da sua carreira?

Foi quando tive de fazer um espetáculo na mesma noite em que estava a velar a minha mãe, mas não foi uma morte repentina, senão não aguentaria. Outro, foi quando as minhas cordas vocais rebentaram, estava nos EUA, com a Dulce Pontes, a cantar no hotel Taj Mahal cujo dono é hoje presidente dos EUA [risos]. Foram tempos de incerteza, fui operado e estive um ano sem saber se iria recuperar a voz. Felizmente correu bem e até melhorei as minhas capacidades vocais.

E o melhor momento?

Houve tantos, mas há tempos li uma biografia do John Lennon em que dizia que os melhores momentos dos Beatles ninguém os filmou, comigo também sinto isso. Há momentos em que estou com outros músicos e aconteceram coisas lindíssimas. Felizmente têm sido muitos.

Curiosidades

Aos15 anos apanhou uma bebedeira tal que só voltou a beber vinho aos 40 anos.

Jogou nos principiantes do Benfica, clube do qual é sócio vitalício.

Nunca canta em casa... nem no chuveiro.

O seu ídolo é Pat Metheny.

O filme da sua vida é ‘1900’, do Bertolucci.

A sua palava favorita é amor

Não gosta de andar de avião.

“Gosto muito de estar no ‘Just Duets’, mas é difícil julgar, porque podemos estar a dar cabo dos sonhos das pessoas.”

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