Vaidade adolescente: virtude ou defeito?

Os adolescentes compram roupa como gente grande e sabem perfeitamente o que ‘podem’ ou não vestir. Fomos saber as razões desta preocupação com o visual e conhecer o que está na raiz da vaidade aos 13 anos.

Catarina Fonseca/Activa
12 Agosto 2010, 10:53
Foto: Reuters Foto: Reuters

A Joana tem 18 anos e mais de 50 calças. Calças de ganga, claro, porque além das calças de ganga ainda há as de sarja de todas as cores.

A mãe, Teresa, não estranha e não limita: afinal, a Joana sempre foi boa aluna e excelente pessoa, e a vaidade é herança materna: "Eu na idade dela também era muito vaidosa, só que agora há imensa variedade de lojas para expandir essa vaidade. Ainda por cima, o irmão é bem pior. Ela é muito simples, veste-se à betinha, penso que é esse o termo, mas ele é muito, muito vaidoso. A roupa são eles próprios que a compram, se for eu, corro o risco de a trocarem por alguma coisa muito mais cara."





Ana Freire e Madalena Lupi, directoras da agência de estudos de mercado Web Channel, já fizeram várias reuniões com adolescentes e confirmam as palavras da mãe da Joana: de facto os adolescentes estão hoje em dia mais preocupados com o visual e a imagem.

Mas isso tem várias explicações. "Para começar, depende da idade", nota Ana Freire. "A mania das marcas, por exemplo, começa cada vez mais cedo, por volta dos 9 anos. Porquê? Porque é a idade da insegurança. No fundo também para os adultos a importância da marca tem a ver com a nossa crescente insegurança: a marca funciona como a nossa bengala. E os miúdos apreendem isso cada vez mais cedo."





Tal como a mãe da Joana, ambas afirmam que os pais estão em geral coniventes com a compra de mais uma calça de marca, também eles por insegurança. "Não há nada mais complicado do que ter de lidar com uma criança que é excluída por coisas tão tolas como porque não tem a marca tal", nota Madalena.

"Portanto, não custa nada, ou custa 'apenas' dinheiro, que é o bem mais descartável hoje em dia, porque o mais precioso é o tempo. Isto é um círculo vicioso: como as pessoas têm cada vez menos filhos, têm cada vez mais dinheiro para gastar com cada filho, e se uma criança tem, todas as outras querem, e depois as pessoas não têm mais filhos porque não podem dar a cada um aquilo que eles pedem, e por aí fora."





"Dantes, nenhuma criança de 5 anos sabia o que é que tinha vestido", lembra Ana. "Hoje em dia vai às lojas e tem linhas de maquilhagem para crianças... A brincar a brincar, criam-se necessidades artificiais que depois se tornam necessidades sociais."

O reino das tribos

A adolescência não é una, tem cada vez mais sub-divisões. As duas investigadoras dividem-na em 'adolescentes' (entre os 9 e os 15, 16 anos), e os 'jovens', (os mais velhos). E são os adolescentes cada vez mais novos quem mais se preocupa em vestir 'como deve ser'.





Ana faz notar um fenómeno que começou lá fora e já chegou a Portugal: há uns anos, eram os jovens mais velhos que ditavam a moda, e os mais novos iam atrás. Agora, são os de 12 e 13, os 'dreads', que criam a sua própria moda. "E isso também tem a ver com a tal necessidade de criar uma tribo onde pertencer. Querem-se desmarcar, por um lado, das crianças, e por outro, dos mais velhos. Aqui há uns tempos, esta era uma faixa quase invisível, nem carne nem peixe. Agora já há gente a fazer roupa só para eles, porque as marcas descobriram/criaram (as coisas acabam por se confundir) e aproveitaram o fenómeno. E não só a moda: hoje há discotecas para miúdos de 12 anos, e telenovelas para miúdos de 12 anos."





A relação com a roupa e a imagem depende da idade e da fase de escolaridade: aos 12 eles têm pavor de ser diferentes. Os mais velhos já encontraram cada um a sua tribo e desenvolveram a sua personalidade e estilo. "Nos grupos que fazemos com jovens mais velhos já não se sente essa insegurança e necessidade de pertença", nota Madalena.

"Pelo contrário, gostam de marcar o seu estilo. Enquanto um miúdo de 12 anos acha fantástico ter uma t-shirt com o nome da 'sua' marca, mesmo que venha da feira de Carcavelos, um de 15 cospe em cima daquilo. Aos mais velhos importa mais o estilo do que a marca. Nas nossas reuniões, conseguimos ter seis jovens de 'tribos' diferentes - betos, dreads, étnicos, normais, etc - sem se antagonizarem nem se anularem. Na universidade, as coisas já não são tão vincadas. É só quando lhes puxamos pela língua que percebemos que a 'tribo' ainda lá está, mas já não é tão aparente."





Há uns tempos fizeram um estudo sobre as tribos e chegaram à conclusão que a maior era a seguinte: os 'normais simpatizantes de.' "Eram normais mas achavam graça, por exemplo, ao estilo punk", ri Madalena. "Ou então eram normais mas meio-hippies, normais mas assim com duas trancinhas no cabelo. (ri)"

Sim, somos consumistas, e então?

Os próprios adolescentes assumem-se como consumistas. "Eles têm muito poder de compra e auto denominam-se consumistas", afirma Ana. "Mas sem problema nenhum. Qual é o problema de ter 30 t-shirts, acham eles? Problema é matar e roubar..."





A obsessão com a roupa faz parte de um mundo cada vez mais competitivo. "Vou ser cruel", diz Madalena, "mas é assim: dantes, tinha-se dez filhos porque três morriam. Agora tem-se só um, e ele tem de ter uma vida perfeita. Não pode sofrer, não pode passar por frustrações. Ora tudo isto é importante. Por que é que os miúdos hoje se arriscam a ser eternos adolescentes? Porque ninguém os deixa sofrer! E sem sofrer não se cresce. Esta sociedade que temos hoje não é necessariamente boa nem necessariamente má, temos é que ter alguma sensatez."





"Penso que negar estas coisas não é solução," reforça Ana. "Eles até podem ficar génios, mas ficam sem contacto com os outros... Não podemos cair em extremos, e é preciso ver o lado positivo das coisas."

Também há adultos com 50 calças...

Voltamos à 'betinha' Joana e às suas mais de 50 calças de ganga. Não será um exagero? "Existem muitos adultos que têm mais de 50 calças sem que isso seja um "problema"..." nota a psicoterapeuta Eunice Neta, responsável pela Consulta da Adolescência e Consulta da Família no SEI- Consultório de Orientação Psicopedagógica. "Para um adolescente, a roupa tem muitos significados, pelo que cada par de calças quererá dizer algo diferente, mesmo quando ficam esquecidas no roupeiro durante meses."





A psicóloga nota que é normal a vaidade e o narcisismo num adolescente. "Com um corpo em constante mudança, com um novo mundo social para descobrir; é natural que os jovens dêem grande importância à imagem: não só em termos de a descobrir (estão horas em frente ao espelho, como Narciso), como também de a experimentar socialmente (mostrando aos amigos as suas 51º calças de ganga)."





Esta importância social da 'tribo' e do grupo de amigos também é reforçada. "Mais importante que o estereótipo passado pela comunicação social é o estereótipo do grupo de amigos escolhido pelo jovem. Ao contrário da imagem que muitas vezes os media passam, a adolescência não tem de ser tumultuosa e rebelde. É normal que se passe mais tempo com os amigos do que com a família, é também normal que se oiça mais os amigos que os pais - no entanto, na maior parte dos casos a opinião dos amigos não difere assim tanto da dos pais."





Eles precisam de ser primeiro todos iguais para que depois aprendam a ser diferentes?

"Exactamente! Da mesma forma, necessitam muitas vezes de questionar os valores dos adultos para depois conseguirem integrar alguns desses elementos com elementos resultantes das suas próprias reflexões e experiências. Normalmente, é por volta dos 14/15 anos que o adolescente começa a diferenciar-se do seu grupo, diminuindo a ansiedade de ser "diferente" - desta forma desenvolvem-se competências a nível da tolerância que serão úteis toda a vida. Aprender a ser diferente e a conviver com a diferença é uma aprendizagem de vida que podemos até nunca concluir."

A vaidade é saudável

Apesar de todo o stresse da vida moderna, tudo isto se pode integrar num estilo de vida saudável: mesmo a vaidade. "A vaidade é saudável durante toda a vida, desde que reforce uma autoestima construída "por dentro" e não "por fora"", explica Eunice Neta. "Um adolescente que não se preocupa com a sua aparência, que não tem amigos ou parece não se interessar em tê-los, está a dar tantos sinais de alerta como um adolescente cuja única preocupação é a sua imagem. Nos últimos anos, sempre que falamos de adolescência e imagem quase somos obrigados a falar de anorexia. Eu prefiro falar sobre o que de positivo e normal existe na adolescência!"





Afinal, o que é que se pode fazer para combater esta ideia de que o visual é o mais importante? "É uma ideia difícil de combater, sobretudo porque os adolescentes são peritos em descobrir incongruências nos adultos", recorda Eunice. "Não podemos dizer que está errado e que há coisas muito mais importantes, e depois passar a tarde de Domingo no centro comercial às compras. Mais importante que combater esta ideia da importância da imagem, é fomentar a importância da reflexão, do diálogo e da construção de uma identidade coerente."

E aproveitar bem os filhos: "Os adolescentes são fascinantes com a sua capacidade de reflectir sobre todas as coisas como se as descobrissem pela primeira vez, com a capacidade de se emocionarem e viverem ao rubro todas as emoções. Temos primeiro que dar o exemplo, procurando conhecer bem os filhos, mostrando curiosidade, conversando ou apreciando uns minutos de silêncio em conjunto. Eles podem pedir roupa, mas normalmente há um pedido essencial na adolescência: deixem-me ter o meu espaço, respeitem a minha privacidade, deixem-me ter as minhas experiências... e quando virem que preciso dêem-me colo e conversem comigo."

Mais umas calças?

Como é que se pode responder a mais um pedido de roupa? Ceder a tudo de imediato pode criar filhos incapazes de lidar com a espera e a frustração. Por outro lado, umas calças para um adolescente são mais importantes que umas calças para nós porque continuam uma espécie de senha de integração...





"Ceder a tudo não é ajudar a crescer", lembra Eunice Neta. "Isto é válido para qualquer idade. É natural que na adolescência os pais cedam devido ao cansaço trazido pela contestação e argumentação dos jovens. Mas é muito mais importante conversar sobre os pedidos e negociar soluções do que ceder imediatamente. Os limites impostos pelos pais ajudam os adolescentes a crescer em segurança (sabendo até onde podem ir e provavelmente tentando ir um pouco mais além), mas também permitem que o adolescente experimente em casa aquilo que se passa na sociedade onde existem normas, regras e limites para todos nós."

Clique para subscrever a NEWSLETTER ACTIVA.pt!

Siga-nos no Twitter





















Palavras-chave

ATENÇÃO:ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

RECEBA GRÁTIS NO SEU EMAIL AS NOTÍCIAS QUE ESCOLHEMOS PARA SI!

SUBSCREVA AQUI!

Pesquise as melhores ofertas de emprego para si

últimas da TVMAIS

ASSINATURAS

A sua revista com ofertas e descontos até 60%

MOBILE

No seu telemóvel ou tablet, todos os dias

LOJA

X

Sabia que o seu Internet Explorer está desatualizado?

Para usufruir da melhor experiência de navegação na nossa página web recomendamos que atualize para uma nova versão. Por favor faça a atualização aqui .