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Crianças: tímidas ou malcriadas?

Caladinhos, introvertidos ou ‘emburrados’ sempre houve: mas na era da comunicação, os pais preocupam-se que a timidez seja uma desvantagem real na vida dos filhos e que seja vista como ‘falta de chá’. Boas notícias: é mesmo possível tirar o seu bicho do mato.

Catarina Fonseca

“O meu filho de 6 anos é aparentemente extrovertido”, conta Maria, 35 anos. “Adora correr, saltar, pular, fala que nem uma matraca dentro da família. Mas assim que sai da zona de conforto parece outra pessoa. Nas férias, resolvi inscrevê-lo num campo de férias. Na viagem para lá, começou a ficar cada vez mais calado e finalmente disse: ‘Não quero ir’. E não foi.”
“Não posso levar a minha filha a lado nenhum”, conta Joana, 45 anos. “Porque ela não fala com ninguém. Mal diz uma palavra, torce-se toda quando falam com ela. A mim custa-me muito assistir a isto, não só porque é sempre difícil ver um filho sofrer (e aquilo para mim é sofrimento) mas também porque tenho medo que esta falta de sociabilidade seja mal entendida, como falta de maneiras ou indelicadeza, e que a prejudique a longo prazo.”
Quase todas as mães reconhecem estas situações. Não há nenhuma família que não albergue um ou mais tímidos: a timidez é a tendência para evitar interações sociais por medo de ser avaliado negativamente, e se já é difícil para um adulto lidar com o peso do olhar dos outros, para uma criança isto pode ser paralisante.
Nenhum pai ou mãe gosta de ver um filho em risco de ficar à margem do grupo. E ainda mais quando reconhecemos neles as nossas próprias dificuldades de relacionamento.
“A timidez tem uma parte genética, ou seja, podemos herdá-la do pai ou da mãe, mas há também grande influência do meio familiar: se os pais forem tímidos, tiverem poucos amigos ou se isolarem, não podem querer que o filho seja um ‘animal social’”, nota a psicóloga Isa Silvestre.

Criticar a timidez não vai corrigi-la
A timidez não é uma doença e todos nós temos predisposição para isso, em maior ou menor grau. Mas pode prejudicar o desenvolvimento da criança, que vai retrair-se cada vez mais.
“As consequências negativas mais temidas pelos pais são a dificuldade em fazer amigos e em se defenderem dos outros, a solidão, a maior vulnerabilidade a serem abordadas, a incapacidade de liderar”, explica a psicóloga. “São crianças que não se põem em jogo porque têm medo de falhar. Não conseguem iniciar ou manter uma conversa, e os outros acham que são antipáticas e excluem-nas.”
Na escola, a vida de um tímido não é fácil. “As crianças são avaliadas também pela participação, e é óbvio que um tímido vai ser muito penalizado por isto.” Pais e professores criticam-nas, achando que as corrigem apontando o erro. Nada mais contraproducente: “O pior que podem fazer é rotularem as crianças: não digam que elas são tímidas, porque as crianças começam a sentir que há algo de errado com elas, e que não há nada que possam fazer para mudar. O rótulo vai aumentar muito mais a inibição da criança.”
Os pais tornam-se demasiado críticos quando têm uma criança que não é o espelho deles ou não corresponde ao filho idealizado. “Mas eu até convivo com amigos’, dizem-me aqui no meu consultório. Depois, se lhes perguntar quais são os defeitos dos filhos, enumeram uma data deles, mas se lhes pedir três qualidades, têm dificuldade em dizer. Portanto, deve-se corrigir a timidez, mas sem recorrer a críticas e rótulos. Porque ultrapassar a timidez passa por incentivar as crianças a ‘libertarem-se’.”

Não ‘cristalize’ com a criança
Para ajudar uma criança a ‘libertar-se’, ela vai precisar muito do apoio dos pais. A criança não vai mudar de personalidade. Mas pode, de facto, conseguir ultrapassar as suas dificuldades.
A filha de Laura, Ana, queria muito ter aulas de ballet, mas entrava em pânico quando era preciso ficar numa sala com outras meninas desconhecidas. “Fiz um acordo com ela”, conta a mãe. “Na primeira aula, fiquei lá a hora inteira. E depois fui diminuindo aos poucos a minha presença. Se fosse muito duro para ela, não teria de continuar. Assim, consegui que ela ‘se aguentasse’, e hoje fica sem problemas.”
“Quando a criança percebe que ela não é aquilo e que tem outras possibilidades, e que nós adultos estamos com ela para ajudar, ela pode arriscar e experimentar mais”, explica a psicóloga brasileira Daniella Freixo de Faria, num ‘workshop’ de timidez disponível no YouTube. “O importante com uma criança tímida é propor-lhe desafios, e poder espelhar para ela o que ela vai conseguindo fazer. O nosso desafio é fazer com que esse estado não se cristalize, porque na hora em que vamos cristalizando junto com essa criança, a timidez torna-se cada vez mais consistente.”
Ou seja: muitos pais, eles próprios tímidos, desvalorizam o problema e ignoram-no, ou desculpam a criança, achando que a estão a proteger. Mas é importante não fazer isto e mergulhar em conjunto na luta contra a timidez. “Não há problema que a criança seja tímida”, ressalva Daniella. “Mas é importante ensinar a agradecer, a cumprimentar os outros, a olhar nos olhos, a procurar encontros autênticos e de qualidade, até que ela vá percebendo que pode, na segurança das relações, se abrir e se expressar ao mundo.”
E isto deve ser feito o quanto antes. “Quando se toma como verdade esse ponto de partida da timidez e se vai abrindo mão dessa aprendizagem social enquanto educadores, ela vai acontecer mais cedo ou mais tarde só que vai ser muito mais difícil. Porque se eu não aprendi a cumprimentar no desconforto dos meus 2, 3 ou 6 anos, quando tiver 8 vai ser muito mais difícil, porque não vivi todo esse processo.”

Como ir à luta
Ora, então, como é que podemos ‘ir à luta’ de forma prática e funcional? Comecemos pelos ‘nãos’: não rotular, não criticar, não esperar que a criança mude do dia para a noite, não ter medo de elogiar as suas pequenas conquistas, porque a timidez está estreitamente ligada à autoestima.
Como melhorar: trabalhar a comunicação. “Os pais têm de falar com a criança sobre o que ela sente, o que ela deseja, como gostava que a vida fosse”, explica Isa Silvestre. “Os pais dizem, ‘ah mas nós falamos’, e isso não acontece de facto, porque a rotina das coisas a fazer no dia a dia é muito poderosa.”
Portanto, é importante dar-lhe vocabulário emocional para ela dizer como se sente. “Muitas vezes, aspetos como a baixa tolerância à frustração ou as birras estão muito ligadas à incapacidade de as crianças comunicarem o que sentem. Explodem e é assim que comunicam. Ou então aquelas queixas como dores de barriga ou suores, que são somáticas e muito presentes na timidez. Temos que nos lembrar que as crianças não têm o aparelho mental suficientemente desenvolvido para lidar com algumas questões que lhes acontecem.” E fique atenta, porque por vezes a timidez está ligada a sintomas depressivos.
Atividades criativas como o teatro, a dança, a pintura e a música também são bastante aconselhadas, assim como o desporto (mas discuta com a criança aquilo que ela gostaria de fazer, não a despeje no futebol ou no ballet sem mais nem menos). “Agora de férias há muitas possibilidades de eles ‘começarem de novo’ com crianças que não se conhecem umas às outras”, lembra Isa Silvestre. “Os pais têm tendência a pô-las em ATLs com crianças que elas já conhecem, mas quando as coisas já não correm muito bem, começar do zero com outro grupo pode ajudar a esquecer o ‘rótulo’.”

Treine em casa
E acima de tudo, não tenha medo de demonstrar afeto: “Dê espaço à criança para que se expresse. Há maneiras menos invasivas de fazer isto. Por exemplo, contar os sonhos uns dos outros. É uma boa maneira de começar a falar sem stresse, porque falar sobre os afetos e as emoções nem sempre é fácil, mesmo para os adultos.”
Outras ideias? Não escude o seu tímido: exponha-o a situações novas, a pessoas novas, leve-o consigo para o trabalho, encoraje-o a fazer novos amigos. Mas dê uma ajudinha: em vez de muitas crianças, convide apenas um amigo para brincar. Em vez de aparecer numa festa já a meio, chegue cedo para que ele se enturme. Treine em casa: ‘Quando alguém falar contigo, tu dizes: olá, eu sou o João. Queres brincar comigo?’ Ensine como cumprimentar um adulto, e explique por que é preciso fazê-lo mesmo que não lhe apeteça. Resista à tentação de responder por ele quando lhe falam: deixe-o lidar com o assunto, que ele não vai morrer por isso.

OS TERRÍVEIS (E EMBURRADOS) ADOLESCENTES
Toda a gente já passou por isso. Pergunta-se a um adolescente: ‘Como é que correu o dia?’ E ele nada. Haverá uma timidez adolescente? “Pode haver várias razões para que isto aconteça”, explica a psicóloga Isa Silvestre. “Os miúdos podem não estar habituados a que conversem com eles, e sentem que é forçado. Eles são muito sensíveis ao que é forçado. Por outro lado, este mutismo até é saudável: é típico da adolescência que comecem a afastar-se dos pais, embora isso não seja muito agradável para os pais. Depois há a irritabilidade típica das hormonas. Mas se desde pequeno se conversa e se aborda todas as questões, a adolescência será mais fácil.”