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Rodrigo Guedes de Carvalho: profissão de fé

Depois de apresentar o seu quinto livro, 'O Pianista de Hotel', o jornalista contou-nos como se vive uma ‘vida dupla’.

Catarina Fonseca

João Lima

*artigo publicado na revista ACTIVA de agosto de 2017

Chega pontualissimamente logo de manhã, o que não lhe custa porque afirma que sempre foi ‘um animal matinal’. Está de volta à maior paixão da sua vida, os livros, depois de um intervalo de dez anos que não teve nada de mais metafísico, diz, do que ‘uma pausa por razões administrativas’, quando fez parte da direcção de informação da SIC. O seu quinto ‘filho’, ‘Pianista de Hotel’, desenha um mundo onde todos vivem desatentos dos outros e da ‘música’ que tocam. Continua a dizer que escrever é o que sempre quis fazer, apesar de a maioria das pessoas conhecer melhor o pivô que lhes entra casa adentro todas as noites com um resumo do mundo e da vida. Sobre a sua própria vida diz que um jornalista não pode ser um robô e que uma relação se ‘escreve’ todos os dias. Tal como um livro.

D.R.

O que chega primeiro, uma personagem, uma ideia?
Aparece-me uma ideia, um conceito, que neste caso foram dois: uma frase, “o nosso corpo chega aos outros antes de nós”, e a imagem do pianista.

A personagem que menos aparece…
(Risos) Sim, até tive um colega meu que me ligou a dizer ‘Vou na página 200 e ainda não apareceu pianista nenhum’. O pianista está ligado à ideia do homem na sua circunstância. Nós somos muito levados a avaliar as pessoas segundo a circunstância em que as conhecemos, e a sobrevalorizá-las, até. Se as conhecêssemos noutro sítio, se calhar nem dávamos por elas. E o pianista de hotel, como o músico de rua, é vítima da sua circunstância. Está ali mas ninguém lhe liga. Portanto, parto de uma ideia, e depois é pô-la de pé, traduzi-la na narrativa para que o leitor diga ‘ok, agora percebo a frase’. Mas detesto livros-mensagem, ou cheios de aforismos. O que eu quero é construir uma história.

Põe-se facilmente na pele de uma mulher. A alma não tem género?
Claro que não. Sempre me espantou que alguém se espantasse com isso. Também escrevo na pele de um homossexual que não sou, de um velho que não sou, e além do mais isso é partir de um pressuposto de que as mulheres são todas iguais. Eu nunca faço esse exercício de pensar: ‘como é que uma mulher reagiria?’ porque as mulheres não são todas iguais. E também há mulheres que não gostam que um homem tenha ‘a ousadia’ de se pôr na pele delas. Mas essas questões de género estão cada vez mais a esbater-se.

João Lima

O que é que o jornalista dá ao escritor?
Pouco. O jornalista não dá mais ao escritor do que daria se fosse médico ou advogado. O que têm em comum é a atenção ao mundo. Mas acho que se nasce com isso. Fui filho único durante muitos anos, e habituei-me a estar sozinho, a brincar sozinho, e a conviver calado, que era a função das crianças num mundo de adultos. Os adultos da família não tinham qualquer problema em ter uma criança presente nas suas vidas e nas suas conversas. E desde então que gosto de observar as pessoas, de pensar no que poderiam ser. E nunca a profissão de jornalista derivou daí.

Que é que lhe deu o jornalismo?
Primeiro deu-me esta carga de ser figura pública, de me sentir em constante observação. E depois, deu-me o grande prazer de trabalhar em equipa. A primeira coisa que digo aos meus pivôs é: lembrem-se de que vocês são apenas um elo da cadeia, aquele que foi designado para nos representar, e não valem mais do que isso. E sei que sou respeitado porque nunca perdi a noção de ser apenas um representante da minha redacção.

Temos um jornalismo de vedetas?
Isso depende das pessoas. Vejo isso em muitos estagiários que chegam já com a ideia de serem pivôs. Mas não me cabe a mim desativar esse processo. Cabe-me ficar desiludido e pensar que quem é só aquilo nunca será um bom jornalista.

E o que é que faz um bom jornalista?
A atenção e a humanidade. Acho que quando um jornalista perder a humanidade, o jornalismo torna-se irrelevante. Aqui há uns tempos, fiz uma promessa a uma criança que lhe faria um sinal particular no fim do Jornal da Noite. E isso teve um impacto brutal. Mas houve quem dissesse: ‘o que é que isto tem a ver com o jornalismo?’ Se calhar tem: isso mostra como estamos sedentos de gestos de decência. A simples decência de cumprir uma promessa causou uma emoção brutal. Não quero um jornalismo de autómatos, de robôs. Nós temos uma função de mediação entre a realidade e o espectador. Quando chegarmos ao ponto de o jornalismo ser um conjunto de vídeos do Youtube, não estamos lá a fazer nada. Portanto, os jornalistas não se podem demitir dessa função de mediação: isso não significa imporem-se à notícia, mas criar um elo de humanidade e de interrogação sobre o mundo. Senão diluímo-nos numa altura em que toda a gente é uma empresa de comunicação em potência.

Porque foi para jornalismo?
Totalmente por acaso. Fui para Comunicação Social para sair do Porto, onde cresci. Era um meio pequeno e eu queria conhecer mais mundo. Estava inclinado para Direito, mas vi que o curso de Comunicação Social só havia em Lisboa. E fui. Na altura era mais um curso de cultura geral que de jornalismo. No final do curso concorri a um casting da RTP, onde conheci a Cândida Pinto e o Carlos Pinto Coelho. Comecei na secção de desporto: queria era começar a trabalhar. E assim foi.

E na Sic era diferente?
Era totalmente diferente. Na RTP era um dos miúdos, em processo de aprendizagem. A SIC era uma espécie de acampamento de férias: a ideia era, vamos ver no que isto dá. O início da SIC é irrepetível, porque não foi apenas o início de um novo projecto, foi o primeiro projecto de televisão privada e era um mundo totalmente novo, que seria o que nós fizéssemos dele. E nos primeiros meses andámos a penar. Diziam-me: ‘Aquilo vai à falência daqui a 6 meses’. Não foi. E esse espírito de família, de equipa, de emoção, ‘contaminou’ para sempre a SIC.

Já lhe aconteceu alguma coisa inesquecível em directo?
Guardo para sempre a amaragem no Rio Hudson, que apanhei, com a Clara de Sousa, desde o início. E foi horrível até se saber o que tinha de facto acontecido. Começámos a receber imagens em directo de um pequeno avião que tinha caído no rio Hudson. E de repente eu percebi que era um avião de passageiros, e pensei: Que palavras é que vou usar para explicar que estamos a assistir a uma tragédia? E de repente aquilo transforma-se num milagre. Quando começamos a ver as pessoas nas asas, percebemos que estamos a viver História. Mas se aquilo tivesse acabado mal, teria sido um momento pessoal muito traumático.

Mas já apresentou tragédias…
Todos os dias. Todos os dias. Vou para casa com esse peso, mas mais uma vez por ser quem sou, não por ser jornalista.

João Lima

Quem é o seu guru?
Não tenho gurus, mas tive algumas pessoas que me ensinaram muito. O Rui Tovar disse-me uma vez: ‘Não acredito em bons jornalistas que sejam más pessoas’. Continuo a acreditar nisso.

Como é criar dois filhos neste mundo?
Nunca os tratei como bebés. Dei-lhes o mimo devido às crianças mas nunca fui um pai infantil, nunca os resguardei. Os pais hoje lêem os livros dos psicólogos que dizem que temos de passar tempo de qualidade com os miúdos. Eu não fiz isso. Andei com os meus filhos ao colo e às cavalitas, mas a partir de uma certa idade disse-lhes: ‘Estão aqui os legos, brinquem sozinhos que eu vou ler’. E eles cresceram bem. Foram crianças precoces no sentido de pensarem pela cabeça deles e procurarem cultivar-se. Mas também nunca insisti com eles para lerem. Os livros estavam lá, e se quisessem, iriam lê-los. Adoro ter filhos crescidos, já com a compreensão emocional de um adulto. Adoro estarmos quatro adultos à mesa. E o meu grande orgulho é que eles são boas pessoas. Era o meu maior desejo, porque o mundo está muito necessitado de bons sentimentos. De resto, não tenho muita paciência para crianças. As que me tocam, escolhemo-nos como os bichos: são crianças que vêm logo ter comigo e com quem tenho uma empatia imediata.

É um romântico?
Sou, no sentido em que penso nisso conscientemente, penso na relação que quero ter. Por exemplo, imagine que eu escrevo um livro sobre um casal que não comunica, que vai guardando dentro de si as suas grutas, que se vai fechando. E ao escrever sobre isso, de alguma maneira estou a revoltar-me. Quando fecho o computador e volto para a sala onde está a minha mulher, só faz sentido que pratique aquilo que defendo. E tenho a certeza absoluta de que as relações são para serem alimentadas todos os dias.

O que faz nas férias?
Vou para o meu monte no Alentejo e não faço nada. Praia, descanso, levo a guitarra e o teclado e toco, vou apontando ideias no computador. Só isso.

Qual é a sua palavra preferida?
Fé. Nestes anos de pausa, foi comovente sentir nos meus leitores uma fé em que voltaria a escrever. E tenho fé nos bons sentimentos, na amizade de alguns amigos, nas pessoas. Fé é tudo isso.