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Cláudia Senra: como o horizonte diplomático se transformou na diplomacia através da moda

Cláudia Senra é diretora de marketing da Averse, uma nova marca de roupa portuguesa que mistura estilos

Diogo Pereira

Divulgação

Licenciada em Relações Internacionais, Económicas e Políticas, Cláudia Senra tinha no horizonte profissional uma carreira numa qualquer embaixada algures no planisfério. Mas um percalço acabaria por lhe abrir as portas de uma das mais emblemáticas marcas de roupa portuguesa, a já extinta Petit Patapon onde aprendeu tudo o que sabe sobre marketing. E foi o marketing que agora a trouxe até nós, porque a Cláudia é diretora de marketing da Averse, uma nova marca de roupa que diplomaticamente quer romper as ideias feitas da moda.

Como é que se chega a uma marca descontraída como é a Averse vinda de uma área que parece tão pesada, as Relações Internacionais, Económicas e Políticas?

É um percurso facilmente explicável com as experiências pessoais. O meu pai era da Marinha, viajava pelo mundo e a minha mãe não era portuguesa por isso o internacional esteve sempre nas minhas veias. Até certa idade vivi com o meu pai nos navios e conhecer o mundo sempre fez parte da minha existência. Quando estava a decidir a minha carreira profissional sabia que queria alguma coisa ligada aos negócios internacionais e à diplomacia, por isso este era o curso ideal para mim. No final do curso surgiu a oportunidade de estagiar no departamento de marketing da Petit Patapon, o que acabou por ser uma descoberta inesperada porque nunca tinha pensado em trabalhar nesta área.

Este estágio na Petit Patapon, que acabou por se transformar num trabalho de dez anos, mudou toda a orientação da sua carreira.

Deixei toda uma carreira diplomática e de economia internacional, mas acabou por acontecer tudo de uma maneira muito natural e aproveitei todas as oportunidades que fui tendo e que me ajudaram a aprender tudo o que sei sobre marketing.

A diplomacia era o seu grande objetivo?

Não descartava a hipótese de trabalhar numa embaixada ou em instituições internacionais, o que não veio a acontecer, mas foi um prazer tirar o curso porque me deu uma noção importante da economia internacional e do direito e sinto que o curso foi pensado para nos preparar para várias realidades profissionais.

Acabou por chegar ao departamento de marketing de uma grande marca internacional de vestuário, consegue encontrar alguma ligação com a diplomacia?

No marketing tive a possibilidade de trabalhar com muitos países e isso foi uma grande vantagem para mim porque cada país tem a sua personalidade, a sua maneira de trabalhar, a sua cultura. E tudo isto se reflete nas coleções que criam. Interpretar todas estas culturas também tem muito a ver com diplomacia internacional.

Portugal é um grande ator no mundo dos têxteis, como é que olha para este setor da economia portuguesa?

Portugal sempre foi reconhecido pela produção de excelência na área da moda e o “made in Portugal” é suficiente para despertar a atenção de qualquer marca estrangeira.

As marcas com as quais tem trabalhado evidenciam grandes preocupações ambientais, sociais e até de género. Estas são preocupações suas também?

Eu cresci profissionalmente com essas preocupações e a verdade é que os cuidados ambientais e a responsabilidade social são cada vez mais centrais na generalidade das marcas deste setor.

Não é só marketing?

O marketing torna mais evidente aquilo que a empresa já faz porque se um produto não for orgânico, por exemplo, não podemos dizer que é. Se for verde não podemos dizer que é amarelo. O nosso papel é realçar as qualidades de uma marca sem estar a mentir, como é óbvio.

A Averse tem uma coleção unissexo. Porquê?

O “nogender” é cada vez mais uma tendência de moda. É um meio-termo entre o masculino e o feminino que nós assumimos embora algumas marcas optem por adaptar os seus modelos de homem. E o assumir é uma força que nós temos porque criamos um nicho na coleção que é pensado independentemente do facto de vir a ser vestido por homens ou por mulheres.

Qual é o público da Averse?

É um público que gosta de moda, um urban casual que gosta de misturar estilos que podem ir do clássico ao desportivo passando por um mix and match de cores e padrões. A Averse é uma marca muito adaptável ao estilo de cada um. Na coleção de outono/inverno há muitas t-shirts onde se brinca muito com técnicas de produção diferentes, com cores diferentes, há bordados, fotografias e estampados que permitem a cada um brincar com a roupa do dia-a-dia.

O nome da marca tem muito a ver com isso.

Averse vem do latim e quer dizer averso, contrário. Na marca gostamos de brincar com os opostos, com a mistura de vários estilos que funcionam bem em conjunto.

É fácil combater a padronização na moda?

Acho que sim. A padronização passa muito pela identidade da própria marca e há quem defenda que devem existir coleções com os mesmos padrões porque isso é branding, ajuda a identificar a marca. Desde que pensemos no segmento que queremos atingir e na marca que queremos passar conseguimos tornar uma identidade sem ser criteriosa ao nível dos padrões, das cores, dos estampados…

Os recursos do marketing mudaram muito desde que a Cláudia começou a trabalhar, agora há influenciados digitais, por exemplo. Como é que conseguem chegar ao público?

O grande desafio do marketing é acompanhar as eras. Quando comecei a realidade ainda era muito rígida e agora, embora a publicidade ainda seja muito importante, as pessoas passaram a seguir outras pessoas com quem se identificam e das quais gostam de receber conselhos.

Mas esses conselhos não são publicidade camuflada?

Isso é uma realidade e não podemos negá-la, mas esses também são os nossos primeiros clientes, os primeiros a dar feedback à marca. São os nossos grandes aliados.

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