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Eduardo Sá: Entre a escola e namorar, é muito mais importante namorar

Como estamos a educar as crianças? E o que podiamos estar a fazer melhor? O psicólogo Eduardo Sá explica.

GONCALO F SANTOS

Ficou célebre por mandar as mais bombásticas ‘bocas’ com um ar sereno de menino Jesus e a voz mais baixa do espectro sonoro. Um dos mais acérrimos defensores das crianças em Portugal falou connosco sobre ser pai, mãe e filho, sobre tecnocratas e dinossauros, a importância de namorar, e o que aconteceu antes e depois de Cristo.

Quando é que percebeu que queria ser psicólogo?

Acho que desde sempre… Lembro-me de um daqueles loucos das cidades, que costumava andar perto da loja dos meus pais, e que eu achava fascinante. Primeiro porque não tinha um discurso coerente, e depois porque gostava de mim. Eu ficava horas a olhar para ele, porque ele tinha um olhar de uma bondade enorme.

Mas conversavam?

Não tínhamos conversas com nexo, mas conversávamos com os olhos, e aquele lado não lógico fascinava-me. Comecei a achar desconcertante aquelas pessoas que parece que estão no filme ao contrário. Há pessoas que até parecem adequadas em relação ao que é expectável, mas que são muito mais hostis e muito mais doentes, e depois há aquelas que num plano mental parecem desarrumadas, e depois são mais sábias, mais sensatas e inacreditavelmente mais bondosas.

Queria ser o quê em pequenino?

Na verdade o que eu queria era contar histórias. E quando toda a gente estava à espera que eu fosse para medicina, informei a minha irmã mais velha que queria ser escritor. E quando faltavam 10 minutos para entregar a candidatura, inscrevi-me em psicologia.

Foi a primeira bomba?

(risos) Sim, foi. Enfim, sem grandes efeitos colaterais. Mas sempre me fascinou a vida mental, e à medida que fui progredindo e observando e estudando, fiquei com a ideia de que somos absolutamente notáveis e somos tão mal-educados para as qualidades com que vimos equipados! Fazemos pouquíssimo uso delas. A educação judaico-cristã pôs legendas distorcidas em muita coisa. Portanto, quis pegar em informação complexa e transformá-la em linguagem tão simples e palpável que até parece fácil.

Sempre quis ser pai?

Sempre, sempre. Claro que só tive consciência do que era ser pai quando a minha filha mais velha me caiu nos braços e eu percebi que era tudo ao contrário. Aquela ideia de termos o menino Jesus nas mãos é mentira. Um filho acabado de nascer não pesa. Somos nós que somos Deus, e os filhos podem ser aquilo que nós quisermos.

Podem?

Podem. Isso dá-nos uma omnipotência e ao mesmo tempo muito medo muito grandes. Dá muito poder aos pais, e às mães ainda mais. As mães são o sucedâneo de Deus, por mais que os pais tenham feito a verdadeira revolução do século XX. Ainda há muitas mães que vivem mal com essa revolução dos homens, que foi dizer: ‘Eu quero ser mãe’. Ser mãe é a primeira função do ser humano, homem ou mulher, e os homens foram durante séculos muito mal educados para isso. Agora felizmente isso acabou, e ter duas ‘mães’ a competir na educação de um filho é uma bênção e um privilégio.

Mas afinal, pai e mãe têm funções diferentes?

Nim. Nós já fizemos N estudos sobre isso, sentámo-nos com as crianças para descobrir se há uma função materna e paterna. O pai funciona como uma espécie de Rei Leão: quando alguma coisa se desconcerta ele resolve, e quando entra um estranho ele protege. O papel de protetor é muito organizador para as crianças. A mãe fica com o papel de esganiçada oficial da família (risos). A mãe serve de efeitos especiais. ‘Ah e tal, quando eu não existir é que vão ter saudades minhas!’. E é tão ternurento o olhar das crianças quando uma mãe esgota as quotas de parvoíce a que tem direito!

Em que é que uma criança é diferente de um adulto?

Em nada. Bem, estão menos estragadas e complicam menos. Por exemplo, os adultos às vezes perguntam-me, como é que se explica a morte às crianças? Nós só complicamos o que para eles é simples. Para nós é que é complicada a ideia de deixar a pessoa que amamos debaixo da terra às escuras. Mas a ideia de Céu só sossega os pais. As crianças têm noção de que se fosse um sítio muito bom, íamos para o Céu nas férias em vez de irmos para o Algarve.

É verdade que as crianças têm muito para nos ensinar?

Isso é a nossa arrogância de adulto a falar. Porque toda a gente tem tudo para nos ensinar, e nós andamos tão surdos, tão distraídos, e às vezes tão convictos daquilo que sabemos que nos falta a humildade de sentir, escutar e olhar para os outros. Nós temos mil enciclopédias à nossa volta todos os dias, crianças e adultos, e desprezamo-las.

Estamos a matar o entusiasmo das crianças?

Estamos. Estamos a transformá-las em jovens tecnocratas e isso é a maior estupidez do nosso tempo. Eu sou totalmente a favor das crianças irem à escola, e insurjo-me todos os dias quando, a bem de uma tolerância étnica absurda, permitimos que haja meninas ciganas que não vão à escola, ou crianças das educadas em casa. Não, por favor! Não sofrem o bullying dos colegas mas sofrem o bullying de pais que a pretexto de convicções absurdas, lhes negam este desafio que só a pluralidade nos dá. Porque quanto mais plurais, mais singulares. Os pais criam a ideia de que, quanto mais exclusiva a educação, melhor é. Mas a vida é o mais inclusivo que há, e quanto mais tardia for esta inclusão, mais estaremos a criar crianças xenófobas.

Mas a escola que temos está a destruí-las..

Porque a escola hoje está totalmente desatualizada. Acho que deve ser obrigatório ir à escola, mas a escola ainda não percebeu que o mundo mudou e está a mudar a uma velocidade estonteante, e ainda continua a imaginar que ensinar com números é mais importante que ensinar a contar histórias. O que faz a capacidade da aranha tecer a sua teia é uma tecnologia de ponta que nós nunca teremos. A nossa tecnologia é a capacidade de dar uma dimensão simbólica às coisas, de transformarmos a experiência em imagens, de contar histórias. Isso é o nosso equipamento de base, que nós estragamos e desprezamos a torto e a direito. E a escola, ao mesmo tempo que instrui, inibe o pensamento. Isto é quase esquizofrénico. Portanto, enquanto a escola não perceber que as aulas não podem ter 90 minutos e não assumir a verdadeira função de uma criança, que é brincar, estará a estragar as crianças.

Mas a ideia é que temos de preparar as crianças para um mundo mais competitivo…

Um mundo competitivo tinham os dinossauros. Isto é o slogan das famílias que sempre acharam que eram donas disto tudo. Hoje temos um mundo mais democrático, onde independentemente do berço, as pessoas devem valer pelo que são.

Depois as pessoas queixam-se que as crianças andam desatentas…

E andam. Porque estão estragadas até à quinta casa. Nós temos hoje as crianças mais dotadas que alguma vez tivemos. E o que é que lhes fazemos? Damos cabo delas logo no infantário. Como é que podem ser atentas com recreios de 10 minutos?

Também há muito a queixa de que as crianças estão malcriadas…

As crianças podem ser principezinhos que se transformam em ditadores quando os pais têm medo de lhes dizer não. Nós fomos educados numa atmosfera autoritária, do ponto de vista social e político, e confundimos o exercício da autoridade, que é um exercício de bondade, com autoritarismo. Fico verde quando se acha que dar uma palmada a um filho é um exercício de maus tratos. Eu seria a última pessoa no mundo a defender ‘eduque a estalo’. Mas uma palmada é uma maneira de dizermos ‘vou até onde for preciso, porque esta dor é um semáforo que te proíbe de fazer isto, e que te protege’. O exercício da autoridade estabelece um perímetro que define o que é seguro para nós. O Rei Leão leva o filho a um planalto e diz, Um dia isto vai ser teu. E o leãozinho pergunta, Posso fazer o que eu quiser? E o pai responde, Não, podes fazer mais do que aquilo que quiseres. Mas isto só se aprende quando nos ensinam a autoridade. Por isso, os pais parecem aqueles políticos que, incapazes de decidir, inventam uma comissão.

Se os pais são políticos, as crianças precisam de Sindicato?

Claro que sim. Porque as crianças estão em vias de extinção. É urgente transformar o brincar em património da Humanidade, mas não percebemos que, quanto mais a infância for infância, mais saudáveis seremos em adultos. Temos aquela ideia pateta de que as crianças só podem comer depois de lavarem as mãos 20 vezes e de as limparem a um guardanapo fervido, e tudo na vida delas é tão assético e esterilizado que as tornamos imunodeficientes para a vida. Não lhes damos espaço para brincar. E estamos permanentemente a exigir-lhes que trabalhem muito mais do que um adulto. Os trabalhos de casa tal como são feitos, não fazem qualquer sentido. Portanto, vamos lutar pela semana de 40 horas. Isto é obviamente caricatural, mas não tem graça. Párem porque isto está a destruir as crianças. Os pais dizem, ‘quando eu era criança era muito mais feliz, trabalhava menos’. Então como é que não se unem e deixam que se destrua o seu filho? A nossa função enquanto pai seria evitar os erros dos nossos pais, e reproduzir o que achamos que fez sentido na nossa infância. Ora como é que eles dizem ‘Eu era muito mais feliz em criança’ e não se unem numa frente comum para que a vida dos filhos mude?

O que é que podemos fazer?

Explicar a alguns ministros da educação que a escola é muito importante mas que a família é incomparavelmente mais importante, e que o brincar o é ainda mais. Estamos a criar macacos de imitação que não pensam sobre as coisas. Transformamo-los em ‘mestres’ aos 23 e juízes aos 30, naquele ideal economicista de ganharem muito dinheiro muito depressa. Mas lá dentro delas, o que é que elas são? O que aprenderam de humano? Que recordações levam da vida? Entre a escola e namorar, é muito mais importante namorar. Não são os produtos normalizados e os miúdos certinhos que vão fazer a diferença, são os miúdos entusiasmados e os que precisaram de errar e os que foram pelo outro lado. As pessoas ainda não descobriram que as multinacionais, quando escolhem quadros de topo, gostam de alguém que seja complexo, que tenha interesses políticos, atividades, família, amigos. O grande desafio não é sermos um tecnocrata, é sermos únicos. Nós não podemos querer um filho ideal, porque isso não é um filho, é um troféu. E se ser pai não nos tornou humildes, não nos tornou nada.

As crianças estão a ficar ‘normalizadas’?

Ah pois estão. E já começamos a ver esse resultado. Um empregador tem à frente 20 curriculos, e são todos iguais. Como é que ele vai selecionar alguém, com base em quê? Isto é um atentado às crianças e jovens. E acho uma vergonha que a educação nunca tenha sido objeto de um pacto de regime para se pensar a sério no que nós queremos para os mais novos. Tudo é discutido com muita demagogia e nada se resolve.

O que é preciso para se ser pai?

A capacidade para escutar com o coração. Mas estamos a perder isso. E não é por cansaço. Claro que andamos cansados, mas a vida é de uma simplicidade fora do vulgar. Queremos mudar a nossa vida sem mudar nada, mas isso não é possível. Temos de fazer escolhas, e temos de as fazer em função das pessoas. Fico à beira de um ataque de nervos quando me dizem ‘Os meus filhos são o mais importante da minha vida’. Porque o amor adulto é mil vezes mais sofisticado do que o amor por um filho. Quando percebemos que a pessoa que amamos tem de estar em primeiro lugar e os filhos em segundo, percebemos que as pessoas bem amadas são sempre melhores pais. E nós somos muito mal amados, porque nos desleixamos, porque na nossa generosidade acudimos a tudo, porque nos esquecemos de namorar.

Fica-se diferente depois de se ter filhos?

É como antes e depois de Cristo. Todas as nossas omnipotências infantis se constipam nesse dia e nós percebemos que somos de uma pequenez e de uma delicadeza que nos comove para lá de tudo. Um filho ensina-nos a perceber que amanhã é sempre longe de mais. É hoje que fazemos a diferença.

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