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Como era ser criança em Portugal

Afinal, como se brincava (ou não) no tempo dos cavaleiros? E das Descobertas? E no Estado Novo? A jornalista Maria João Martins foi investigar e o resultado foi o livro 'História da Criança em Portugal'.

Catarina Fonseca

Foto: Divulgação/ in 'História da Criança em Portugal'

Foto: Divulgação/ in 'História da Criança em Portugal'

'História da Criança em Portugal', de Maria João Martins (Editora Parsifal, €13.95)

'História da Criança em Portugal', de Maria João Martins (Editora Parsifal, €13.95)

– Na Idade Média, as crianças nobres não cresciam com a família. Afonso Henriques foi criado com um dos magnatas da corte, Egas Moniz, que o preparou para ser rei. 
– A criança medieval era amamentada até aos 3 ou 4 anos (enfim, ainda não havia biberões nem leite de substituição…)
– A nossa escola é um produto da escola da Idade Média: e da Igreja. Já havia um professor, muitos alunos, disciplinas e avaliações. Mas ao princípio as escolas formavam apenas monges, filhos de reis e alguns nobres. Curriculum: ler e escrever, Bíblia, canto e aritmética. Mais tarde: latim, gramática, retórica e dialética.
– A melhor mãe de Portugal deve ter sido… uma inglesa: pelo menos, foi a partir de D. Filipa, mãe da Ínclita Geração e mulher de D. João I, que se difundiu a ideia de que era conveniente apostar na educação dos infantes. 
– A coroa de melhor pai? Bem, sabe-se que D. Manuel era um pai atento dos seus muitos filhos (tão atento que foi com imensa relutância que deixou casar a sua adorada filha Isabel, já ela ia quase nos 30 anos, o que na altura equivalia a quase terceira idade). 
– Nem os bebés reais tinham a vida facilitada, atropelados em jogadas políticas: a filha mais nova de D. Manuel, Maria, nascida do seu terceiro casamento, estava órfã de pai aos seis meses e separada da mãe aos 2 anos, uma vez que a política obrigava D. Leonor, uma vez viúva, a abandonar Portugal e nunca mais ver a filha. Ainda assim, Maria teve sorte: anos depois, chega à corte uma tia, D. Catarina, para se casar com o rei, e faz notar ao marido que a menina é esperta. D. João III imediatamente lhe arranjou bons mestres. Não era a sorte da esmagadora maioria das meninas, que nem ler sabiam.
– Esta tia sabia o que era ser princesa e infeliz: Catarina viveu até aos 18 anos trancada numa torre com a mãe, Joana, a Louca, e a sua diversão consistia em atirar moedas da torre para que as crianças pobres viessem brincar por baixo da sua janela… 
– O órfão D. Sebastião confessava-se desde os seis anos, e desde os 3 que se sentava no trono, dando a minúscula mão a beijar aos embaixadores e dignitários internacionais.

Dos meninos-reis às amas
– As meninas sempre brincaram com bonecas, mas as princesas não tinham bonecas bebé: tinham representações de mulheres adultas ricamente vestidas (uma espécie de Barbies). Diferença: estas bonecas não seriam propriamente brinquedos, mas formas de mostrar o que estava na moda e com as quais posavam nos retratos. 
– Para os rapazes, o jogo mais popular era a pela, um antepassado do ténis que consistia em lançar uma bola com uma raquete. Um brinquedo que os pais Descobridores trouxeram aos filhos do Oriente: um papagaio de papel. Mais chocante (para nós…) era o novo ‘brinquedo’ que estava na moda trazer de África às crianças ricas: um companheiro de brincadeiras negro…
– O nosso melhor rei morreu antes do ser, ainda adolescente. Sabiam que por pouco não tivemos um rei chamado D. Teodósio? Era filho de D. João IV, e era, rezam as crónicas, culto, letrado, sensato e muito inteligente. Infelizmente, era também muito doente: morreu aos 19 anos, de tuberculose. Má sorte a do reino: o seu sucessor, o irmão Afonso, era o oposto: atrasado, imbecil e arruaceiro. Felizmente havia ainda um terceiro irmão, Pedro…
– Os rapazes nobres só iam para colégios (jesuítas) no início da adolescência. Para a universidade iam os filhos segundos e que queriam seguir a carreira eclesiástica. Os primogénitos, que iam herdar tudo, cedo deixavam de estudar… As raparigas tinham poucas hipóteses de instrução. Podiam estudar em conventos, mas mesmo aí pouco mais aprendiam que leitura e bordados. Claro que os pobres não tinham esses luxos... . 
– Nos séculos XVIII e XIX, a Roda da Santa Casa da Misericórdia acolhia os bebés indesejados e pagava a amas de leite para os amamentar. Mesmo as mães pobres recorriam por vezes às amas, de modo a poderem continuar a trabalhar no campo. Mas havia muitas fraudes: as mães dos enjeitados ofereciam-se para amamentar os próprios bebés que haviam abandonado, ou encobriam a morte de uma criança, trocando-a por outra. Escusado será dizer que as mortes destes bebés iam dos 20 aos 90%.

Fechadas na ‘nursery’ ou expostas na roda
– O último rei de Portugal era filho de uma adolescente. A rainha Maria Pia tinha apenas 16 anos quando D. Carlos nasceu, e ainda não chegara aos 18 quando teve o seu último filho, Afonso. Ao serviço dos dois estavam três criadas, uma varredeira, um criado de quarto, um moço de recados e uma preceptora. Não sabiam nada do mundo: na mesa real nunca se falava de política. 
– A família de D. Carlos não era assim tão diferente das famílias reais atuais: também passeavam com os pais mandando beijinhos à multidão. Em agosto iam de férias para muito longe (Pedrouços) e em setembro para ainda mais longe (Cascais). 
– Um dia, em 1873, D. Carlos, com 10 anos, atrapalhou-se no mar de Cascais. A mãe tentou salvá-lo mas também quase se afogou. Valeu-lhes o ajudante do faroleiro da Guia, que recebeu uma medalha e uma pensão vitalícia. Quem também recebeu uma medalha: a rai-nha. Afinal, também tentou salvar o filho. E hoje como ontem, não desperdicem o valor de boa publicidade.
– Há um século, estava na moda as classes altas contratarem nurses, mademoiselles ou frauleins (ou mesmo as três) para que as crianças aprendessem outras línguas. Também está na moda ter um espaço especial na casa só para as crianças. Mas eram pouquíssimas as crianças nessas condições: mais frequentes eram as abandonadas. No princípio do século XX, 12% das crianças eram ilegítimas, e a grande maioria delas abandonadas ou expostas na Roda. 
– Em 1910, 80% dos portugueses não sabe ler nem escrever. Foi só a partir da República que se instituiu a escolaridade obrigatória de cinco anos (não durou).

Do ardina ao menino do cravo
– Em 1000 bebés, morrem 150 ao nascer: era assim no tempo da Segunda Guerra, em Portugal, onde a grande maioria das crianças nascia e vivia tão mal como no século XIX. Se sobrevivessem, esperava-os desde pequeninos uma vida de operário, costureiras ou pequenos ardinas. No Norte, era frequente serem separados da família com 7 anos para virem servir em Lisboa. 
– Em 1942 é criado o abono de família. Mas: só para casais casados pela Igreja, com mais de cinco filhos menores, legítimos e batizados. Ufa!
– Durante o Estado Novo, muitas escolas fecham, a escolaridade obrigatória passa a três anos e com separação de sexos. Resultado: drástica falta de mão de obra qualificada, que leva, muitos anos depois, em 1965, à criação da Telescola. 
– Diogo Bandeira Freire tinha apenas 3 anos e uma cara angélica com caracóis louros quando foi arrancado à cama e levado ao aeroporto da Portela, onde o fotografaram a colocar um cravo numa metralhadora segura por três soldados. Mal sabia o bebé que se tornaria o ícone de uma revolução de 74…
– À data da Revolução de Abril, as mães ainda não sabiam o sexo dos bebés antes de nascerem. Desde então, muita coisa mudou: e há uma boa notícia: no grupo dos 22 países da Europa Ocidental, Portugal ocupa hoje uma honrosa sexta posição no ranking dos países mais bem classificados em termos de mortalidade infantil: a taxa caiu de 78 em mil, em 1960, para 3, em 2009, em grande parte devido à criação do Serviço Nacional de Saúde, em 79. 
– Ah, e que foi feito do’ menino do cravo’? Emigrou para Inglaterra. Portugal é um bom país para nascer, mas não para viver...