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Falar de política às crianças: sim ou não

O seu filho sabe o que significa democracia? O que é o Brexit? E quem é o presidente?

Catarina Fonseca

WDnet Digital Creation Studio

É verdade: política não é um assunto que interesse muito à maioria das crianças (e à maioria dos adultos, convenhamos). Mas com todos os assuntos debatidos à sua frente nas televisões, escolas e redes sociais, é inevitável que elas se confrontem com alguns temas. Mas o que se diz quando os temas são pesados?

“Recentemente, o meu filho voltou do colégio a dizer que tinha participado num debate sobre a descriminalização do aborto. Ele tinha sido o único a considerar pontos importantes do problema, como a morte de milhares de mulheres em clínicas clandestinas”, conta Penélope Martins, advogada. Admite que fala com os filhos de 15 e 11 anos sobre tudo. “Conversamos sobre política, sim, e tento estimular uma visão humanitária e solidária. Não há como tingir o mundo de cor-de-rosa e varrer para debaixo do tapete a sujidade produzida por guerras e miséria, fingindo que a família é um oásis a flutuar no cosmos... Educar os filhos é reconhecer problemas e torná-los aptos a integrar a solução.”

No Brasil, onde Penélope vive, isto é mais fácil de dizer do que fazer, dado o clima político bastante conturbado. Mesmo assim, dizem os psicólogos, a realidade não deve ser escondida às crianças. Para o filósofo brasileiro Mario Sérgio Cortella, a discussão é fundamental: “O omisso é cúmplice. Os pais que escondem do filho temas importantes, tendem a fazer da criança uma vítima de um sistema que pode ser maléfico. Há pais que dizem ‘não me meto em política’. Ao agir assim, já se meteram”, lê-se em www.educarparacrescer.abril.com.br.

E deve-se ou não levar as crianças às ‘manifes’? Depende da família: levar os filhos é uma forma de permitir à criança participar na História: do país e da sua família. Mas há que ter cuidado, para não fazer do momento uma experiência negativa.

Fácil de explicar

Em Portugal, dado o enorme número de abstencionistas, é de prever que muitas famílias nem sequer abordem o assunto com os filhos. Mas também há quem faça o contrário: “Os meus filhos não têm nenhum interesse especial por política, mas acho que qualquer deles sabe o nome do primeiro-ministro e do Presidente da República”, conta João Miguel Tavares. Jornalista, comentador, autor do blog ‘Pais de Quatro’ e do livro ‘A crise explicada às crianças: para miúdos de direita e para miúdos de esquerda’, nem sequer acha as perguntas sobre política difíceis de responder. “Difícil é falar sobre a morte, por exemplo. Responder às perguntas para as quais não temos respostas. A política é relativamente fácil de explicar. Lembro-me de uma vez explicar à minha filha a diferença entre esquerda e direita, e fui ao YouTube onde saquei um filme feito pouco depois do 25 de Abril em que dois trabalhadores discutem sobre a posse de uma enxada. Um deles defende que a enxada agora era de toda a gente, e o outro dizia ‘não senhor, a enxada é minha’. (risos). Para mim, essa continua a grande diferença entre esquerda e direita.”

Apesar de ser inevitável que os pais passem aos filhos a sua maneira de ver o mundo, há pais para quem as divergências não são um drama. “Não sou nada daqueles tipos que acham que os filhos quando crescerem devem ter a mesma opinião política dos pais”, defende João Miguel Tavares. “Aliás, muito mais do que esquerda ou direita, acredito que somos marcados pela classe social. Essa é a grande clivagem. Uma pessoa de esquerda de classe média alta tem mais em comum com uma pessoa de direita de classe média alta do que com uma pessoa de esquerda de classe baixa.”

Claro que, por enquanto, ainda não sofreu na pele divergências familiares. “A minha filha mais velha tem 13 anos e ainda não entrou na fase da contestação. Mas ninguém está livre de lhe acontecer o mesmo que ao Adriano Moreira, um dia acordar e ver a filha do outro lado da bancada.” (risos)

Uma atividade nobre

Então, sobre que devemos de facto falar quando falamos de política? Como explicar a crise dos swaps, o desvio de fundos ou as políticas sociais? Tal como explicamos (ou não) a nós próprios, diz João Miguel. “Não insisto nada em que os meus filhos pensem como eu, é uma coisa que não me preocupa. Com o que eu tenho muito cuidado é em nunca lhes passar aquele discurso catastrofista de que a política é uma coisa suja e que os políticos são todos corruptos e deviam estar presos. Acho que a política, com todos os seus defeitos, é uma atividade muito nobre, trata-se de gerir o modo como nos organizamos em sociedade, e não queria nada que tivessem uma visão negativa disso.”

Mas é óbvio que os pais e a escola não são a única influência e as crianças acabam por ser muito marcadas pelo que veem. “Os meus filhos veem imensas coisas no YouTube, como o ‘Saturday Night Live’, e acabam por saber mais sobre política americana do que sobre a portuguesa. Há miúdos que sabem quem é o Trump mas não sabem quem é o nosso primeiro-ministro.”

Falar de política é importante porque... é muito mais do que falar de política: “É falar de igualdade, de liberdade, da forma como doseamos tudo isso, e é cada vez mais importante porque os nossos filhos vão viver num universo muito mais politizado do que o nosso. Há uma repolitização do mundo, as coisas estão cada vez mais extremadas.

A política agudiza-se quando os recursos são escassos: quando há dinheiro para todos, ser de esquerda ou de direita é irrelevante.”
Ou seja: falar de política é explicar a forma como nos organizamos e mostrar como viver no respeito pelos outros.

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