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O Mundo dos Hiperativos: Verdades e Mitos

Não param quietos, respondem torto, não se aguentam sentados: não são malcriados, são hiperativos. Falámos com os autores  do livro ‘Mais Forte Que Eu’, que desmistifica muito do que se diz sobre a hiperatividade.   

Catarina Fonseca

O Vasco tem sete anos e apesar de ser inteligente a escola é um pesadelo: brinca na sala, não ouve a professora, interrompe, mexe-se muito, está sempre inquieto. ‘Parece que tem bicho carpinteiro’ é a queixa comum a todos os pais com crianças com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção). 
O caso do Vasco, relatado no livro ‘Mais Forte Que Eu - Hiperactividade e Défice de Atenção’ (Lua de Papel), não é único: “A hiperatividade é uma das patologias infantis mais frequentes, afetando cerca de 5 a 7% das crianças em idade escolar”, explica Nuno Lobo Antunes, pediatra e um dos autores do livro, com a médica Ana Rodrigues. “É tratável medicamente, educacionalmente e do ponto de vista psicológico, mas não surge isoladamente, e aparece associada a outras perturbações, como a ansiedade.”

Está na moda ser hiperativo? 
Ouve-se por todo o lado: agora todas as crianças são hiperativas quando no fundo o que elas são é malcriadas... Será a hiperatividade diagnosticada em excesso? 
Nuno Lobo Antunes contraria a ideia: “Nenhum pai leva uma criança à consulta porque ela é malcriada. Quando os pais me aparecem aqui com o filho, é porque já estão desesperados e precisam de ajuda. Essa confissão de impotência ninguém a faz de boa vontade, e também nenhum pai gosta de dar comprimidos ao filho.”
Ou seja, ser ‘apenas’ malcriado é uma coisa, ser hiperativo é outra muito diferente, e é importante não confundir as duas. Então como reconhecer se uma criança é apenas irrequieta ou tem PHDA? Há três características principais nesta perturbação: défice de atenção, excesso de atividade motora e impulsividade – ou seja, podem existir as três juntas ou um dos modos sem o outro. “Quando o Vasco está a fazer os TPC é muito difícil mantê-lo atento”, queixa-se a mãe. “Distrai-se até com uma mosca, ou mesmo com a irmã a brincar no quarto ao lado.”
 “É como se elas não conseguissem fazer a hierarquização dos estímulos”, explica Lobo Antunes. “Repare: você está aqui sentada à minha frente e há barulho lá atrás, há pessoas a falar, há pessoas que têm relógio e colares e brincos, você está a beber água, mas concentra-se no que eu estou a dizer. Se fosse hiperativa, o seu cérebro não conseguiria hierarquizar tudo isto, perceber qual das tarefas é a mais importante e concentrar-se nela.”

Como identificar os sinais
“Muitas vezes, nestas crianças, o esforço despendido em qualquer atividade é superior ao resultado, e estão sempre a ouvir coisas como ‘és irresponsável, és preguiçoso, és desorganizado...’”, explica a médica Ana Rodrigues, coautora do livro. “São impulsivos, qualquer coisa que corra mal estoiram, não conseguem resistir à frustração. Muitas vezes não sabem distinguir o que devem ou não dizer e são muito indiscretos sobre o que dizem aos outros e dos outros.” 
Ou seja: são vistas como malcriadas, imaturas, preguiçosas, o que conduz a mais castigos e críticas. “São crianças que estão sempre em alerta, estão em híper-foco”, resume a médica.
Não é de estranhar que muitas vezes a PHDA só seja diagnosticada quando as crianças entram na escola e têm dificuldade em manter-se quietas nas aulas ou completar os TPCs. “Não ‘encarreiram’ nas tarefas, e se deixam uma tarefa a meio não a terminam”, explica Ana Rodrigues. São irrefletidas, respondem sem pensar, e costumam magoar-se mais e ter mais acidentes do que as outras crianças porque se atiram sem pensar.
Ou seja, a PHDA não é um problema de comportamento mas uma perturbação de desenvolvimento: “Há competências fundamentais que, por défices biológicos, não se desenvolvem corretamente”, explica Nuno Lobo Antunes. São competências tão básicas como controlar a atenção, inibir e regular o comportamento, adiar a gratificação e resistir à frustração. Atravessar a vida sem elas vai ser muito difícil.
Que podem fazer os pais para ajudar? Em primeiro lugar, há que entender que a medicação é necessária. “Vai ajudar o cérebro a hierarquizar os estímulos”, adianta Lobo Antunes. “Há células que funcionam como administradores do sistema. Elas são como secretárias: programam o meu dia e escolhem, entre todos os estímulos, qual é o mais relevante para mim naquele momento. Os medicamentos vão equilibrar os níveis químicos. Muitas pessoas têm ideia de que são antidepressivos, mas não são, são psicoestimulantes, que vão estimular a capacidade de reação do cérebro.”
A medicação só por si não faz tudo: cada criança tem de ser acompanhada consoante as suas características. Pode haver outros problemas, como baixa autoestima. 

Depois do diagnóstico, o que fazer? 
Há muito mais que os pais podem fazer: as atividades podem passar por brincar com a criança, aprender a elogiá-la (sem estragar tudo imediatamente a seguir com um “Vês? Porque é que não és sempre assim?”), dar instruções objetivas, usar o humor para retirar o stresse e a carga negativa às situações, estabelecer prioridades naquilo que querem que ele faça, mostrar empatia pelas dificuldades dele, e acima de tudo gerir a calma... a deles próprios e a dos filhos.
A intervenção da escola também é importante: os pais devem reunir-se com os professores e podem ainda criar grupos de apoio com outros pais, para se ajudarem mutuamente.  
A hiperatividade não se resume às crianças: é hereditária e pode manter--se na idade adulta. “Para uma mulher que tem de tratar da casa, ser hiperativa é complicado porque ela se perde no meio de todas as tarefas que tem de fazer”, nota Ana Rodrigues. “Ela não distingue, entre todas as tarefas, quais são as prioritárias.”
“ Muitos dos pais que nos chegam atrasados às consultas – ou que nem sequer chegam – são eles próprios hiperativos...”, conta Nuno Lobo Antunes.

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