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Amor cativo: a vida de quem fica cá fora

Minutos contados, revistas ao corpo, rotinas pautadas pelo horário das visitas. Falámos com Maria de Lurdes, que tem o companheiro preso até 2021, e com Luís Gagliardini Graça, diretor de uma associação que presta auxílio aos Reclusos, ex-Reclusos e suas famílias. Ambos, revelam-nos um lado oculto destas histórias: a de quem fica do lá de fora dos muros.

Cláudia Menezes e Evandro Furoni

AZemdega

Maria de Lourdes, de 26 anos, é mãe de Ana Julia de apenas quatro. Vive em função dos horários e das visitas diárias ao marido, Júlio, 27 anos, preso em Lisboa. Uma rotina cansativa, mas semeada de muita esperança. Difícil até de imaginar: a luta pela sobrevivência diária no mundo real, os procedimentos, sentidos como "humilhações", que antecedem as visitas. A ACTIVA conversou com Maria de Lourdes, que descreveu a sua experiência do sistema prisional, como se sente a mulher de um recluso perante a sociedade, a relação com outras mulheres que passam pela mesma situação e como encontram conforto.

Como é a rotina nos dias de visita ao seu marido?

Maria: O meu trabalho é por turnos e, como as visitas são sempre às terças, quinta e domingos, tenho de organizar os meus horários de trabalho para nunca faltar a uma vista. Só depois é que vou descansar. Se a visita for de manhã, acordo por volta das 7h30, preparo tudo o que tenho para levar e depois sigo. A seguir vou arrumar a casa até trabalhar, faço o almoço e é sempre a mesma coisa - casa e trabalho, casa e trabalho. É uma rotina que criei que dá para fugir aos pensamentos.

No procedimento a que as visitas são sujeitas já passou por situações constrangedoras?

Maria: Já tive de baixar as minhas cuecas. As minhas calças estavam a apitar porque tinham muito botões e a guarda não acreditou. Então baixou-me as cuecas e passou com o detector de metais manual para ver se eu tinha alguma coisa. Se a máquina apita minimamente, a pessoa tem de se despir completamente para comprovar que não leva nada ilícito consigo. Foi o que aconteceu comigo. A chefe das guardas prisionais fez exatamente isso. Como estava apitar, mandaram-me despir e tirar as cuecas para ver se eu tinha alguma coisa. Depois a forma como apalpam... Às vezes, sentimo-nos violadas porque podiam passar a mão e com o toque sentir se levamos algo, mas não. Fazem questão de apalpar para ver se há lá mesmo alguma coisa.

O que diria a outras mulheres na mesma situação do que a sua?

Temos que ter força. Não nos podemos deixar ir abaixo. Se a vida nos der limões, temos de fazer limonada e não permitir que os demais limões nos apodreçam. Se os nossos companheiros estão lá, estão a tentar crescer. Nunca podemos pensar que eles vão sair de lá pior do que entraram. Temos de acreditar, sempre acreditar e nunca perder a força. Eles estão lá a pagar por um crime que cometeram e temos de ter esperança que sairão de lá e não vão cometer os mesmos erros. Nós, as mulheres, ficamos numa situação muito complicada, porque ficamos sozinhas com nossos filhos. Mas lá está, temos que ter forçs. Nunca podemos dar mais do que aquilo que temos na nossa realidade.

Como é a sua relação com outras mulheres que vivem a mesma situação?

Acabam por ser pessoas que nos compreendem melhor do que as que estão cá fora, então, trocamos ideias e a experiência de situações que vivemos no nosso quotidiano. Os outros, se dissermos que o nosso marido está preso, olham-nos com outros olhos. Já pensam que ele matou alguém ou que traficou droga. E tentam-nos comparar com ele. Na verdade, somos pessoas completamente diferentes. Não agimos da mesma maneira que eles agiram. Porque é que se ele está preso, eu sou igual a ele? Isso é o que a sociedade pensa. Não pensa que trabalhamos, damos tudo por eles, que estão lá dentro. Só pensa que somos iguais porque somos casadas com reclusos.

Como consegue encara a sua vida com a perspetiva de que o seu marido só vai sair da cadeia em 2021?

Na verdade, não penso muito nisso. Aprendi a levar um dia de cada vez porque fico sempre à espera da visita para poder estar aquela hora com ele e absorver tudo ao máximo. Faço tudo para não passar tempo em casa. Quando começo a pensar demais, começo a perder o que não posso perder neste momento, que é a força. Convivia com meu marido 24 horas. Só não estávamos juntos quando cada um estava a trabalhar. Quando saia do trabalho, a nossa vida era sempre em conjunto. Agora que ele está lá dentro, não sabe o que eu estou a fazer. Muitas vezes fica a pensar que posso estar a fugir do caminho e torna-se muito mais complicado para ele.

Ficam suficientemente perto durante as visitas para conseguirem estabelecer um contato mais próximo?

Sim, sim. Sempre que ele chega, damos sempre um beijinho habitual, um abraço... Mas nós, enquanto casal, não nos sentimos à vontade para grandes coisas. É muita gente numa vista e nós gostamos de guardar os nossos momentos para nós. O máximo que pode acontecer é darmos uns beijos, uns abraços e quando estamos sozinhos - se não houver mais alguém - nós não falamos e apenas damos a mão e parecemos um casal de velhinhos. Não acontece mais nada. Em relação a visitas intimas, isso é conversa fiada (risos) porque nunca vai acontecer. Eles não vão querer usar os seus meios de transportes, gastar gasolina e muito menos não vão querer perder tempo a levar um preso daqui de Caxias para o sistema prisional da Carregueira, que é um sitio onde se pode fazer visitas intímas. Eles nunca vão fazer isso.

Sobre o que conversam quando estão juntos?

Normalmente falamos sobre a vida e como ele está, sobre a situação, se está tudo correr bem... Falamos sobre a minha vida cá fora, o que ando fazer. Temos uma conversa mais circunstancial. Quando estamos sozinhos, que são raras as vezes, conversamos sobre outros temas, planeamos viagens que queremos fazer ou sobre o casamento futuro.

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A prisão não é uma pena apenas para o recluso, mas também para a família. Lidar com o ambiente hostil de um estabelecimento prisional pode não ser fácil para uma mãe ou para a companheira ou mulher, mas é fundamental para quem tem nesse contacto a única esperança de uma vida diferente. Quem o explica é Luís Gagliardini Graça, diretor executivo da Confiar-PF, associação que presta auxílio aos Reclusos, ex-Reclusos e suas famílias. A entidade portuguesa está ligada à Prison Fellowship International – a maior associação de voluntariado prisional do mundo . Graça explica que o mais importante é a visitante manter a calma, tratar os encontros como se fosse a qualquer outro ambiente público com regras específicas. O fundamental é estar lá, para prestar apoio ao familiar ou parceiro.

Qual é o trabalho da Confiar-PF com as famílias dos reclusos?

Nós trabalhamos com reclusos e ex-reclusos, as suas famílias e também as vítimas. Vamos abrir agora dia 1 de junho o primeiro centro de apoio familiar dedicado a filhos e familiares de reclusos. Vamos trabalhar de uma forma sistematizada, mensurável com educadores, psicólogos, etc.

Qual é o impacto psicológico para uma mãe ou esposa ter que visitar um recluso?

Toda a visita é um processo complicado, difícil e estressante. Até por questões de segurança, a passagem para a visita é um processo preocupante. Os filhos dos reclusos sofrem imenso com esta situação. Por exemplo, se o recluso sofrer um castigo, e não poder receber visitas, o filho também é penalizado. Os filhos são, de facto, as maiores vítimas dos crimes dos pais.

O que uma mulher deve fazer para não se sentir intimidada em um ambiente tão negativo como um prisão?

Recomendamos sempre vestir-se de uma forma adequada, ser educada, respeitadora, compreender que há normas de segurança. Quando é uma mulher a entrar é uma guarda que faz revistas, se há suspeitas de entrada de drogas ou substâncias ilícitas. É agir de acordo com as normas de segurança, com tranquilidade. É como estar num aeroporto, num sítio qualquer.

E qual a importância da visita dessas mulheres para os reclusos?

Cerca de 80% das preocupações de um recluso é com a família, portanto, se não tem visitas, fica muito só. A falta de esperança, o desespero, começam a alojar-se. Muitas vezes, a família abandona-o, não quer saber dele. Há muitos casos de imensa solidão dentro das prisões.

Qual é o principal conselho que pode dar para a mulher de um recluso?

Primeiro dizer o nosso lema: "todo o homem é maior que o seu erro". Um recluso precisa de amor, de afeto, de acompanhamento. Precisa de ser tratado como um ser humano e não como um criminoso. É a partir daí que se começa a reconstruir o ser humano. Se não ajudarmos a reconstruí-lo, quando voltar cá para fora vai ser outra vez um potencial criminoso.

Bruno Santos praticou um crime quando tinha 18 anos. Foi condenado mas a pena ficou suspensa. Fez a sua vida normalmente e ao longo dos últimos 10 anos, construiu uma família e uma carreira. Foi preso porque não compareceu na Reinserção Social. A sua história pode ser conhecida no próximo episódio do programa de informação da SIC, 'Vidas Suspensas’, da autoria da jornalista Sofia Pinto Coelho, que aborda casos de pessoas que, por questões relacionadas com a justiça, se encontram com a vida em suspenso.

Para ver 2ª feira, 8 de maio, na SIC, logo a seguir ao Jornal da Noite, seguido de um debate em direto na sic.pt

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