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'Mãe, Tenho medo!': como lidar com os receios infantis, idade a idade

Do escuro, dos monstros debaixo da cama, de ficar sozinho... Todos nós já passámos por isso – podemos é não nos lembrar. Sabe que medos são mais comuns na infância? Nós dizemos-lhe quais e como ajudá-los a ultrapassar.

Gisela Henriques

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*artigo publicado na revista ACTIVA de maio de 2017

Leonardo é uma criança risonha e sociável de ano e meio e nada faria pensar que, quando os pais pararam o carro para dar boleia a um amigo, o nível de decibéis se tornaria quase insuportável. Problema: o amigo – barbudo para ‘ajudar’ à festa – entrou no carro e sentou-se ao lado da sua cadeirinha. Foi o suficiente para provocar uma tal crise de choro e berros ensurdecedores que fez com que houvesse uma rápida troca de lugares 50 metros mais à frente. Estranho? Nada, a reação do pequeno Leonardo foi absolutamente normal, afinal aquele barbudo não lhe era nada familiar e o medo de estranhos é típico desta idade.

Medo de quê

Esta emoção faz parte da nossa natureza, é ela que ativa os sinais de alerta do nosso corpo quando nos deparamos com algum perigo – fugimos ou enfrentamos a ameaça? – e o curioso é que os ditos medos ‘normais’ da infância são universais e ocorrem, quase sem exceção, na mesma faixa etária, independentemente da nacionalidade, religião, estatuto social ou sexo, fazendo parte do desenvolvimento psicológico de todas as crianças. Falámos com Maria João Silva, psicóloga do PIN - Progresso Infantil, para nos explicar os medos mais comuns das crianças.

Até aos 2 anos: de barulhos e luzes intensas, estranhos, perda de amparo.

“Nesta fase, a via preferencial para a aprendizagem da criança é a sensorial e a capacidade para reconhecer rostos familiares e não familiares é crescente. Esta conjugação de traços faz com que o conteúdo dos medos se relacione com estímulos intensos (p. ex. ruídos fortes) e pessoas estranhas”, diz Maria João Silva. É um medo até bastante saudável e protetor, as crianças não devem confiar em pessoas que não conhecem, embora possa ser um pouco constrangedor para os pais quando o bebé chora desalmadamente ao colo de algum familiar ou de um amigo que não é uma visita frequente lá de casa.

Aos 3-5 anos: do escuro, pequenos animais, máscaras, separação dos pais.

“A expansão do conhecimento sobre o que a rodeia e o constante crescimento da capacidade para imaginar refletem-se no medo de pequenos animais, monstros, do escuro, embora nesta fase o medo do escuro é sobretudo devido à ausência de luz, com aquilo que a criança não consegue ver”, revela a psicóloga. “Começa também a haver o medo de separação das pessoas de referência, por isso é normal haver algumas crises de choro à porta dos infantários quando as crianças são deixadas na ‘escolinha’ pela primeira vez.”

Aos 6-8 anos: de ser raptado, ficar sozinho, catástrofes naturais, guerras, morte, danos corporais, médicos.
Como estão numa fase de desenvolvimento diferente, já começam a ler sozinhos, são mais autónomos, aprendem de uma forma mais concreta (já tomam mais atenção às notícias, cuidado com o que eles veem) e as capacidades vão ficando cada vez mais abstratas.

Dos 9 aos 12 anos: sucesso escolar, aparência física, aceitação pelos seus pares.
Nesta fase de desenvolvimento são típicas as preocupações sociais (como os outros os veem) e o sucesso académico, sendo que este vem muito associado à aceitação do grupo. São preocupações que começam já no final do primeiro ciclo mas é mais visível nesta idade, “há vários medos que passam de umas faixas etárias para outras, não são estanques, e vão-se tornando mais complexos, porque a criança tem uma capacidade mais complexa, mais informação, mais imaginação, mais experiências. Continua o medo da morte, mas agora é por perceberem a sua irreversibilidade. Têm já uma perceção muito real sobre doenças, guerras…”, assegura a psicóloga Maria João Silva.

Ansiedade e medo: Descubra as diferenças

São muitas vezes usados como sinónimos, mas não devem ser confundidas, porque uma criança com medo não tem necessariamente de ser uma criança ansiosa. “Medo é o que nós sentimos no momento. Imaginemos que aparecia agora aqui um leão, medo seria a nossa reação visceral, a emoção que prepara o nosso corpo para a luta ou para a fuga. É uma componente muito fisiológica, que tem a ver com o nosso corpo a reagir perante um perigo ou uma ameaça. Toda a gente sente isto, é universal”, chama a atenção a psicóloga do PIN. Já a ansiedade é mais que medo, e ao contrário deste não é passageira, influencia as nossas emoções, comportamentos e pensamentos e pode manifestar-se sob a forma de sintomas físicos (tremores, tonturas, respiração ofegante, palpitações) assim como dores de estômago e de cabeça e tiques (estalar os dedos, roer as unhas, mexer no cabelo).
“Os meninos ansiosos pensariam ‘se um leão entrasse aqui, onde é que poderia esconder-me? Será que conseguiria fugir?’ E todo o seu pensamento andaria à volta daquela possibilidade. Eu costumo chamar os meus meninos ‘e ses…’, é ‘e se’ para tudo: ‘e se eu tiver uma má nota, e se eu vomitar na escola, e se não gostarem de mim...’”, revela.
Não confundir também com fobia, esta é uma perturbação da ansiedade mas em que o foco do medo é algo muito específico (cães, gatos, elevadores, escadas) e tem uma abordagem mais comportamental.

Pais, não compliquem!
O que os pais não devem fazer quando veem que os filhos têm medo de algo.
• Castigar. Por exemplo, se tiver medo do escuro, castigar pondo-o num quarto escuro.
• Desvalorizar, dizer ‘ai que mariquinhas, eu não tive nada disso’, o que é mentira, nós todos sentimos medo, se não aquele medo, outro qualquer.
• Evitar aquilo que provoca o medo. “Imaginemos que a criança tem uma ansiedade social, não gosta de ir para sítios com muita gente e de repente alguém convida-a para uma festa de anos, mas ela, apesar de ter vontade de ir, pede aos pais para não a levarem porque vão lá estar muitas pessoas. Não devem forçar também, mas os pais podem levá-la mesmo que não fique até ao fim. Outro exemplo, se a criança começa a chorar com a aproximação da escola, não a leve de volta para casa, a mensagem que os pais passam é: ‘sim, isto é perigoso nós vamos proteger-te’.”
• Evitar comparações com outras crianças, empurrar ou forçar a enfrentar o medo.

Como podemos ajudar
Para a psicóloga, a maior ajuda que os pais podem dar é não evitar aquilo de que a criança tem medo porque ao evitar está a reforçar o medo. E tal como a alegria, a tristeza, a zanga, o medo é uma emoção. Por muito tentador que seja evitar que a criança sofra, ao fazer isso os pais estão a evitar que os filhos treinem competências como a regulação emocional ou resolução de problemas. Ajudá-los a enfrentar os medos é também uma forma de reforçar a autoestima, porque se uma criança ultrapassar uma situação de medo vai sentir-se melhor e mais competente.
• Se os pais sentem que os filhos estão assustados, não ignorem, deem espaço para que eles digam o que os preocupa.
• Se tem medo de cães ou outro animal: em vez de deixar que a criança corra para o colo da mãe ou do pai, ou agarrá-la ao colo assim que vê um animal ao longe, deve dizer-lhe que em vez disso vai agarrar-lhe a mão com muita força até o cão passar. O ideal é que se enfrente o medo de forma gradual e não abrupta, “não é para ir para um canil”.
• Elogie, como estas crianças são muito autocríticas, “se a elogiar por ter vencido o medo, nem que seja um bocadinho, vai-lhe dar a noção de sucesso”.
• Se não quer ir à escola: “Os pais devem estar o mais neutros possível, porque se ficarem angustiados a criança vai achar que está numa situação perigosa. Se for buscá-la mais cedo à escola porque chora muito, a mensagem que passa é que aquele sítio não é seguro.”
• Se tem medo de ir ao médico, tirar sangue ou de levar vacinas, “é melhor não prometer que não vai doer, podem perguntar se acha que vai doer para sempre, se ele se lembra, quando caiu e magoou o joelho, se doeu para sempre. Assim lembram-se de uma situação que foi ultrapassada”.
• Se os pais tiveram o mesmo medo, contem como o ultrapassaram.
• Use os seus bonecos preferidos – do Homem Aranha à Lady Bug ou outro – e pergunte o que eles fariam se tivessem medo de... (escuro, monstros, vacina, cães...).

Falar sobre a morte
“É dos temas mais difíceis para os pais. Muitas vezes a primeira experiência está relacionada com um animal de estimação, é importante não substituir logo, dê espaço para chorar, para a criança fazer perguntas, não dê mais informação do que ela processa. Lembro-me de um menino de 8 anos cuja mãe tinha morrido e ele estava muito zangado porque lhe tinham dito que a mãe estava no céu e ele não percebia como é que ela se segurava lá. Outra coisa que não se deve fazer é esconder da criança que há um familiar doente. Se nós queremos estar preparados para o desfecho, a criança também, para não pensar que a morte acontece de repente. Tem é de se dar informação adequada à idade. Uma criança de 3 anos, quando sabe que um avô morreu, pergunta ‘então quem vai levar-me à escola?’. Pode parecer insensível, mas está adequada à sua idade”, diz a psicóloga.

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