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Mundos aparte: “Não vejo a minha filha há três anos”

Uma história de amor que terminou numa separação. As marcas profundas na vida de Pedro, 38 anos, ainda estão visíveis, no rosto e na voz de quem, desde então, nunca mais viu a filha.

Sofia Martinho

DarkoNovakovic.com \302\2512013

Pedro tem 38 anos, uma filha de quatro anos, um emprego estável. Pedro não vê a filha há três anos, está de baixa psiquiátrica há dois e continua a procurar o percurso para fora da escuridão em que a sua vida mergulhou desde que, em 2013, se separou de Anna. Um caminho que se vai lentamente impregnando da esperança de que, quando a tempestade acalme, a sua filha encontre o caminho de regresso à sua vida.

A história que iria mudar o curso da sua existência para sempre começou em Austrália, em 2009, quando se cruzou com Anna. “Um amigo levou-me a casa dela, em Sidney, e quando a Anna abriu a porta, foi a primeira vez que olhei para uma pessoa e fiquei com vontade de conhecer mais. Acredito que foi amor à primeira vista.“

Apaixonaram-se, começaram a namorar e Pedro tirou uma licença sem vencimento para ficar junto de Anna. “Fui ficando. Da Austrália fomos à Índia e, quando voltámos, ela descobriu que eu fumava erva. E nós acabámos por causa disso mesmo. Dávamos super bem, mas isso era algo que ela não conseguiu aceitar e que nos afastou.”

Já quando Pedro estava de regresso a Portugal, e depois de anos sem falarem, reencontraram-se no Facebook. Foi ela quem o procurou de novo. “Enviou-me um pedido de amizade que acabei por aceitar ao fim de três dias. Começámos a falar frequentemente nesse verão. No Natal, ela ia à Suécia e convidei-a para vir ter comigo para a passagem do ano. Veio e já não se foi embora. Começámos a namorar outra vez.”

Anna engravidou passado uns meses. Uma mudança brusca nos planos, mas que Pedro aceitou, tentando lutar contra os seus medos.“Para ser franco, era algo que não estava planeado. Ficámos os dois felizes, claro. Não queria ser pai e um dos medos que tinha era exactamente vir a perder o contacto com o meu filho, caso um dia ela voltasse para o país dela. Porque vi isso com amigos. Mas quando a minha filha nasceu foi… indescritível. “

No meio da conversa, chega a consciência pesada, o rever vezes sem conta o que correu mal e o que podia ter sido, quem sabe, evitado, para que o desenlace não fosse o mesmo. “No final da gravidez talvez não tenha sido tão compreensivo como devia ter sido”, afirma. “Outra coisa que me incomodava é que a Anna todos os dias bebia um copo de vinho e continuou a fazê-lo durante a gravidez. Eu não podia fumar, mas ela podia beber com um bebé dentro dela. Havia pontos de desacordo. Por outro lado, as pessoas do norte da Europa são muito fechadas e às vezes é difícil saber como se estão a sentir, ao contrário de nós, que exteriorizamos as coisas. Acham que nós somos demasiado emotivos. Hoje penso que ela desenvolveu uma depressão pó parto, que nunca foi falada, e quando começou a ficar mal, eu também comecei, porque estava a sentir uma série de responsabilidades acrescidas em cima dos ombros com o nascimento da minha filha. E aí começámos a afastar-nos. “

A situação em Portugal estava a ficar complicada por causa de questões de dinheiro. Anna, apesar de ser enfermeira, não conseguia encontrar emprego. Por isso, em setembro de 2013, Pedro volta a pedir uma licença sem vencimento e partem os dois para Suécia com o objectivo de começarem uma nova vida. Arranjaram emprego com facilidade, Pedro já tinha cartão de cidadão e iam começar a trabalhar daí a dois meses, quando chegou o ponto de ruptura. “Uma tarde, a Anna meteu na cabeça comprar um blusão para a nossa filha. Estávamos na rua, com menos quatro graus, estava a anoitecer e eu insisti com ela para nos irmos embora. A Anna não gostou que o tivesse feito e começou a andar depressa à minha frente – e eu levava a nossa filha no carrinho. Resultado: deixei de vê-la e fiquei sozinho numa cidade em que os prédios são literalmente todos iguais. Andei quatro horas às voltas até encontrar a casa dos pais dela onde estávamos. Quando cheguei, estava zangado. Não me exaltei, mas deixei claro que estava zangado. Disse lhe que tinha o direito de não se preocupar comigo, mas que devia ter-se preocupado com a filha.”

Pedro sentou-se ao lado dela mais tarde nessa noite e perguntou se podia usar o computador de Anna ir ao Facebook. “Disse-me que sim – o meu ainda estava em Portugal – mas, quando entrei na página, vi que andava a falar com um tipo português no messenger. Atenção, até hoje não tenho a certeza de que ela me traiu, mas que ele estava a meter-se com ela, estava.” Porém, o confronto chegou. “Perguntei-lhe quem era ele e Anna ficou zangada. Recusou-se a responder. A conversa começou a azedar. Nessa noite, estava zangado e disse mesmo coisas para a magoar propositadamente (e ela também). No dia seguinte, arrependi-me completamente. Contudo, para a Anna, a forma como discuti com ela foi agressiva (para nós não é, é simplesmente emotiva). Foi disso que ela me acusou.”

Pedro, sem casa onde ficar ou dinheiro para pagar um hotel, cujos valores na Suécia rondam, no mínimo, os cem euros por noite, acabou por regressar Portugal e principiou um longo e doloroso processo. Mas antes de abandonar o país, foi à polícia e descobriu que Anna estivera lá antes. “A resposta que me deram na esquadra é que ela tinha o direito de não me deixar ver a minha filha porque era a mãe. Mais tarde, a Anna revelou que lhes dissera que eu tinha sido muito agressivo e ameaçado que lhe ia bater. O que não é verdade. Não lhe levantei um dedo. Não é a minha forma de ser. Mas Anna afirmou que eu era um perigo para ela e para a minha filha. Usou isso para ter uma ordem de restrição contra mim e não me deixar aproximar."

De regresso, Pedro informou a Polícia Judiciária e fez queixa de rapto. Contratou uma advogada especializada na área e quis fazer um processo em Portugal. “A Anna recusou-se a vir cá, nem que fosse para chegarmos a um acordo em que podia ver a minha filha de seis em seis meses. O que a minha advogada me explicou é que eu tinha de recorrer das acusações que ela me fez na Suécia. Já lá estive e ela não me deixou ver a minha filha. A mãe dela fez muita pressão para que a Anna me deixasse vê-la e a Anna deixou de falar com ela. A mãe entretanto morreu de cancro, mas na altura já não se falavam. Pensei mudar-me para a Suécia várias vezes para exercer a paternidade, porque eu não tenho qualquer interacção com a minha filha. Não vejo a minha filha há três anos. Mas a lei na Suécia defende a mãe e eu não sei como poderia provar que estas acusações são falsas.”

Os únicos momentos em que interage com a filha de quatro anos são via Skype, em breves conversas, em línguas diferentes, que têm lugar a cada duas semanas. “Custa-me muito ver a minha filha num computador. A interacção é boa, ela sabe perfeitamente que sou o pai, apesar de não falarmos nenhuma língua. Ela fala sueco, eu português. Mas vai aprender inglês e aí podemos comunicar. Por vezes até evito falar com ela para não me ver mal. Tento controlar-me mas há alturas em que é difícil.”

Mas há sempre um ‘e se’ que teima em não o abandonar: “Arrependo-me um milhão de vezes daquele dia. Porque destrui a minha família. Eu é que não fui capaz de ter calma. “

Certo é que Pedro conseguiu manter-se no emprego durante algum tempo até que, um ano depois, sua vida parou. “Não conseguia sair de casa. Tive uma enorme depressão e cheguei a ficar internado. Passaram dois anos desde então, mas a verdade é que o primeiro ano pareceu-me um mês tal era a quantidade de medicação que estava a tomar.” Aos poucos, Pedro começa a sentir-me melhor. “Tenho esperança de voltar ao trabalho em breve quando conseguir diminuir a medicação.”

As marcas continuam: “Faz me muita confusão estar com crianças pequenas, porque me lembram sempre a minha filha. Por exemplo, o meu irmão teve uma bebé o ano passado e eu não consigo pegar-lhe ao colo. E é minha sobrinha.” Porém, mais importante ainda, resta-lhe a esperança que Anna mude de atitude. “Nestes últimos meses tenho começado a lidar melhor com isso. Antes esforçava-me demasiado. Agora estou a tentar manter um bocadinho de distância para ver se ela se aproxima. Estamos menos conflituosos. Espero voltar a ver a minha filha e que não seja apenas quando fizer 18 anos. Mas não sei que história é que a Anna lhe contou.”

A história de um casal com um filho em dois países diferentes é o tema do próximo episódio do programa ‘Vidas Suspensas”, "Traição" da autoria da jornalista Sofia Pinto Coelho, para ver esta segunda-feira, dia 15 de maio. na SIC.

Este programa é seguido de um debate em direto na sic.pt

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