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O que as crianças devem saber antes da adolescência

Pedimos à jornalista e escritora Isabel Stilwell, coautora, com Eduardo Sá, do livro sobre parentalidade ‘Os Dias do Avesso, mãe de três filhos e avó de seis netos, que partilhasse connosco os seus princípios ‘básicos’ de educação.

Catarina Fonseca

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1. Seguir o exemplo

O primeiro mandamento é: não queira que o seu filho seja uma coisa que você não é. É um ‘básico’ mas quantas vezes nós exigimos deles coisas que nós próprias nunca fizemos e virtudes que nunca tivemos? “Se você valoriza imenso a caridade mas nunca a pratica, se quer que ele seja muito honesto mas aldrabou a morada de casa para ele ficar na escola que quer, se gostaria que ele ajudasse os outros mas nunca fez voluntariado nenhum, é um bocado inútil sonhar, porque eles não são parvos”, nota Isabel Stilwell. “Depois há a ilusão de que lhe vamos ensinar o caminho e proteger do Lobo Mau, mas entretanto o caminho mudou e os lobos também, e portanto o que eu acho é que os pais têm de ser acima de tudo uma bússola.”

Os Pais Influenciam, Sim

Achamos que os filhos são sempre do contra, mas curiosamente isso não se verifica: “Por trás, os miúdos são mais papagaios das nossas ideias do que nós próprios”, nota Isabel Stilwell.
“E no entanto os pais vivem convencidos de que nada do que lhes dizem os convence. Portanto, claro que têm de discutir connosco, faz parte, mas geralmente depois seguem as opiniões que lhes transmitimos. E os filhos geralmente admiram imenso os pais. Mas claro que nunca lho dirão...”

2. Ser honesto para com os próprios valores

Os pais é que têm de decidir o que é de facto importante para eles. “Por exemplo, quando eu tive filhos (e agora, presumo eu) dizia-se que as refeições deviam ser tomadas à mesa, com a família toda reunida”, lembra Isabel. “Ora eu detesto estar sentada à mesa, portanto em minha casa isso não é uma regra. Em minha casa a regra é: vemos todos a mesma série juntos uma vez por semana. Vamos ficar sentados à mesa porquê, se todos odiamos? Ou seja, não vale a pena pregar coisas que não praticamos.”

3. Não mentir

A mentira era outra coisa que tirava Isabel do sério. “Sempre dei aos meus filhos uma grande margem de liberdade, e portanto eu via como uma traição que me mentissem. Claro que hoje tenho outra noção das coisas: as minhas filhas dizem-me, ‘ó mãe, se lhe dizíamos que estávamos num ‘chat’ e tínhamos conhecido um rapaz e íamos ter com ele, a mãe passava-se’ (risos). E eu hoje percebo que isso talvez não ajudasse muito à sinceridade deles (risos) e tenho consciência de que crescer também significa mentir (às vezes) aos pais. Mas naquela altura era-me muito difícil lidar com isso. E acho que os meus filhos ficaram com o soro da verdade. Às vezes até acho que me contavam coisas demais (risos).”

4. Ser educado

Parece básico, não é? Mas se a educação faz parte, teoricamente, da lista de todos os pais, há famílias que não se esforçam muito para a desenvolver nas suas crianças. “A mim, o pior que me podiam fazer era ligarem-me do colégio a dizerem-me que os meus filhos tinham sido malcriados”, lembra Isabel Stilwell. “A minha prioridade era que fossem bem educados, que respeitassem o outro. Para mim, ser bem educado é ser agressivo com boas maneiras, como diz o Eduardo Sá. Ou seja, é defender o que pensamos sem humilhar o outro.”

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5. Não ser obrigado a guardar segredos

É uma alínea importante em relação ao bullying: eles têm de saber que se se sentirem ameaçados não têm de guardar segredo. “Muitas vezes, para eles uma ameaça é culpa deles, e não do agressor. Isso é um perigo enorme, e eles têm de saber que podem contar com a ajuda dos adultos.”

Cuidado com o Sermão

A melhor maneira de passar valores às crianças não é… doutriná-las sobre isso.“Eu tinha sempre a mania de aproveitar todos os bocadinhos para ser moralista. Uma vez, a minha neta Carminho queria que eu estacionasse num lugar para grávidas e eu disse: ‘Não pode ser’, e expliquei que, além de ser proibido, ninguém ia acreditar que uma senhora como eu estivesse grávida. E diz a Madalena: ‘Ó avó, páre no lugar da cadeira de rodas que assim já acreditam’ (risos). Portanto, cuidado com as ocasiões para sermos pedagógicos.”

6. Perceber que os atos têm consequências

Boas ou más, eles vão ter de viver com as suas escolhas. “Eu tinha imensa dificuldade em castigar os meus filhos por preguiça, por cobardia, por falta de paciência”, conta Isabel. “Portanto, o ideal era mesmo deixá-los aprender com
o ‘resultado’ das ações deles. E acho que funcionava.”

7. Ser boa pessoa

“Há muitos pais que estão a conseguir passar a generosidade e o altruísmo aos filhos”, comenta Isabel. “Há muitos adolescentes empenhados na política, na ajuda aos outros, ou que sabem que os pais estão em dificuldades e nunca pedem nada.” E ensina-se, a generosidade? “Ensina-se como tudo o resto. Se eles perguntam, ‘porque é que há pessoas que são pobres?’, e nós respondemos ‘porque não querem trabalhar’, não é muito normal que depois se criem pessoas generosas. Também acho que a escola conta muito, porque eles aprendem a generosidade uns com os outros. Por exemplo, um professor que incita os alunos à competição e se refere aos mais frágeis como lentos ou atrasados, não educa para a generosidade.”

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