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5 lições duras da infância: ajude-os a sobreviver

Crescer significa muitas vezes lidarmos com algumas ideias que não são agradáveis: não, eu não sou melhor que os outros, os meus pais não são super-heróis e a vida nem sempre é justa. O importante é estarmos lá para eles neste processo de aprendizagem.

Catarina Fonseca

*artigo publicado originalmente em dezembro de 2015

1. Nem sempre Podemos ganhar

Aprende-se em qualquer jogo de futebol, ou num concurso de desenhos que correu mal. Como é que podemos ajudá-los a resistir? “Antes de mais, acho que a infância é para ser vivida num mundo de fantasia e imaginário”, nota a psicoterapeuta Eunice Neta. “O que não significa protegê-los demasiado. Mas claro que eles começam a ser confrontados com as ‘lições da vida’ muito cedo. Eu vejo a frustração da minha filha bebé quando as pernas não a equilibram. Portanto, quando a vida os confronta com frustrações, o papel dos pais é, em primeiro lugar, ajudá-los a expressar o que sentem. E a primeira forma de expressão que uma criança tem é o choro e o grito.”
AHHHHHHHHH! Devo deixá-lo gritar? Pois parece que sim: “Ajudá-los a expressar o que sentem pode passar por deixá-los chorar, mesmo quando já têm palavras. É bom que eles possam chorar, e que também comecem a tentar verbalizar.”
Então: primeiro deixo-o chorar e expressar as emoções em estado líquido. Depois passamos ao gasoso: “Vamos tentar pôr em palavras o que o aflige e ajudá-lo a descobrir o que pode fazer para ultrapassar a dificuldade, em vez de nos focarmos demasiado no problema.” Atenção: murros e pontapés não fazem parte da ‘expressão’. “Isto não quer dizer que os meninos podem chegar a casa e partir tudo porque estão muito revoltados. Não se deve tolerar pontapés nem murros nem socos, e os pais têm que colocar estes limites de forma muito clara. Mas normalmente, quando os deixamos expressar-se, murros e pontapés não costumam acontecer.”

2. A vida nem sempre é justa

Uma das frases que eles mais dizem é ‘não é justo!’ quando as coisas não correm de feição para o lado deles. Por exemplo: ‘A minha amiga Laura pode deitar-se às 10 e eu não, porquê, não é justo!’ “Bem, e se calhar não é justo mesmo”, nota Eunice Neta. “Se aos 12 anos ele ainda vai para a cama às 9 da noite, se calhar podia ir para a cama por volta das 10. Enfim, pode sempre perguntar aos pais da Laura se querem adoptar a sua criança… (risos). Relaxe: nem tudo requer uma resposta. Há coisas que são só desabafos. De qualquer maneira, isto são fantásticas oportunidades de estabelecer diálogo com os filhos.”

3. Os pais não são perfeitos

“Há lições duras de digerir, e às vezes temos que lhes dar tempo”, explica Eunice Neta. “Então a mãe dá beijinhos e o dói-dói não cura? Isto é dramático! (risos) É um mundo inteiro que vai ruir à nossa volta. Quando acontece uma desilusão aos adultos, vão a correr tomar ansiolíticos. E portanto é preciso respeitar os tempos deles e deixar que integrem isso na sua vida.” Ou, se é um daqueles dias em que ficámos mesmo fora de nós, porque não pedir desculpa? Afinal, um mau passo acontece a todos. “Todos nós temos dificuldade em assumir que errámos e fizemos asneira. Odiamos pedir desculpa, porque nos parece uma desvalorização brutal.”
No entanto, eles respeitam-nos ainda mais por isso. “Totalmente verdade. E não nos podemos esquecer de que, se nos queremos enquanto modelo de comportamento para eles, temos de dar o exemplo. Não são só as palavras que contam. E também devemos estar preparados para que a criança não queira aceitar as nossas desculpas. Um pedido de desculpas não é só dizer ‘desculpa’ e acabou. É perguntar ‘Podes desculpar-me?’ e ficar à espera da resposta.”

4. Os professores nem sempre são modelos para a vida

Tal como os pais, também há professores que nos desiludem. “Os pais devem começar por desmontar a situação e perceber se o professor é assim tão mau ou se também cabe alguma responsabilidade à criança. Porque outra coisa que podemos ir trabalhando de pequeninos é este assumir de responsabilidades, sem serem demasiado punitivos com eles próprios.” Devemos chamar à atenção? “Não é bem isso, porque chamar à atenção parece que lhes vamos dar um sermão: é mais ajudá-los a pensar sobre as coisas e a fazer perguntas, mais do que dar as respostas. É ver as situações do lado de fora.”
Claro que também se deve ver se eles não estão a reproduzir um discurso ‘apanhado’ dos pais. E se for caso disso, aceitar que efetivamente há situações que não são justas. “Mas isso serve para lhe demonstrar qualquer coisa que hoje em dia está muito em falta, que é a capacidade de resistência à frustração e a resiliência. E é normal eles ficarem muito revoltados, mas faz parte. E os pais podem aproveitar para os confortar, e também para os ajudar a pensar sobre as coisas. Resolver a situação por eles não lhes ensina que têm a capacidade de lidar com a sua vida.”

5. Sou tão mau a jogar futebol!

“Às vezes, a melhor solução é mesmo não insistir”, explica Eunice. “Nós teimamos em focar-nos naquilo que fazemos mal e em superá-lo. Mas que interesse tem, se eu odeio desportos com bolas, obrigar-me a jogar desportos com bolas e roubar tempo ao piano, que é onde eu sou bom, só para ‘resolver’ a questão das bolas? Porque é que havemos de conseguir fazer tudo?” Todos nós somos mais talentosos numa área, é isso? “Claro que sim, e em termos da autoestima da criança também lhe passa uma mensagem negativa: ninguém é bom em tudo, mas eles têm de ser… Isto não faz sentido. Há miúdos que nem para andar têm jeito, são totalmente descoordenados, mas depois agarram num lápis e são artistas. Há coisas que no dia a dia são superadas.” Mas, acima de tudo, não forçar estas ‘lições’: “Deixemo-los acreditar em tudo o que não existe até o mais tarde possível: que as fadas existem, que o mundo é bonito, que as pessoas são boas. Eles vão ter tempo de descobrir a realidade, ao seu ritmo.”

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