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Entrevista à psicóloga infantil Laura Sanches:"A palavra dos pais vale muito mais do que um castigo"

Pais tranquilos e filhos felizes? A psicóloga Laura Sanches diz que é possível, com a ajuda do mindfulness. O livro ‘Mindfulness para Pais’ (Manuscrito) ajuda-nos a perceber porque reagimos como reagimos, e o que podemos fazer melhor.

Ricardo Bravo

Como é que o mindfulness nos pode ajudar a sermos melhores pais?

De várias maneiras. Por um lado, dá-nos uma certa tranquilidade para lidar com os desafios que se põem a qualquer pai ou mãe. Por outro, é uma excelente ferramenta para nos ajudar a lidar com os nossos estados internos, o que por sua vez nos ajuda a lidar melhor com os dos nossos filhos.

E isso na prática?

Como nos sentimos mais tranquilos, isso dá-nos mais disponibilidade para estar com as crianças. Por outro, o facto de estarmos mais conscientes das nossas reacções ajuda-nos a perceber que fazemos muitas coisas inúteis, que não contribuem para o nossos bem-estar nem o das crianças, e o mindfulness dá-nos uns minutos de paragem para perceber que não é preciso reagir imediatamente, que podemos parar para procurar a melhor resposta. O mindfulness dá-nos esse distanciamento dos nossos impulsos mais básicos e primitivos, que nem sempre são os melhores.

Fomos pouco habituadas a reagir a frio, é isso?

Sim, por vários motivos. Por um lado é porque é mais fácil, por outro lado não nos ensinaram a reagir de outra maneira.

E numa situação básica: imagine que a criança faz uma birra.

Em primeiro lugar, é preciso estar consciente do que é que aqueles gritos e choros despertam em nós, porque muitos pais ficam aflitíssimos ao ver a criança em lágrimas e aos gritos. E então, não estamos a responder à criança mas ao nosso medo e à nossa aflição. Portanto, há que distinguir a emoção deles da nossa, e aprender a lidar com a nossa emoção. E depois estarmos presentes para ele, com a nossa calma. A criança está a atravessar uma emoção muito intensa, e temos de estar bem para o ajudar a lidar com essa intensidade.

E como é que se ajuda?

Simplesmente estando presente. Ter empatia com a criança e mostrar-lhe que é seguro ter aquela emoção. Não a mandar calar. O que muitos pais fazem é mostrar que têm medo daquela emoção, que há emoções que são perigosas, que é preciso fugir delas. E a criança tem de perceber que há emoções assustadoras sim, mas que passam, e que não faz mal tê-las. E sentir que, mesmo naquele momento de fúria, os pais estão ali e que a amam.

Não se deve culpabilizar as crianças pelas suas emoções, é isso?

Claro. Nem se deve pôr rótulos. Às vezes são coisas inocentes, porque ele é mais trapalhão ou mais distraído que os irmãos, são coisas de que nem nos apercebemos, mas depois isso ‘cola’ e passa a fazer parte da forma como eles se vêem, o que é muito contraproducente.

De que é que as crianças precisam mais, hoje em dia?

Da presença dos pais, que é o que menos têm. Claro que os pais não têm culpa, e é uma frustração muito grande para eles, mas é verdade. Precisávamos de reorganizar as nossas prioridades e mudar muita coisa na sociedade.

O que é que os pais podem fazer?

Quando estão presentes, estarem verdadeiramente presentes, o que às vezes também não é fácil. Há o telemóvel, os computadores… Agora estamos sempre ligados ao trabalho, aos amigos, ao resto do mundo, e não estamos mesmo ‘ali’.

Somos a mesma mãe que a nossa mãe foi?

Não necessariamente. Isso pode acontecer quando não há um questionamento, quando não olhamos para dentro de nós e perguntamos o que podemos fazer de diferente. Mas claro que há uma grande probabilidade de repetirmos certos comportamentos, se não houver um esforço para os interromper.

Como é que educamos sem castigos?

Através da liderança baseada na relação. As crianças têm de saber que são os pais que orientam e decidem, mas têm de se sentir acolhidas e respeitadas, e o problema dos castigos é que muitas vezes põem isto em causa, porque fazem com que a criança sinta que os pais não a compreendem. Um castigo é uma agressão que vai minar a relação, e a criança deixa de confiar nos pais. Claro que há vários tipos de castigos, mas pode-se correr o risco de afastar a criança da relação.

A falta de castigo tem a ver com a falta de autoridade?

Não. A autoridade tem a ver com a confiança que os filhos têm em nós. Nós devemos ser o modelo a seguir, mas para eles sentirem isso, têm de se sentir respeitados e acolhidos. A nossa palavra vale muito mais do que um castigo.

Pensamos em nós como pessoas completas, mas os filhos ajudam-nos a crescer…

É verdade, porque quantas vezes nós somos adultos mas não somos maduros… E as crianças confrontam-nos muito rapidamente com isso, os filhos são excelentes a pisar-nos os calos, e confrontam-nos muito com atitudes nossas que não fazem sentido. Os pais são muito crianças, e também fazem birras, que são um sinal de imaturidade. Portanto sim, os nossos filhos também nos ajudam a ter noção dessas falhas. Mas é importante perceber que não são eles que vão preencher essas falhas. Eles apontam o que está mal, e nós procuramos a solução.

Diz que ser um pai ou mãe consciente significa não usar os filhos como desculpa para não tratar de nós…

O que acontece é que estamos muito pouco habituados a olhar para nós, a assumir a responsabilidade pelos nossos estados, a apercebermo-nos deles, e quando há filhos entramos no piloto automático e tentamos responder a todas as solicitações sem nos lembrarmos de que às vezes precisamos de parar. Nós e eles.

Dê-me um exemplo de um caso em que o mindfulness tenha ajudado.

Lembro-me de uma mãe que tinha como objectivo gritar menos com os filhos. Então contou-me uma situação em que ela tinha na cabeça uma ‘fórmula’ que memorizara como uma boa resposta para a criança, mas depois, como estava enervada, dizia uma coisa com as palavras, supostamente muito empática, e a expressão corporal dela dizia outra oposta, e aquilo era muito confuso para a filha. E o mindfulness permitiu-lhe ter a noção disso, do corpo rígido e tenso, dos punhos fechados. Respirou fundo, saiu da situação, e mais tarde lá resolveu as coisas com a criança. Às vezes, basta essa tomada de consciência do corpo.

Não temos de controlar tudo na hora, é isso?

Exactamente. Isto não é tanto uma questão de controlar, mas o simples facto de tomar consciência do corpo ajuda-nos a perceber que aquilo não está bem, e que se calhar pode ser resolvido mais tarde. É importante sair da situação e depois tomar as decisões que acharmos mais adequadas.

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