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Acidentes com crianças: será que a culpa é nossa?

Há 700 acidentes diários com crianças com menos de 14 anos, muitos deles evitáveis. O que se passa então no nosso País?

Sofia Martinho/ACTIVA

Foto; Reuters

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As mortes de crianças em quedas de andares, afogamentos e, sobretudo, o caso do pai que se 'esqueceu' do filho durante três horas no interior do automóvel geraram discussão e polémica.Dizem os especialistas que os acidentes com crianças são transversais a estratos sociais, económicos ou profissionais. São 700 por dia, sim setecentos, leu bem... e o arrepiante é que, segundo a opinião dos técnicos, 80% deles podiam ser evitado.





"Há tragédias impossíveis de prevenir"

Para Manuel Coutinho, psicólogo do Instituto de Apoio à Criança, é necessário distinguir "entre os acidentes cuja prevenção é praticamente impossível, que podem acontecer a qualquer pessoa por muito que tente evitá-lo, que têm a ver com a falência do sistema psíquico e com a nossa memória que, por vezes, nos atraiçoa - e nunca podemos atirar a primeira pedra porque não são situações feitas sem dolo, ou seja, sem vontade de fazer mal - e aqueles que podem ser considerados de negligência, dado que, podendo ser prevenidos, não são."

Nesse caso, temos, por exemplo, os pais que vão ao supermercado e, conscientemente, deixam as crianças dentro do automóvel ou lhes permitem ter acesso aos medicamentos ou as deixam sozinhos no banho durante uns minutos. No primeiro caso, as pessoas dizem "fiz tudo o que estava ao meu alcance e o acidente aconteceu", no segundo dizem "não fiz tudo o que podia para evitá-lo." Seja como for, "não podemos é levantar a guarda da vigilância da criança. Até há um ditado que diz que 'Deus inventou a mãe porque não podia estar em todo o lado'", reforça o psicólogo.







"É preciso dar formação aos pais"

Mas será que os pais estão aptos a fazer essa avaliação dos riscos? Para Manuel Coutinho, a questão coloca-se ao nível do senso comum: "acho que há um conjunto de regras que os pais podem intuir; não podemos estar à espera que nos digam o que temos de fazer. Em vez disso, é essencial ser proactivos no sentido de proteger os nossos filhos. Mas há sempre a ideia paternalista de que é o Estado que tem de obrigar. Já ouvi pais dizerem aos filhos: "põem o cinto porque está ali a polícia", em vez de lhes explicarem que é preciso fazê-lo para sua protecção."



Helena Sacadura Botte, da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), considera essencial ir além do senso-comum: "Os pais portugueses não têm formação em gestão de risco e por isso aumentam as hipóteses dos acidentes sucederem." Por isso, a formação seria o melhor remédio: "deviam fazê-la ainda antes de serem pais". A prevenção passa por acções de sensibilização junto dos pais, de professores e de profissionais de saúde, mas também de arquitectos e engenheiros, responsáveis pela concepção dos espaços (varandas, jardins, piscinas...): "humanamente é impossível estar cem por cento do tempo a vigiar e por isso é tão importante mudar os ambientes."





"Andamos todos no limite"

"O nosso cérebro tem alguns automatismos que nos traem. Podemos conduzir até casa e não nos lembrarmos do caminho", reforça Manuel Coutinho. É um processo que se integra dentro do processamento do cérebro, mas que factores como o stresse e o cansaço potenciam. "Vivemos numa sociedade que nos diz que é preciso ter mais filhos, mas que não facilita a vida dos pais, que têm de ter dois empregos para sustentar a família e que são pressionadas profissionalmente para alcançarem resultados. Temos de abrandar, de pensar se os nossos filhos têm de ter dez brinquedos ou se cinco chegam. Andamos no limite e isso faz com que comecemos a falhar a vários níveis. E depois acontecem acidentes fatais. As pessoas têm medo de colocar os filhos à frente no trabalho".

"Não devemos passar medo às crianças"



Os pais-galinha não protegem necessariamente melhor os seus filhos, com o inconveniente de, na sua ânsia de resguardo, estarem a criar crianças menos preparadas para enfrentar o mundo. "A palavra de ordem é "tu és capaz". Podemos é dizer "eu sei que tu és capaz mas também sei que sabes que não o podes fazer."

Isto até é a forma de não se sentirem tentadas a experimentar. Temos de ser filtros como o pai da "Vida é Bela". A tentativa de super-protecção torna as crianças pouco preparadas para a vida. Não se pode criar às crianças o sindroma do mundo mau. Temos de fazer uma leitura clara do mundo: há coisas boas e coisas más", realça Manuel Coutinho E o que fazer quando uma criança é vítima de um acidente? "Desdramatizar a situação e explicar ao nível da criança o que aconteceu. Não repetir sempre a mesma coisa, estilo "queres partir outra vez a cabeça?" Quanto mais a pessoa fala no assunto, mais a criança o vai banalizar e maior risco existe que os acidentes se repitam."











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