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Beatriz Rubio: os segredos de uma CEO bem-sucedida

A CEO da imobiliária Remax contou-nos como se incentiva uma equipa a ter bons resultados mesmo em tempo de crise, e como manter a alegria num país que já vai deixando a sua melancolia.

Catarina Fonseca

Paulo Miguel Martins

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de agosto de 2018

“Ai, por favor, deixe-me viver mais um bocadinho”, pede ao fotógrafo. Até os turistas se riem, porque de facto não é fácil fazer uma produção com uns saltos estratosféricos na mais íngreme rua de Lisboa: a Calçada da Glória, entre passagens do elevador para cima e para baixo. Mas Beatriz não se intimida: se há mulher que conhece bem Lisboa é esta espanhola de Saragoça que se apaixonou por Portugal há 25 anos. Hoje mantém o espírito divertido do país irmão, mas diz que aprendeu a calma com os portugueses: e posa orgulhosamente debaixo do coração de Viana que enfeita as Glória Design Suites (que a própria Beatriz aluga) e que é paragem obrigatória dos passeios de tuk tuk.
Nasceu numa família de empresários, e percebeu desde o berço que era uma profissão de risco, o que só lhe deu mais ‘pica’. Encontrou uma alma parecida bastante cedo: “Eu e o meu marido fomos o primeiro namorado um do outro. Conhecemo-nos nuns encontros espirituais religiosos, mas ele era o mais giro do grupo (risos). Estudámos os dois em Saragoça, depois eu fui fazer um MBA e depois fomos os dois para Madrid.”

Guia para sobreviver à crise

Em Madrid, ele começou nos supermercados Dia, ela na L’Oréal. A primeira coisa que aprendeu na área da beleza: a humildade. “A L’Oréal tinha quatro áreas financeiras, e comecei pela de cabeleireiro. Chego lá, e pedem-me um curso de cabeleireiro… E eu fiz. E só me fez bem. Ensinou-me humildade. E também me ensinou a fazer madeixas (risos). Ainda hoje, se o meu cabeleireiro não tem vaga, faço eu.”
Ao fim de pouco tempo os supermercados Dia começaram a expandir-se para Portugal. “Eu disse ao meu marido: ‘Vais ver que ainda te vão mandar para Portugal’. E comecei imediatamente a planear a transferência. Fiquei contentíssima, porque tinha praia.” (risos) “Gosto de ver o mar, mais do que ficar horas na areia. Gosto de fazer paddle, de jogar raquetes.”
Por sorte, abriu uma vaga na área de luxo da L’Oréal Portugal, e o casal instalou-se no país vizinho. Pouco depois, decidiram testar a mão na primeira aventura comercial: cabanas de madeira que alugavam a visitantes da Expo. “Mostrou-nos que, se éramos capazes de fazer negócio em cima da hora, seríamos ainda melhores com algo mais sólido.” Compraram então os direitos da Remax e atiraram-se ao trabalho de vender casas numa Lisboa que ainda não estava na moda no mercado europeu.
Beatriz tornou-se rapidamente experiente em motivar pessoas e até hoje faz workshops de motivação, coisa que na altura era desprezada em Portugal. “Quanto mais feliz se é no trabalho, mais produtivo: isto é óbvio. Mesmo que o objetivo seja egoísta, como ganhar mais dinheiro, é imprescindível para o empresário que as pessoas estejam felizes.”
OK, então imagine que eu trabalho para si e estou desmotivada. O que é que me diz? “O que é que quer realmente para a sua vida, pessoal e profissional? Tudo começa por aí. Os meus três lemas de vida são: 
1 – Problemas são problemas e felicidade é felicidade. Não invente problemas, não se demore neles. 2 – O sucesso é de quem se atreve mais vezes. Podes falhar quantas vezes tiveres de falhar, mas alguma vez hás de acertar. 3 – Um sonho é diferente de um objetivo. Um objetivo é algo concreto, para ser cumprido.”
Em 2008, com o marido dedicado a outros negócios, está sozinha aos comandos da Remax quando rebenta a crise mundial. Claro que se assustou, recorda. “Como é que não havia de me assustar? Foi um horror. Durante três meses não fizemos nem uma escritura, porque os bancos recusavam créditos. Imagine vender zero por mês. E os meus colaboradores não ganham se não vendem. Mas eu tinha dinheiro poupado e aproveitei esses meses para viajar e me aperceber como é que a situação estava lá fora.”
Em Espanha, notou que os bancos tinham montado imobiliárias. Assustou-se outra vez, mas do susto nasceu a solução: correu de volta a Portugal e a primeira coisa que fez foi negociar com os bancos para que não criassem imobiliárias, para que dessem os exclusivos à Remax. “Sobrevivemos com os imóveis dos bancos e os arrendamentos. E criámos um sistema automático de permutas, conseguindo que muita gente não tivesse de entregar a casa aos bancos.”
Passada a crise, o negócio escalou: hoje, a Remax vende uma média de 2500 casas por mês. O segredo de um bom vendedor: “Não pensar no dinheiro mas focar-se nas necessidades do cliente. Se quer impingir uma casa que não é aquilo que se procura, o negócio não se fará.”

Paulo Miguel Martins

Lisboa está na moda

Faço aqui uma consulta baseada na minha curiosidade: como explica o absurdo de preços das casas lisboetas? É uma bolha? Vai rebentar? “Não vai rebentar porque não é uma bolha. As casas em Lisboa eram baratas e o preço tinha de aumentar, ao contrário do arrendamento, que sempre foi disparatadamente caro. Há 25 anos, quando cheguei, o normal era ter alugado casa. Mas tive de comprar, e não comprei em Lisboa porque já na altura, apesar de as casas serem baratas comparativamente ao que são hoje, eram caras para o que as pessoas podiam dar. Claro que a procura dos estrangeiros veio inflacionar muito o preço.”
O que encarece uma zona, é fácil de explicar. Pois: estar na moda. “Mas a subida de preços não depende só dos estrangeiros, porque 70% das casas de luxo são compradas por portugueses. No último ano, em Lisboa os preços aumentaram apenas 1%, o que não é nada. Quando há um crescimento de 1%, não há bolha. Portanto, a tendência é para estabilizar.”
O que é que acontece: há zonas que nos últimos anos aumentaram muitíssimo, o Chiado, a Av. da República, o Príncipe Real. “Mas agora essas zonas atingiram um teto, não vão subir mais. Já não há ninguém que compre. Portanto, algumas zonas já estabilizaram, enquanto outras vão continuar a crescer, como o Areeiro, Arroios, Graça, Martim Moniz. Em resumo, os preços não sei se vão aumentar mais, mas que vai continuar a haver uma economia alegre, não tenho dúvidas nenhumas.”

O que falta na cidade

Há assim tanto português com dinheiro? “Há. E hoje o crédito não é como era dantes, tem de dar logo 30% à partida. Mas os que compram mais no mercado de luxo são portugueses.”
A casa mais cara do seu currículo, vendeu-a por 8 milhões e meio... a um português. “Bem, era um palácio em Sintra. Com fantasmas e tudo, cada vez que lá entrava, era um arrepio (risos). E ainda precisava de obras. Mas além desta, vendemos várias casas por sete milhões. Temos um terreno a entrar por 15 milhões. Porque o que se procura mais agora é terreno para construir. Construção nova em Lisboa existe pouco, e há muita procura.”
Algumas zonas que aqui há uns anos não eram consideradas Lisboa, hoje foram absorvidas pela cidade. “Por exemplo, hoje, com o metro, Odivelas faz parte de Lisboa, e é habitada pela classe média-alta, ao contrário do que se pensa.”
Os maiores problemas de Lisboa: transportes e estacionamento. “Um morador não pode pagar centenas de euros extra para deixar o carro, é um absurdo, não se pode exigir isso às pessoas. Tem de haver muito mais estacionamento para moradores, e ao mesmo tempo melhores transportes, transportes que funcionem. Isso dará às pessoas alternativas. Eu, quando morava em Madrid, nunca se me ocorreu ir de carro para lado nenhum.”

Paulo Miguel Martins

Vender e comprar casa em Portugal

Lisboa não é a única cidade portuguesa a ter assistido a uma subida do preço das casas. No Porto isto também aconteceu, embora em menor grau. “O Porto estava muito abandonado, e aí sim, os estrangeiros fizeram a diferença. Os voos diretos puseram Lisboa e Porto no mapa: voar direto é abrir uma cidade ao mundo. E os alugueres de curta duração ainda não atingiram o seu limite, por isso não estou de acordo que aumentem os impostos e as dificuldades a quem arrenda. Nós levamos apenas dois anos de alugueres de curta duração, ainda temos muito que crescer, e o turismo é a nossa principal fonte de receitas, porque Portugal não produz praticamente nada.”
Então, mas não podemos sacrificar os moradores aos turistas... “Pois não, mas penso que podemos conseguir uma convivência pacífica, sem ser preciso sacrificar ninguém.”
Mas se eu quiser alugar uma casa em Lisboa, hoje não consigo… “Quando eu cheguei aqui, também não conseguia. É verdade que se quiser alugar casa em Lisboa por menos de 500 euros, é difícil. Mas sempre foi.”
Conselhos para quem vai comprar casa: “Procure zonas que ainda não estão a 100%, como o Lumiar, a Alta do Lumiar, a zona do aeroporto.” E conselhos para quem quer vender: “Tenha calma. Se não precisar rapidamente de vender, não aceite a primeira proposta. Ou pense em arrendar. Eu sou grande fã do arrendamento. A pessoa fica ali com aquele dinheiro todos os meses, e no fim da vida ainda tem aquela casa que é uma poupança. Digo muitas vezes a quem tem 100 mil euros: compre um apartamento e alugue. Ter uma casa vale mais do que dinheiro no banco. Muitas vezes digo ‘Não venda’. E isto é contra o meu negócio, mas quando essa pessoa quiser vender, é a mim que vai contactar.”

'Provar o nosso valor'

Viver numa profissão de stresse constante não é fácil, mas Beatriz consegue-o. Hoje continua a dar worskshops (“Até dou formação em bancos, mas aí vou sempre de calças, para eles não se desconcentrarem com as minha pernas”, ri) e admite que ser CEO em Portugal e ser mulher ainda não é fácil: “Continuamos a ter de provar o nosso valor. E quando se é mãe, ainda mais. Ainda culpam muito uma mulher que tenha filhos e trabalhe. Mas se eu não trabalhasse, suponho que já não estaria casada e já ninguém me aguentava.”
Portanto, em vez de ‘desajudar’, o trabalho é importantíssimo tanto para ser mãe como para manter um casamento. “Para mim foi fácil equilibrar uma carreira e três filhos porque sempre tive uma pessoa que me ajudou constantemente. Mas aprendi imenso com os três. A Marta, que é médica, ensinou-me a sedução: criar um clube de fãs das tuas ideias. Com a Patrícia aprendi a paixão, ela entrega-se completamente a tudo o que faz, e o Manuel ensinou-me a consciência: tudo o que acontece, é responsabilidade minha.”
O trabalho também ajuda a manter um casamento de 35 anos: “Partilhamos muitos objetivos. Muitas vezes lhe pedi conselho e ele a mim. Claro que montes de vezes não estou de acordo e não abdico do meu ponto de vista, mas é muito compensador.”
Conselho às mulheres: “Não tenham medo de ir mais longe. Não é preciso ser supermãe nem supermulher, todas podemos aprender a lidar com os problemas.”

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