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Alienação Parental: os filhos da discórdia

Uma forma de abuso psicológico dos mais novos, ainda pouco abordada na sociedade atual, mas que pode ter graves repercurssões na vida presente e futura de uma criança.

Sónia Santos Costa

Crazytang


A alienação parental é uma forma de abuso emocional e psicológico da criança e ocorre quando um dos pais procura afetar o vínculo entre o filho e o outro progenitor. Envolve todo o tipo de manipulação, com a finalidade de criar uma imagem distorcida do outro e, eventualmente, quebrar os laços afetivos existentes entre ambos.

Ricardo Simões, presidente da Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direito dos Filhos (APIPDF) , dá a cara e a voz nesta luta contra o que qualifica como uma forma de violência doméstica e um dos maiores perigos para a saúde mental dos menores.

“Existe uma instrumentalização da criança. Esta é usada como uma arma de arremesso, um instrumento para atingir o outro . É uma espécie de lavagem cerebral.”

E quem são estas crianças? Não falamos exclusivamente de filhos de pais separados. Em alguns casos, o divórcio não marca o início do processo de alienação - enquanto os progenitores estão juntos, podem existir ocasiões nas quais incorrem em insultos e ofensas, frequentemente de forma indireta e até sem se aperceberem. Atitudes discriminatórias, expressões que rebaixam as habilidades ou capacidades alheias são as mais comuns - frases como “O teu pai não sabe fazer isso, é trabalho para mim” ou “A tua mãe não tem jeito para essas coisas” .

“São as mães ou os pais quem mais procura ajuda?” é uma questão várias vezes colocada ao presidente da APIPDF. Este afirma que, na equação, nenhum grupo está em maioria absoluta e que, ao contrário do que se possa pensar, não é observada uma predominância gritante do sexo masculino na ala dos alienados,

“Quase metade das pessoas nos grupos de ajuda mútua são mulheres, mães. A diferença é muito pouca, Este problema não afeta só os pais, como muitos ainda julgam”

A alienação parental pode dar frutos muito amargos, consequências graves e determinantes para a vida futura da criança envolvida. Para além dos efeitos negativos quase imediatos no comportamento do menor - sentimentos de culpa, alterações nos padrões de sono e alimentação, mudanças bruscas de humor, agressividade, dificuldades de concentração e motivação que podem levar ao insucesso escolar - , existem ainda sequelas a longo prazo, como a maior possibilidade de incidência de transtornos de foro psiquiátrico (a ansiedade e a depressão são apenas dois exemplos).


Quando se dirigem a uma reunião de apoio, que ocorrem todas as segundas feiras às 17h30, na sede da Associação - o número 12 da Rua Maria Carlota, no Lumiar -, os presentes são convidados a falar, a partilhar a sua história. Ricardo Simões explica que, para além de parcerias com psicólogos, a Associação não dispõe de técnicos e funciona na base do diálogo e de dinâmicas de grupo.

“Ajudamo-nos mutuamente. Claro que, no grupo, existem pessoas que percebem mais desta ou daquela área e assim podem dar uma ajuda mais especializada. Mas tudo de forma informal. Como vários amigos que se juntam para desabafar, partilhar conselhos, esperar que as experiências de uns ajudem os outros e vice versa”


O presidente da APIPDF aponta para uma espécie de atitude-padrão observada naqueles que se juntam às reuniões semanais pela primeira vez. Chegam e desabafam, contam a sua história - e falam, sobretudo, no outro progenitor. Denunciam atitudes, apontam erros, com um discurso totalmente centrado no outro, composto por vários “Ele fez isto, ela disse aquilo”, que chega a durar horas e durante o qual, sem sequer se aperceberem, não referem em momento algum a criança.

“É importante puxar à atenção aquilo que importa, que é o bem-estar do menor que está no meio desta luta de interesses… No início e durante algum tempo, os pais não têm a consciência que estão focados nos seus problemas, na sua guerra um com o outro. Quando conseguem concentrar-se naquilo que importa, o filho, é um grande passo.”


O extremo oposto também não é a solução. Ricardo Simões defende e faz questão de sublinhar que a vida de um adulto não se pode cingir à parentalidade e às questões que dela advêm.

“Um ser humano é composto por muitas facetas e não as perde quando é pai. Tem o seu eu emocional, pessoal, profissional, social, familiar, sexual… Não pode limitar a vida ao filho! Isso retira-lhe a pluralidade enquanto pessoa e coloca uma imensa pressão nos ombros da criança, que se sente o centro da vida do progenitor” .

Quando os presentes numa reunião se apercebem, pelo discurso de determinado participante, que é isto que está a acontecerna sua vida, é frequente que alguém pergunte, numa tentativa de alertar para a situação: “Ok, e à parte de tudo isso, o que tens feito da tua vida?”.

Embora parecesse numa posição dominante até este ponto, o progenitor alienador vai colher, mais tarde ou mais cedo, as consequências daquilo que semeou. Este, que se dedica ao filho e que lhe exige reciprocidade - e que lhe tenta agradar em todos os pontos - vai deixar de assumir a posição de controlo para passar a ser o controlado. Quando a criança começa a ter consciência do poder que detém sobre este, pode desenvolver uma atitude manipuladora e agressiva, que tende a agravar com a idade e a transformar-se em violência filioparental . Quando se apercebem disto, os progenitores já nada podem fazer para reverter a situação.

“Dão tudo aos filhos, fazem-lhes as vontades, querem ser os preferidos. Mas no fim acabam por se arrepender, quando sobra para eles. Consoante vai crescendo, o filho entende esta dinâmica e começa a aproveitar-se, vai fazendo exigências, jogando com os seus interesses, manipulando e usando o poder que sabe que tem.”

A alienação parental não constitui um crime punível por lei. De qualquer forma, a Associação Portuguesa para a Igualdade na Parentalidade e Direitos dos Filhos não considera que este seja o caminho correto a adotar na erradicação do problema.

“Punir juridicamente não resulta. É como pôr uma almofada em frente da cara da criança e continuar a dar murros. Pode não doer tanto, mas a violência está lá. Se a via jurídica não resultou para acabar com a violência doméstica, também não resulta neste caso, que não deixa de ser uma forma de violência doméstica.”, argumenta o presidente.

De entre todos os casos que pelas reuniões de apoio já passaram, existem alguns que o diretor da Associação garante que dificilmente poderá esquecer. Num deles, um pai alienador com três filhas a seu cargo, com visitas à mãe limitadas a três horas no fim de semana. Dizia-lhes para, durante todo esse tempo, se fecharem no quarto e partirem tudo ao seu alcance.

“A nossa psicóloga insistiu em acompanhar estas meninas e ficar na casa da mãe durante essas tardes. Nas primeiras vezes não falavam com ela, recusavam-se. Com o passar do tempo, acabaram por ganhar confiança. Hoje, estão entregues à mãe. E o pai com um processo em tribunal por violência doméstica”.

Se essa situação já está resolvida e com um final aparentemente feliz, já outra que refere parece longe de acabar - uma adolescente de 15 anos, impedida de viver com a mãe pela família paterna, diagnosticada com esquizofrenia precoce e que já tentou, por duas vezes, estrangular a avó a quem está entregue .

“É por isso que nos revoltamos quando mandam crianças alienadas aos psicólogos
que, na sua maioria, nem sabem lidar com isto. Têm a noção do número de mães que acusam pais de violarem as filhas, só para estes serem afastados? Isto não se resolve com submeter crianças a testes psicotécnicos... ”.


Durante muito tempo, a guarda única foi considerada a forma exclusiva de proteger a criança. Nesses casos, as visitas agendadas ao outro progenitor são pouco frequentes - muitas vezes, ocupam apenas um dia do fim de semana. Esta era tida como a medida maiseficaz de não pôr em causa as rotinas da criança, os seus hábitos e bem estar. Mas Ricardo Simões discorda.

“Não é a melhor escolha. Se até aqui foi esse o método mais adotado e não funcionou, então há que alterar alguma coisa, em vez de continuarmos a decretar residências
únicas. A residência parcelada é a melhor opção. É esta a luta que temos em mãos e que nos decidimos a travar, neste momento.”


Estratégias comuns da “Alienação Parental”

Segundo a Drª Teresa Paula Marques (Psicóloga Clínica, especialista em Psicologia Infantil e do Adolescente). Informações disponíveis na página da Associação para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos.

1. Isolar a criança : Uma das primeiras formas de isolamento é a tentativa de reduzir as comunicações telefónicas com o outro progenitor. Quando estas ocorrem, são sob supervisão e controlo do alienador.

2. Evitar o contacto físico : Festas de aniversário, de Natal e de final de ano na escola, ou outras atividades extracurriculares começam subitamente a coincidir sempre com os horários que cabem ao outro progenitor.

3. Intercetar presentes e mensagens : O desvio de prendas e de mensagens é uma tentativa de fazer a criança acreditar que o outro progenitor não pensa nela e não se preocupa.

4. Purga emocional : Consiste em eliminar recordações que evoquem momentos felizes (como fotografias) passados com o progenitor que se
deseja afastar. Com a erradicação destas memórias, dá-se uma rutura simbólica dos laços emocionais - já que a intenção é associar o progenitor alienado a uma imagem má e distorcida.

5. Distanciamento físico e rapto : O desejo de programar o filho contra o outro progenitor é um dos fatores que aumenta o risco de rapto.

A história de dois pais em luta pelos filhos é o tema do, quarto episódio do programa ‘Vidas Suspensas”, "O Pai è Mau" da autoria da jornalista Sofia Pinto Coelho, esta segunda-feira, dia 16 de abril, na SIC.

Este programa é seguido de um debate em direto na sic.pt

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