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Casadas com o Skype: 4 testemunhos de famílias separadas pela emigração

Nada é como antes, tudo é como antes. O Skype dá a ilusão de proximidade e os aviões e viagens são mais frequentes do que nos anos 60-70, mas uma coisa é certa, a emigração portuguesa continua a separar famílias e a criar um vazio de afetos.

Gisela Henriques

Ana Marques, Ana Hipólito e Paula Noronha não se conhecem, vivem em localidades diferentes, mas as suas vidas têm muitos pontos em comum: são mães ‘solteiras’… sem o serem verdadeiramente. Estão casadas mas vivem sozinhas com os filhos e com tudo o que isso acarreta: ansiedade, stresse, exaustão e fonte única e inesgotável de afetos. Onde estão os companheiros? Fazem parte da enorme vaga de emigrantes que assola o nosso país desde que a crise económica se instalou. O relatório do Observatório de Emigração de 2013 refere 80 mil saídas do país desde que a troika se instalou em Portugal, ora isso equivale a uma média de perto de 7000 pessoas por mês a emigrarem. “Nos anos mais recentes, estimativas feitas pelo secretário de estado das Comunidades, José Cesário, colocavam o número de saídas anuais acima dos 100.000”, pode ler-se. Impressiona.
Quisemos saber como é que vivem, como superam os obstáculos, como matam saudades...


Ana Marques 
38 anos|responsável financeira|2 FILHAS: Constança 9 anos, Carlota 5 anos|Marido: João Sá, engenheiro civil, 
no Peru há ano e meio

Mãe, falar por Skype não é a mesma coisa”
“A decisão do João ir para o Peru foi muito difícil, ele sempre foi muito chegado à família e um grande apoio para mim, mas foi a única hipótese. Esteve mais de um ano sem arranjar nada por cá e estava a tornar-se incomportável. Saiu do país porque não teve alternativa.”
Como não sabia o que ia encontrar por lá e Ana estava empregada, ficou em Portugal com as filhas. Ainda ponderou ir, porque fazia sentido a família estar junta. Pensou que “ele ia chegar e dizer que aquilo era muito bom para irmos todos, mas não foi isso que aconteceu, até porque o  João também nunca está muito tempo num só sítio, já esteve numa refinaria nas montanhas, agora está numa petrolífera à beira-mar, por isso, irmos para lá para ficarmos sozinhas não faz sentido”.
Quando falaram com as filhas, a mais pequenina não percebeu o que isso implicaria, mas Constança ficou ansiosa e as perguntas não tardaram em chegar: ‘quando é que o pai vem, quanto tempo é que vai demorar…’. Ana tentou fazê-la perceber que a ida do pai para fora tinha um lado bom porque ela tinha visto a tristeza do pai quando estava em casa sem conseguir trabalhar. No dia da despedida, Carlota não teve reação e Constança só chorava, mesmo que a mãe garantisse que ela ia falar com o pai todos os dias por Skype. “Sabe o que me disse? ‘Eu sei mãe, mas não é a mesma coisa’. Partiu-se-me o coração.”
O prometido é devido, todos os dias, apesar da diferença horária de 6 horas, falam por Skype. “Assim que chego a casa ligo a aplicação no Ipad para ele perceber que já estamos disponíveis. Falam com o pai, tomam banho, jantam e eu vou contar-lhes uma história. Para o João não perder pitada do que andamos a fazer, tiro imensas fotos e pomos no Instagram e ele é o único a seguir-nos. Faço um relatório diário das nossas atividades e dos TPC para ele saber o que andam a dar na escola. Tento partilhar o máximo de informação para colmatar a distância e a saudade.”

Quando o pai vem
João Sá tenta visitar a família 3 a 4 vezes por ano, “quando ele vem elas não o largam. Mas na primeira vez, a mais pequena, que parecia não ligar muito, tinha paragens de digestão todos os dias à noite durante uma semana. Tivemos de ir ao hospital. A médica que a diagnosticou disse que era a forma de ela ‘desbloquear’ aquilo que sentia”.
As despedidas são feitas em casa, para serem mais leves. Ana só as levou uma vez ao aeroporto para se despedirem e “foi traumático. O meu marido estava tristíssimo, as meninas choravam, até mesmo depois de ele partir. Bem tentei acalmá-las e dizer que o pai ia mas voltava sempre, que ele ia trabalhar. A Constança vira-se para mim e diz-me ‘o problema não é o pai ir embora trabalhar, o problema é que ele ia muito triste’. Fiquei sem palavras…”

Os primeiros tempos
“Como foram? Horríveis! Achava que tinha de ser a supermulher, preocupada porque faltava um iogurte em casa, passava as horas de almoço enfiada em supermercados a fazer compras, não respirava, andava muito ansiosa. Agora estou mais relaxada, não é por não haver iogurtes em casa um dia que há problema, não consigo substituir o pai mas estou a fazer o meu melhor. Nós dividíamos muitas tarefas e só sentimos falta disso quando um deles falha. Quando me telefonam da escola a dizer que a Carlota partiu a cabeça e saio a correr sem saber o que vou encontrar, é difícil perceber que não tenho ninguém com quem partilhar a minha ansiedade.” 
Quando uma delas está doente, Ana tenta deixar a outra filha com amigos enquanto vai ao médico. “Não tenho os meus pais ou sogros por perto, estão todos em Viseu.”
A ida do pai para fora também alterou a relação de Ana com as filhas, têm medo que também a mãe se vá embora, se se atrasa ficam preocupadas e à noite começaram a ter pesadelos. Para evitar passar a noite de quarto em quarto a acalmar as filhas, deixou-as ir para a sua cama. “E passámos a dormir as 3 juntas. Agora está difícil fazê-las voltar às suas camas.”

Sem tempo para nada
Além das saudades do marido, aquilo que Ana mais lamenta é não ter tempo para relaxar. “Agora estou a voltar à ginástica à hora de almoço ou a fazer acupuntura, que é o meu maior refúgio.” As saídas com as amigas são muito raras e teve de pensar bastante para se lembrar da última… que não foi uma saída, foi em sua casa. “Fiz um jantar com algumas amigas no Dia da Mulher. Isso só acontece em datas especiais.”
É verdade que quem vai para fora sofre imenso porque está longe da família, mas quem cá fica também sofre com o peso da responsabilidade de gerir a família. “Não gosto de me queixar, até porque sei que ele está a fazer um sacrifício enorme, mas ser a mãe 24h sobre 24h é muito cansativo, não dá tempo para respirar. Sinto muita falta de falar com ele à noite, sentados no sofá, com calma. Para um casal é muito difícil lidar com esta distância. No nosso caso nem sequer temos tempo para falar os dois sozinhos ou namorar um bocadinho por Skype, devido à diferença horária. Ficamos mais fragilizados, mas é tudo uma questão de hábito… a dor e sofrimento é igual para os dois, acho. 
Não sou uma pessoa derrotista, pelo contrário, acho que como nós gostamos muito um do outro, isto vai ser um obstáculo que havemos de ultrapassar. É um projeto que vai ter um princípio, um meio e um fim. E que vai correr tudo bem.”


Ana Hipólito 
36 anos | delegada de informação médica | 2 filhos: Bernardo 8 anos, Carolina 5 anos | Marido: Nuno Miguel, produtor de televisão, no Qatar há 3 anos

“Preocupa-me muito que os laços familiares se esbatam”
Como o marido já viajava muito antes de emigrar para o Qatar, os filhos não sabiam o que esperar e a partida do pai foi feita sem traumas. Só começaram a estranhar a ausência prolongada, agora só o veem de seis em seis meses. 
“O Nuno teve de sair não tanto porque estivesse desempregado, mas porque começou a sentir que aqui não havia tantas oportunidades como lá fora, as coisas começaram a estagnar, e como trabalhava por conta própria não tinha muitas regalias. No fundo, saiu antes que as condições aqui se deteriorassem completamente e também para progredir na carreira.” 
Para lhes dar algum sentido de rotina com o pai comunicam todos os dias, e a tecnologia é uma vantagem muito grande, reconhece Ana. “Falamos por Skype e FaceTime, o que é muito bom, lembro-me de o meu pai ir lá para fora trabalhar e só falávamos por telefone de 15 em 15 dias.” Bernardo, como já tem 8 anos, gosta de falar com o pai e sente muito a sua ausência porque partilhavam alguns hobbies, como o surf. Carolina já é mais difícil e Ana tenta contornar a situação sem a querer forçar, “tento incentivá-la a falar do que fez durante o dia, mas é muito fugidia. O Bernardo já gosta de falar com o pai, embora se estiver distraído tente despachá-lo, e é isto que mais me preocupa, os laços familiares que se esbatem. Tento sempre ligar quando estamos à mesa a jantar, para parecer que estamos juntos à refeição.”

Vida própria, o que é isso?
“Ui, onde é que ela já vai! [risos] Eu vivo para eles e para o trabalho e tenho a sorte de ter 2 filhos que aceitam estar comigo também nas minhas atividades. Eles percebem que se eu vou às atividades deles, eles também podem vir às minhas. Já cheguei a levar a Carolina a uma aula de spinning. Ficou num cantinho a brincar com bonecas. Mas tenho saudades do tempo em que ainda tinha tempo para por creme no corpo. Coisas dessas pequeninas, ou então ver um filme que não seja para crianças.” Estando a família longe de onde mora, a mãe ajuda-a pontualmente e Ana conta sobretudo com a ajuda da sua melhor amiga, “não sei o que faria sem ela. É o meu braço direito. É ela que fica com eles quando um está doente, quando tenho uma viagem de trabalho, porque a Carolina, como ainda não tem aulas, pode ficar com a minha mãe, mas o Bernardo precisa de ir à escola”.
Os homens têm a vida mais facilitada lá fora? “Eles sofrem bastante com a ausência da família, mas cá a vida também é dura. O homem desliga o Skype e pode ir beber um copo com os amigos. Eu desligo o Skype e tenho de ir arrumar a cozinha, pôr a roupa na máquina, preparar as coisas para o dia seguinte. Tento não cobrar muito porque no fundo ele também está a fazer um sacrifício pela família e não está lá porque quer, mas se calhar há dias em que estou mais sensível e sou capaz de lhe dizer que não estou a ter uma vida muito fácil, que não tenho tempo para nada.”

Todos juntos
Quando o pai vem é uma festa e Ana leva os filhos ao aeroporto para o esperarem, embora tenha de gerir a ansiedade quando há atrasos, sobretudo de Carolina. “O Bernardo, quando vê o pai, corre para ele, a minha filha não, começa por rejeitá-lo mas depois não larga o pescoço do pai o tempo inteiro. Este ano fomos lá ter com ele, e pela primeira vez a Carolina teve o pai no dia do seu aniversário, até porque, mesmo antes do Nuno ir para o Qatar, janeiro era um mês de muito trabalho e ele nunca estava.”
O tempo a dois é que nunca é suficiente, em férias estão sempre os 4, e é natural que a intimidade se ressinta. “Os primeiros dias em que estamos os dois é estranho, a falta de hábito de estarmos juntos tem o seu peso, em 6 meses há coisas que mudam. Mas reaprendemos rapidamente [risos]. É claro que há medos, o medo normal de qualquer pessoa que está separada do seu companheiro, a situação pode mudar drasticamente de um dia para o outro. A gestão dos ciúmes tem de ser bem feita. Mas a verdade é que, a acontecer alguma coisa, tanto pode ser aqui como noutro país, não é por estar longe que algo vai acontecer.”



Paula Noronha 
44 anos | auxiliar de educação | 2 filhos: Mateus 9 anos, Miguel 5 anos |Marido: António Simões, cozinheiro, há 4 anos em Angola

“O que não nos mata, torna-nos mais fortes”
Agora, a vida de Paula está muito melhor. O marido está um mês em Angola e um mês em casa. Diz que não se pode queixar. Mas há 4 anos, quando António foi para aquele país africano pela primeira vez, só se viam de 6 em 6 meses, durante 12 dias. “Nessa altura, ainda pensámos em ir todos, mas depois comecei a pesquisar e percebi que a escola dos miúdos, as rendas, tinham preços exorbitantes…
Nos primeiros meses que fiquei sozinha, morri e ressuscitei [risos]. Foi muito difícil, senti-me esmagada pelo peso da responsabilidade e andava exausta porque o meu emprego também não é fácil. A minha vida mudou muito, tínhamos uma grande cumplicidade e quando me vi sozinha pensei, ‘meu 
Deus, socorro, o que faço agora?’ Mas o que não nos mata torna-nos mais fortes. Consegui, com ajuda da minha irmã, da minha mãe e da minha sogra, ultrapassar os dias mais difíceis.

“Não quero falar com o pai”
O Miguel tinha apenas um ano quando o pai se foi embora, não notou muito a sua ausência, mas Mateus revoltou-se, “dizia que não queria falar com o pai por Skype, que não tinha nada para lhe dizer e o pai ficava muito triste, não entendia. Uns meses mais tarde, a atitude dele alterou-se bastante. 
Nos primeiros dois anos, o meu marido não viu os filhos crescer. Quando o pai chegava, o Mateus ficava feliz da vida, o Miguel dizia que a casa era só da mãe e andava sempre de roda de mim. Foi muito complicado gerir esta situação.” 
Embora as ausências do pai sejam agora mais curtas, cada vez que ele chega é sempre uma festa. “Quando cá está, pedem tudo ao pai, porque é mais permissivo, como é normal. Tenta compensar as ausências, já a mãe é a má da fita.” (risos)

“Tenho medo de ficar doente”
“Um dos meus maiores medos era de não ser capaz, e ainda hoje, quando estou doente, fico aflita porque sinto-me muito impotente. Nessas alturas tenho de pedir ajuda porque é mais difícil cuidar deles, mas não gosto de sobrecarregar ninguém.” O Mateus e o Miguel saem da escola ao mesmo tempo que a mãe, às 19h, por isso Paula aproveita as horas de almoço para descontrair, “tento cuidar de mim, isso não dispenso, vou ao cabeleireiro, à manicure...” Deixou de ir ao cinema, de sair com amigas – só está com elas quando vão lá a casa – e relaxa só quando os filhos estão a dormir.
“Quem nunca passou por isto não percebe o quanto custa para quem cá fica. O meu marido sabe que é difícil não ter tempo para descansar, porque ele pode fazê-lo se se sentir triste ou mais cansado. É verdade que estar longe da família é um fardo grande, mas há tempo para limpar a cabeça, quem cá fica não tem esse tempo, que é fundamental. Ele agora percebe porque está cá mais tempo, mas muitos homens não têm noção, não vivem o dia a dia, é diferente.” 

Quando a distância mata
A história de Sandra Nogueira, 31 anos, não tem final feliz. O marido foi para Angola quando o negócio do pai na construção civil afundou. Em outubro de 2012, Sandra decide voar para Luanda porque não queria ter uma relação à distância. “Fui para lá trabalhar e vivemos os dois sem problemas. Confesso que me fazia confusão viver com todo o conforto e ver crianças que nunca tinham visto um brinquedo na vida e estar numa casa onde não me faltava nada
e do outro lado do muro não terem água ou luz.” Quando vem a Portugal, em fevereiro de 2013, descobre que está grávida. Voltaria a Angola mais uma vez, para regressar a Portugal em maio, já com 5 meses de gravidez para ter o filho no nosso país.  “O que aconteceu entre esse mês e dezembro não sei, mas quando ele nos veio visitar, já a bebé tinha 3 meses, tudo parecia bem. Notei distanciamento mas não pensei muito nisso porque a minha prioridade era a minha filha. Quando partiu, tudo mudou. Apenas enviou um sms a avisar que tinha chegado e depois foi o silêncio total. Quando liguei, uns dias depois, disse-me que tinha outra pessoa e que queria separar-se. Olhando para trás vejo alguns sinais de distanciamento, mas nada fazia adivinhar que em 7 meses o nosso casamento terminaria.”

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