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Crónica: Diário do 13 de maio - O milagre da misericórdia e a vitória dos Santos pastorinhos

Sinto que devo começar por redigir um sucinto compacto deste dia, para que toda a insanidade contida neste texto, seja devidamente contextualizada...

Cristina Carreiro/A Reinventora

Nick Pandev hello@pandevonium.com

Depois de ter começado, logo pela manhã, a verter lágrimas tal qual uma Madalena Arrependida de Donatello, ao ver o Papa Francisco dar a bênção aos doentes, improviso um estúdio para uma sessão fotográfica regada a Limoncello (coragem líquida) com amigas lá em casa, e saio a correr, já atrasada para ir tirar imperiais e servir caracóis (há contas que não se pagam sozinhas). Vejo o Benfica a ganhar uma taça de salada de fruta com gelado e bolacha dourada, e saio a correr para uma festa de aniversário em que vejo tudo a parar para ouvir o Salvador a amar (e a ganhar) por todos na final da Eurovisão.

Mas nada, repito, nada, faria prever o que estaria para acontecer no final deste dia.

Passo a explicar, e peço desde já desculpa à Téteca e ao Márinho pela redação deste texto, mas precisava de desabafar...

O Afonso nasceu, depois de vários pedidos à Nossa Senhora de Fátima e retenções de contrações, fez dia 13 de maio, 3 anos.

Uns dias antes do aniversário do rapaz, recebo um telefonema da progenitora de Afonso com um pedido de emergência: Duas dúzias de ovos. Para quê? Para ela poder fazer (pela terceira vez) um dos dois bolos de aniversário de Afonso: um para a festa "dos adultos" (com mais crianças por metro quadrado do que o festival do Panda) e outra para a festa das crianças, também com adultos, mas desta feita, no zoo de Lisboa. Logo aqui me questiono: Porque é que, para além do recheio de sapateira, o couscous de frango, a canja de ameijoas e as farófias, entre outros vinte itens, esta alminha decidiu ser ela própria a confecionar, também, dois bolos de aniversário temáticos, cheios de bonecada, e mais detalhes que a talha dourada na Igreja de S. Francisco?

Como boa amiga que sou, um dia, e vinte sete missões cumpridas depois, compareço na festa, a decorrer já desde as 16:30, e visto serem já perto das 21:00, já quase no final, imaginava eu.

Mal se abre a porta, tenho a sensação de já ter passado um dia, e de estar na festa do zoo, mas não: era a festa para a família e amigos, que têm uma média de puto e meio por casal. Procuro pelo botão de "auto-eject", mas já não vou a tempo, porque foi a própria da minha amiga que me abriu a porta.

Encho-me de coragem, que mais valia ser liquida (Nota mental: nunca mais ir a um evento destes sem estar carregada de álcool no organismo), e entro. Dois segundos depois, o meu tímpano direito faz as malas e diz: “FUI!”, quando ouve uma criança chorar em mi menor, depois de ter sido agredida por um brinquedo que mais parecia uma guilhotina, mas que afinal era um Pijamati ou lá como se chama o desenho animati que deu tema a um dos bolos...

Sigo o meu rumo até à minha boia de salvação: O único casal que conheço em toda a festa, por sinal, sem filhos e bem porreiro, enquanto penso “Já estou a salvo, ufa!”.

Tentamos estabelecer um diálogo decente, no meio da selva, antes conhecida por sala, até que decidimos, por mútuo acordo, imigrar clandestinamente para a cozinha. Fechamos a porta e sentimos a felicidade do silêncio (e do espumante), a bater-nos na cara, tal como uma leve brisa marítima pela manhã: "Ali seremos livres para sempre", pensamos.

Até que a nossa ilha paradisíaca se transforma num resort nas férias da Páscoa em Cancun, e afinal já lá estavam praticamente todos os adultos a fugirem das suas crias, e a desejar ter outra vez 16 anos, poder passar a noite de copo na mão, e acabar a noite com a cabeça enfiada na sanita, em vez de terem 42 e passarem a noite sem conseguir segurar um copo por mais de 30 segundos, sem ter de sair a correr em missão de socorro pela sua cria, e terminarem a noite com um dodot na mão, e uma fralda de quilo e meio na outra.

Se me for permitido, faço minhas as sábias palavras de Francisco, e acrescento algumas da minha autoria: “Misericórdia para todos (os que tiveram coragem para ter filhos e dizer “adeus” à liberdade, e “olá” à insanidade!)”

Nota final: Não quero com isto dizer que aprovo ou condeno, só não atingi o “nirvana” da maternidade, e agora sei, o porquê de ter fugido a sete pés de festas de aniversário durante os últimos 10 anos. :-)

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