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Direito à privacidade ou mais controlo: o que sabemos sobre a vida online dos nossos filhos

Como distinguir a linha fina que divide a necessidade de protegermos os nossos filhos dos perigos da Internet e o direito que eles também têm à privacidade?

Cristina Tavares Correia

Iakov Filimonov

Como se não bastassem os medos que já os nossos pais tinham, o mundo online vem acrescentar, hoje, outros motivos de preocupação a este rol: a segurança, o cyberbullying, o excesso de exposição a conteúdos desadequados e até perigosos que os nossos miúdos partilham nas redes sociais.


Teresa Paula Marques, psicóloga clínica especialista em adolescentes, está a terminar o doutoramento sobre os riscos e oportunidades criadas para os jovens no Facebook. “As preocupações dos pais de outros tempos são as mesmas de hoje, mas noutro contexto. As más companhias, o medo de que fôssemos assediados, continuam a existir num contexto virtual, onde assumem uma dimensão maior. Cada vez mais se acha que não existem dois mundos separados, o virtual e o real – um é o prolongamento do outro.”


Apesar do fosso tecnológico entre gerações ter diminuído, para muitos adultos o mundo das redes sociais ainda é um grande mistério. “Não é a generalidade, mas tenho-me deparado com pais que não sabem o que é o Facebook ou como funciona, não têm conta. Mas têm que saber ao menos o mínimo essencial para conseguirem dialogar com o filho sobre estas questões.”


“A maior parte dos pais não sabe como criar definições de privacidade no Facebook. Se não sabemos como funciona, como podemos explicar aos nossos miúdos como se podem proteger?”, pergunta a psicóloga clínica Tânia Dinis. A psicóloga defende que deve haver um primeiro acompanhamento dos passos na Internet, “como acompanharmos os primeiros programas de televisão que eles veem. Neste percurso, os jovens conquistam o seu direito à privacidade, como conquistam o direito a sair à noite, um processo que vai acontecendo até percebermos que já têm recursos para lidar com os riscos.”

Pais Big Brother
Não sendo a maioria há, no entanto, pais que exigem saber as passwords de emails e Facebook dos filhos, para controlarem os conteúdos que estes publicam online e as pessoas com quem falam em aplicativos como o Messenger. Podemos falar em invasão de privacidade? E será que os pais estão preparados para o facto de o seu adolescente ter direito a ela?

“Compreendo a angústia de pensarem que os filhos podem cair numa armadilha virtual, mas acho que esse é o caminho errado", diz Teresa Paula Marques. "Qualquer pai atento aos filhos pode aperceber-se de alterações comportamentais que possam levá-lo a desconfiar se há algum problema. Aí, sim, faz sentido abordar o jovem e perguntar o que se passa numa conversa franca. Outra coisa é estar constantemente numa situação de Big Brother. Ninguém gosta de ser controlado a esse nível. Até porque, quando não queremos fazer as coisas em casa, fazemos noutro sítio e de outra conta. Hoje, os jovens sabem muito mais de redes sociais do que os pais – que até podem estar bloqueados de certos conteúdos que eles publicam, ou os filhos podem ter várias páginas e os pais apenas terem conhecimento de uma. Há alguns anos, um dos conselhos dados aos pais era de terem o computador numa parte comum da casa. Hoje, com a Internet portátil e as redes wi-fi, isso já não faz sentido.”

Pouca autonomia, miúdos mais inseguros
Pais controladores não estão a “educar o filho para ser responsável e autónomo, a pensar pela sua cabeça”, alerta ainda a psicóloga. “É importante transmitir que há confiança. Alguns estudos parecem apontar que os jovens que se põem em risco online são aqueles que também têm comportamentos de risco no mundo real.”
Tânia Dinis concorda: “Acaba por não ser sequer eficaz os pais terem as passwords de um jovem de 16 anos. É comprar guerras e promover desconfianças que não contribuem para a proximidade entre pais e filhos. Uma coisa é ter as passwords nos primeiros tempos, para garantir que ele sabe usar a Internet, mas depois a conta é só dele. Se há um nível de controlo tão elevado, então o jovem poderá ter um baixo nível de autonomia – e, seguramente, não é só nas redes sociais. Só se estará a promover que fure esse controlo na primeira oportunidade. Mas se os pais veem as suas comunicações e ele até acha normal, pode estar-se a criar uma situação ainda pior em termos de desenvolvimento: ele não está a criar a sua autonomia emocional, o seu espaço de encontro com os outros e para cometer erros. Provavelmente está habituado a que os pais decidam tudo e no seu grupo de jovens está mais isolado ou não toma iniciativas. Se tiver um problema para resolver, não o vai saber fazer sozinho.”

"Temos é que educar os nossos filhos no sentido de se protegerem nas redes sociais.” E é um trabalho que começa cedo, diz Teresa Paula Marques. “Ninguém acorda de repente com um adolescente em casa. Logo aos 7 ou 8 anos, quando começam a ter maior capacidade de entendimento, de se colocarem no lugar do outro, trabalhamos nas questões de prevenção, dando exemplos práticos. Regularmente ouvimos casos de assédio, de jovens que fogem de casa para irem ter com pessoas que conheceram nas redes sociais. É um bom mote para falar de prevenção.”

Aconselhar sem parecer ‘careta’: é possível?
Olhar incrédula para as fotos ousadas do filho/a adolescente de um amigo e dizer ‘mas estes pais não veem isto?’ também pode ser um julgamento injusto. Até porque muitas vezes estes valores são-lhes passados. “Há outras influências nesta fase e a dos pares da mesma idade é bastante grande.” Os programas de reality TV também não estão a ajudar, segundo Teresa Paula Marques. “Mostram cenas de sexo, agressividade verbal e física e são problemáticos porque aquelas pessoas se tornam ídolos para eles: falam e vestem-se como eles porque ali têm o modelo de alguém que singrou na vida e sem saber fazer nada de especial.”

Mas como podemos transmitir-lhe a mensagem sem parecermos ‘caretas’? "É difícil passar a mensagem, mas também depende de quem a passa. As melhores pessoas para o fazer podem não ser os pais e sim um irmão mais velho, um tio... Tem é que ser alguém que admirem e respeitem, que lhes diga ‘o mundo tem que saber umas coisas de ti, mas a outra parte é só tua’.”


“Da parte de não parecermos ‘caretas’, não nos safamos”, sorri Tânia Dinis. “Mas isso não é mau. Nós somos os adultos; não temos que ser como eles. O nosso trabalho é dizer ‘já fiz este caminho; os nossos valores enquanto família são estes: o que estás a fazer está de acordo com isto? Achas que vais ter orgulho desta fotografia daqui a uns anos? Isto é educar; ajudá-los a pensar sobre o que fazem, especialmente nos tempos em que não estamos com eles. Muitas vezes há um experimentar fora da norma, mas há depois um regresso a ela.”

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