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10 segredos dos pais pediatras

Quando deixam os consultórios e vão para casa, também eles são pais, só que com uma vantagem: um curso de medicina. Pedimos a dois pediatras que partilhassem alguns conhecimentos que nos ajudem a distinguir o que precisa de atenção médica do que pode ser tratado em casa com um colinho e um xarope.

Gisela Henriques

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O meu filho caiu e bateu com a cabeça no chão. É um simples galo ou devo ir ao hospital?
Eugénia Capela: É apenas um galo se a criança bate a uma velocidade pequena e cai da sua própria altura. Geralmente chora logo, não fica sonolenta, nem desequilibrada, e o seu comportamento não se altera. Se, por exemplo, uma criança cai do muda-fraldas, deve ser vista no hospital. Mesmo com o peso de uma criança e aceleração de um metro e meio até ao chão pode haver um traumatismo craniano.

Caiu e fez um golpe que sangra. Precisa de levar pontos?
EC: Pegue numa compressa (ou num pano o mais esterilizado possível para não infetar secundariamente) e limpe com água fria ou com soro, para estancar a hemorragia. Se o golpe é pequeno, superficial e para rapidamente de sangrar quando se lava, e os rebordos do golpe ficam juntos, não é preciso mais nada. Se é um golpe aberto mas for superficial, não damos pontos, fazemos uma colagem do rebordo da pele para ficar com uma cicatriz mais bonita. Só damos pontos quando os golpes são mais profundos.

A minha filha queixa-se de dor de garganta mas não tem febre. O que posso fazer em casa?
Hugo Rodrigues: Apesar de se utilizar com bastante frequência, o efeito do mel nas dores de garganta é apenas temporário e bastante variável. Gargarejar com água com sal pode ter algum resultado, pela capacidade antisséptica do sal, mas a eficácia é também bastante variável. Não acho errado tentar, mas não é uma opção que as crianças aceitem muito bem...
EC: Se for uma dor de garganta mais irritativa pode fazer um xarope de cenoura ou um chá com mel. Se tiverem mais queixas, podemos dar-lhe um analgésico, para não estar com dor. Se a dor persistir além de 3 dias, mesmo não tendo febre, mas interfira com a alimentação da criança, deve ser observada. Se a dor de garganta é leve e tem um pingo no nariz branquinho, não tem febre, dá o paracetamol para tirar a dor. Se a criança passar a ter dificuldade em engolir, é sinal de uma infeção secundária e precisa de ser observada.

Como distinguir uma dor de barriga normal da apendicite?
EC: As dores de barriga é das queixas mais frequentes nas crianças e têm a ver muitas vezes com cólicas, acumulação de gases ou obstipação, ou então porque tem uma gastroenterite e vai começar a ter diarreia e vomitar.
Uma dor de apendicite é localizada, inicia-se à volta do umbigo, mas depois tem um agravamento progressivo. Se ao fim de 2-3 horas não melhoram, até pioram, se as dores forem na fossa ilíaca direita, se fica progressivamente nauseada ou a vomitar, a criança tem de ser vista. Quando uma criança se queixa de dor de barriga e passado um bocado já está melhor, come bem e não vomita, e depois queixa-se novamente de dor de barriga, isso é sinal que podem ser cólicas. Se estiver obstipada, pode por-se um clister para sair ar ou ter uma dejeção e depois ficam bem e aliviados e não precisam de mais nada.
A apendicite é mais frequente na pré-adolescência e adolescência, nas crianças pequenas é rara e abaixo dos 5 anos é muito rara.

O meu filho tem 9 anos e tem medo de tomar comprimidos. Como pode ‘treinar’?
HR: Pode utilizar-se mini smarties, mas o mais importante é eles colocarem o comprimido bem na parte de trás da língua, para ser mais fácil de engolir. Depois, devem utilizar muita água e tentar esquecer que têm o comprimido na boca, para tentar ‘empurrá-lo’ sem grande dificuldade. Na maior parte das vezes é só uma questão de perceberem que é fácil, porque depois já não sentem nenhum problema. Outro conselho importante para os pais é avisá-los que não podem nunca dizer algo do género “eu também não gosto nada de engolir comprimidos” (o que é muito frequente), porque isso torna a tarefa muito mais complicada.

Ele está com dor de ouvidos, será otite?
EC: Quando estão com dor de ouvidos isso pode ter a ver com obstrução do nariz, porque foram à piscina, ou a um sítio onde havia vento mais forte, alguma coisa que deixe o ouvido mais sensível. Se não tem febre, dê paracetamol para a dor, mantenha o nariz bem desobstruído, e veja em 48h como é que evolui. A maior parte das vezes são patologias inflamatórias que não precisam de antibiótico. Quando a criança não melhora ou começa a deitar pus do ouvido, ou tem febre, tem de ser observada porque pode estar a fazer uma otite infeciosa.
No verão há as otites das piscinas, em que o que fica inflamado não é o tímpano, é o canal auditivo. Damos paracetamol ou ibuprofeno para tirar a dor, e depois tem de se pôr antibiótico em gotas no ouvido.

Os meus filhos lavam as mãos em 3 segundos. Como ensiná-los de uma maneira lúdica a lavar as mãos como deve ser?
HR: Dizer que têm de lavar as mãos o tempo de cantar uma cantiga pode resultar, bem como usar uma ampulheta de brincar. É importante que os pais insistam com os filhos para lavar bem as mãos e, quando isso não acontece, que os ‘obriguem’ a lavar novamente. Só assim eles vão perceber que o melhor é lavar bem de início pois acaba por dar menos trabalho...

Como convencê-los a beber água se estão desidratados?
HR: Se uma criança está desidratada, a principal resposta do organismo é estimular a sede, pelo que se se recusa a beber completamente é pouco provável que esteja mesmo desidratada. Nessas situações, a melhor forma de hidratar é pela boca, com os soros de hidratação que se vendem nas farmácias, mas por vezes as crianças estranham um pouco o sabor. Uma boa alternativa são umas gelatinas que também existem nas farmácias, que têm um mesmo efeito e que são bastante bem toleradas. Se não gostarem mesmo, pode tentar dar chá com um pouco de açúcar ou então só água.

Tem febre e tosse, será gripe ou pneumonia?
HR: A febre e a tosse são sintomas muito frequentes e na maior parte das vezes são causadas por infeções respiratórias víricas. No entanto, há algumas situações em que podem ser causadas por infeções mais graves, pelo que convém conhecer alguns sinais de alarme que justificam uma observação médica urgente: mau estado geral da criança; sinais de dificuldade respiratória (ver o nariz a abrir e fechar ou então a pele entre as costelas a ir ‘para dentro e para fora’ com a respiração); febre que não cede à medicação; quando a febre dura há mais de 3-4 dias sem melhoria; quando a tosse surge de forma contínua, com um ‘guincho’ entre acessos de tosse; quando a criança não se consegue alimentar corretamente.

É normal as crianças terem infeções urinárias?
EC: Nas crianças, as infeções urinárias têm etiologia diferente dos adultos e portanto se uma criança tem infeções urinárias de repetição tem uma patologia urinária. Se um menino tem infeções urinárias, tem de se perceber se tem alguma patologia renal ou um refluxo [vesico-uretral], com rapazes fazemos sempre uma investigação com ecografia e cistografia.
Nas meninas, quando é a primeira cistite, se se resolve bem não fazemos mais nada, se elas voltam a ter, aí tem de se fazer uma investigação, porque há pequenas alterações no aparelho urinário que condicionam a propensão para algumas infeções urinárias. Nas meninas tem a ver com a higiene e o trânsito intestinal.
HR: O mais importante é mesmo perceber se a criança tem alguma situação que possa servir de causa para as infeções (malformação do aparelho urinário, prisão de ventre...) e se for uma menina ensinar como deve ser feita a limpeza da região genital (sempre da frente para trás).

Pediatra Eugénia Capela, tel. 244.831.788 (Leiria);
Pediatra Hugo Rodrigues, Hospital Viana do Castelo, autor do blog ‘Pediatria Para Todos’ e da App ‘Pediatria para todos’ (Android)

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