activa

Perfil

Estilo de Vida

Vidas de coragem

É difícil ficar indiferente às histórias destes três jovens, que nem o facto de serem deficientes lhes roubou a alegria de viver. são verdadeiras lições de vida e coragem para todos nós.

Palmira Correia/ACTIVA

MIGUEL DE BRAGANÇA
A queda de um cavalo deixou-o tetraplégico

Há três anos que Miguel se desloca em cadeira de rodas, depois de ter caído de um cavalo da Escola Portuguesa de Arte Eques-tre, na Coudelaria de Alter do Chão, onde estudava. "Esse cavalo foi-me distribuído enquanto aluno do curso de Técnico de Gestão Equina, já que o meu sonho era seguir a vida profissional ligada aos cava-los", conta o jovem, de 22 anos, que quis falar com a ACTIVA em Casal de Santo André, nas imediações de Lisboa, onde aprendeu a montar ainda criança com o mestre equitador António Borba Monteiro.
O acidente aconteceu em Fevereiro de 2002. "O cavalo estava a andar bem, até que começou a ficar excitado quando sentiu o cheiro de uma égua com o cio e ouviu o barulho dos chocalhos das outras éguas que andavam a pastar no campo, mesmo ao lado do picadeiro", recorda. Nesse momento, o animal conseguiu es-capar-se por uma porta inadvertidamente aberta e saiu do picadeiro para um carreiro cheio de pedras. "O cavalo começou a escorregar e tentou livrar-se das pedras e de mim. Mas não tinha mau carácter, foi uma coisa natural", reconhece Miguel, tal é o seu amor pelos cavalos. Acabou no meio do mato, quatro metros abaixo da barreira de pedras.

O pai salvou-lhe a vida

Foi o pai que o encontrou. Afonso de Bragança nunca ficava em Alter do Chão, mas naquele fim-de-semana tudo foi dife-rente. Quando o pai viu chegar o cavalo sem o filho, foi à procura dele e encontrou-o paralisado no chão. "Não sinto nada, não consigo mexer nem o dedo do pé", terá dito ao pai, consciente da tragédia. Primeiro veio a ambulância, depois o helicóptero que o transportou para o Hospital de São José, onde esteve internado dois meses e meio. "Foi operado à coluna pelo Dr. Paneiro Pinto, um excelente médico", garante a mãe, Madalena, que teve de deixar de trabalhar para dar apoio ao filho.
A recuperação acabou por ser feita em Vincenza, Itália, por Humberto Cer-rel Bazo, um dos melhores médicos de coluna e fisioterapia do mundo. "Quan-do regressámos ao nosso país, um ano depois, o Miguel continuou a fazer fisioterapia na piscina da AFID, em Alfragide", informa a mãe, sem esquecer o desgosto horrível que foi ver a vida que o filho tinha pela frente acabar aos 19 anos. "O Miguel tinha uma vida fantástica e era um desportista de mão-cheia."
Hoje, Miguel limita-se a ver os outros jovens montar. "Foi como meter travões a fundo", mas assegura que nunca per-deu a esperança. "Acredito do fundo do coração que ainda irei andar", diz. O pai acrescenta que a maior mudança na sua família, profundamente unida, foi a dis-ponibilidade para o filho. "Ele é a nossa maior prioridade! Criámos-lhe condições para ser independente", graças à ajuda permanente do brasileiro Júnior, que o leva para todo o lado.
Miguel continua a contar com o apoio do amigo e professor de equitação. "De-pois do acidente formámos a Quadra de Ensino Santo André Lusitanos Associação Equestre, para promover o cavalo Lusitano na alta competição no País e no estrangeiro, a pensar nos Jogos Olímpicos." Até agora já organizaram um concurso internacional e estão a preparar a Taça Ibérica, que terá lugar em Maio, na Sociedade Hípica Portuguesa. Três anos depois do acidente Miguel continua a fazer o que sempre quis: trabalhar com cavalos. O melhor momento depois do acidente foi seguramente aquele em que montou um cavalo na escola de hipoterapia do Campo Grande. "Vou continuar a dar o melhor pelo cavalo Lusitano", assegura o jovem, que tem uma paixão infinita por cavalos.

JORGE GONÇALVES
Apesar de cego, nunca desistiu de ser pianista

Nasceu em Coimbra há 21 anos com um problema de visão grave; no entanto só aos 5 anos o glaucoma congénito lhe retirou definitivamente a luz do olhar. "Eu e o meu marido somos porta-dores assintomáticos da doença. Por isso temos 25% de probabilidades de termos filhos doentes. Tivemos azar: a nossa filha só vê 50% e o Jorge é completamente cego", desabafa a mãe, Lina Gonçalves.
Consola-se com o facto de o filho ter visto até aos 5 anos, o que o ajuda a cons-truir imagens reais. "Caiu-nos o mundo --em cima, mas foi só uma semana. Chorámos muito e depois foi o recomeço. O Jorge, apesar de ter ficado cego, teve um percurso e uma evolução física e psicológica normal." A mãe sabe que a visão faz falta, mas tem consciência de que o filho tentou colmatar as suas dificuldades com os outros sentidos. "É um lutador. Como perdeu a visão muito cedo, habituou--se desde logo a outra forma de viver a vida", sublinha.
Jorge não se lembra de tudo o que viu, mas nunca mais se esqueceu das cores nem da imagem dos aviões a aterrar e a descolar, que o pai, oficial da Força Aérea, lhe mostrava quando era pequenino. "As imagens que me acompanham até hoje são a luz do sol e as diferentes cores do céu, as nuvens, o pôr-do-sol, o crepúsculo, a noite." E regozija-se com o facto de ser um dos raros cegos a ter a verdadeira percep-ção de um arranha-céus. "Fui aos Estados Unidos com dois anos e meio e ainda me lembro dos táxis amarelos e de estar no topo do Empire State Building."
Até aos 18 anos Jorge nunca deu um passo sozinho em Coimbra. O pai e a mãe revezavam-se para o levar à escola, ao liceu e ao conservatório. "Sem livros em Braille, éramos nós que lhe líamos as matérias todas e o ajudávamos a estudar." Quando a música entrou na vida do jovem pianista, aos 9 anos, era a irmã que lhe fazia a leitura das pautas. Jorge fez o liceu e o conservatório de Coimbra em simultâneo, mas aos 18 anos sentiu que Portugal era pequeno para as suas aspirações e foi para Paris estudar numa das melhores escolas de piano do mundo sem ajudas de ninguém. "Esse foi o momento mais difícil das nossas vidas. Deixar um filho cego, que nunca fez nada sem o nosso apoio, num país distante foi uma angústia enorme", revela a mãe, sem se queixar dos enormes sacrifícios da família. "Um dos nossos ordenados era para pagar a escola do Jorge".
Apesar de ter chegado a França sem saber andar sozinho na rua, hoje, graças a um moderno GPS comandado por voz, Jorge Gonçalves consegue deslocar-se sozinho. Em breve os pais vão comprar--lhe uma sofisticada bengala, que vibra à proximidade de obstáculos. "O meu maior sonho é que o meu filho seja autónomo e que viva, sem o apoio de ninguém, com o trabalho dele. Foi para isso que lutámos e o preparámos. É cego mas tem mãos e cabeça para trabalhar", conclui a mãe, enfermeira na Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra.

Sonhos de um músico

Três anos depois regressou a Portugal com os seus estudos superiores concluídos. "O meu trabalho a nível de piano é igual ao dos outros pianistas, com mais limitações mas também com mais vantagens!", e explica quais: a audição, o ouvido e, sobretudo, o sentimento. "Tenho uma relação mais íntima e intimista com o piano e com a músi-ca." Consciente de que a formação de um pianista é muito longa, sonha com o seu regresso a Paris para evoluir ain-da mais. Até lá prepara-se com todo o empenho para o concerto de Grieg, em que será o único solista ao lado da conceituada banda de 92 elementos da GNR, numa gala que terá lugar a 11 de Maio no Teatro Nacional de São Carlos. Além deste convite, que apa-nhou de surpresa o jovem pianista, foi convidado para fazer três concertos em três cidades brasileiras e na Europa. "Foi muito difícil a minha adaptação em Paris, senti muito a solidão e vivi muitas angústias. A maior recompensa para os meus sacrifícios foi voltar a casa com o diploma com que tanto sonhei e ter propostas de trabalho." Jorge anseia trabalhar, o mesmo desejo que qualquer jovem tem depois de acabar um curso.

MAFALDA RIBEIRO
Corpo de criança e cabeça de gente grande

Uma doença de nome estranho e com-prido osteogénese imperfeita ditou-lhe à nascença a cadeira de rodas como único meio de locomoção para o resto da vida. Os ossos de Mafalda são tão frágeis que se fracturaram no ventre materno e con-tinuaram a partir-se quase uma centena de vezes até aos 14 anos.
A jovem nasceu há 21 anos com 36 cm e 1,9 kg. "No momento do parto disseram-me que só um milagre lhe daria mais de três meses de vida", recorda a mãe, Cesaltina Ribeiro, 46 anos, sorriso bonito e palavra fácil, ainda hoje magoada com a indiferença de médicos e enfermeiras.
A mãe de Mafalda casou-se aos 22 anos com o sonho urgente de ter filhos. Concretizou-o aos 25, desesperada por tanta espera. "Quando a minha filha nasceu, de cesariana, sem força para vir ao mundo sozinha, esconderam-na de mim. Diziam que eu era nova e po-deria ter mais filhos. Houve até quem me dissesse: 'Peça a Deus que a leve'", conta, sem conseguir esconder a dor.
Ex-operária têxtil, Cesaltina nunca mais esquece o sofrimento de regressar a casa sem a menina que tanto desejou. "Secaram-me o leite porque achavam que ela não iria sobreviver, mas ao fim de 20 dias o meu marido assinou um termo de responsabilidade e trouxe-a para casa. Diziam que não tínhamos condições para a ter connosco porque ela iria partir-se toda e chorar dia e noite." Enganaram-se. Mafalda chorava de três em três horas para comer, como todos os bebés. "Começou a sorrir muito cedo e com sete meses já chamava o pai, o que nos deu muita força", recorda a mãe.
Para a escola ia de carrinho de bebé e só aos 8 anos chegou de Inglaterra a cadeira de rodas automática. Com a chegada do liceu, a mãe tirou a carta de condução e transportar a filha transformou-se no seu emprego a tempo inteiro. "Levo-a à Facul-dade de manhã, fico no carro à espera e depois deixo-a no emprego à tarde e vou buscá-la ao fim do dia."

Paixão pelo jornalismo

Mafalda encara a sua doença com uma normalidade comovente. "Tive uma infância muito normal. Tenho consciência de que os meus pais fize-ram muitos sacrifícios e abdicaram de muitas coisas, mas fui muito mimada e gostava quando o meu pai me levava ao café, mesmo que não deixassem de olhar para mim", desaba a jovem, que, apesar das suas limitações, nunca desistiu de ser jornalista, razão por que já está no 4.º ano de Jornalismo.
Desde que se conhece que Mafalda se habituou a despertar a curiosidade dos outros. Por isso só em casa se sentia normal, apesar de ter sentido falta de um irmão que os pais desejaram igualmente que chegasse e nunca chegou.
Ao contrário do que seria de esperar, o maior desejo de Mafalda não é andar. "O meu maior sonho é ser uma profis-sional realizada, ter a minha casa e a minha família." E congratula-se com o facto de os amigos até se esquecerem da sua deficiência. "No início são muito protectores, a se-guir é tudo normal." Levam-na para a discoteca, dançam com ela ao colo e divertem-se como todos os jovens.
Para além da Faculdade e do seu trabalho no Departamento de Comunicação da Valorsul, uma empresa de separação de resíduos, a mãe garante que a filha ocupa os sábados com cursos de tudo e mais alguma coisa, nomeadamente um de língua gestual. A sua terra, Ca-lhandriz, nas imediações de Alverca, perto da capital, já foi surpreendida com duas magníficas festas organizadas pela sua pequena menina, apresentadas por ela e por Jorge Gabriel, de quem Mafalda é amiga. Tudo na sua vida é normal, a não ser a altura. Tanto que nem prescindiu da viagem de finalistas a Espanha e das inúmeras directas. "A minha filha é uma experiência de vida para mim. Quando estou triste ou deprimida, é ela que me dá força e me compensa", conclui a mãe, orgulhosa da filha que tem.

ONDE PEDIR AJUDA
Se tem um filho ou familiar deficiente, damos-lhe alguns contactos úteis:
Associacao de Pais e Amigos dos Deficientes Profundos, 218596155.
Associacao de Pais para a Educacao de Criancas Deficientes Auditivas, 217520550.
Associacao Portuguesa de Paralisia Cerebral, 213547990. ð¯ Associacao Portuguesa de Portadores de Trissomia 21, 218371699.
Associacao Portuguesa para Proteccao aos Deficientes Autistas, 213616250.
Associacao Promotora de Emprego para Deficientes Visuais, 218310760.
Centro Helen Keller, 213017493.