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Quem (des)inspira os nossos adolescentes?

Minuto a minuto são invadidos por uma multidão à distância de um telemóvel: os sites, os YouTubers, os bloggers, tornaram-se os novos ídolos dos nossos filhos. Mas os pais têm mais influência do que pensam.

Catarina Fonseca

ViewApart

*artigo pubicado na revista ACTIVA de novembro de 2017

A crónica varreu as redes sociais com a força de um pai desesperado: Nuno Markl dirigiu-se aos ‘caros YouTubers de que o meu filho é fã’ para lhes pedir, que, em resumo, fossem melhores modelos para os seus seguidores. O que lhes pedia? Que gritassem menos, que dissessem menos asneiras e que usassem melhor o poder. “Grandes empresas contam convosco para publicidade, milhões de pessoas acompanham todos os dias a toda a hora aquilo que vocês têm para oferecer (…). E não é surpresa nenhuma para vocês: grande parte do vosso enorme público são crianças.”
A conclusão é simples: “Adorava que fossem mais longe que os gritos, os gadgets e a publicidade, e pensassem no filhodamãe de poder que têm nas mãos para contribuir para um futuro francamente menos merdoso que o presente que temos no mundo.”
A pergunta implícita de Markl é a que muitos pais fazem: afinal, que modelos estamos a apresentar aos mais novos? Vivemos numa época de ‘heróis’ digitais com milhares de seguidores. Os telemóveis e tablets vieram pôr todo o mundo à disposição dos adolescentes, que os pais não conseguem controlar.
As raparigas são atraídas por blogs de imagem e de moda, os rapazes são fãs de YouTubers famosos. Isto se quisermos generalizar, obviamente. Afinal, de onde é que isto vem e que tipo de geração estamos a criar? “De facto perdemos valores”, nota Vítor Rodrigues, psicólogo e autor de livros como ‘Constrói a tua felicidade’ (Esfera dos Livros). “E o valor que tomou a supremacia é o dinheiro. Muito do que é propagado nos media serve apenas para incentivar as pessoas a comprarem.”

A classe com mais poder de compra

Estamos mesmo numa ‘teoria da conspiração’ mundial? Sem dúvida, explica Vítor Rodrigues, mas o seu funcionamento é simples. “Toda a sociedade de consumo necessita de uma mentalidade superficial para funcionar, e a adolescência é a melhor altura para a programar, através de meios digitais e tecnológicos que permitem lavar o cérebro às pessoas o dia todo. Todos esses bloggers com milhares de seguidores já têm as marcas com eles, já conseguem ganhar dinheiro com isso, sem terem noção da real dimensão do que tudo isso implica. E aquilo dá um trabalho imenso!” Onde é que entram os adolescentes? “São o elo mais fraco e mais poderoso. Há adolescentes com muito poder de compra, ou porque têm pais ricos ou porque todo o poder económico que os pais têm é canalizado para as necessidades dos meninos. Além disso, ao contrário dos adultos, o dinheiro que os adolescentes têm está livre, podem gastá-lo no que lhes apetecer. São a ‘classe’ com mais poder de compra.”
A mesma opinião tem a psicóloga Cristina Valente, autora do livro ‘O que se passa na cabeça do meu adolescente?’ (Manuscrito). “Os jovens têm um poder brutal em todas as áreas, porque mesmo quando ainda não compram têm uma enorme capacidade de influência, e os marketeers usam isso de forma inteligente e perversa. E hoje existe cada vez mais a troca de tempo por coisas: eu não tenho tempo para estar contigo, mas toma lá esta carteira. O conceito de felicidade não é ter tempo para a relação com o filho, é ter capacidade financeira para lhe dar o que ele quer, e vou passar essa prioridade aos meus filhos. Então as raparigas compram beleza, e os rapazes compram status, como gadgets.”
Aquilo que é passado aos adolescentes através dos sites não é apenas um mundo fútil e inócuo: é uma forma de os levar a consumir. “A futilidade pode ser agradável e faz parte da vida, mas temos de saber como usá-la”, nota Cristina Valente. “E hoje em dia existe uma indústria pesadíssima direcionada às miúdas desde muito cedo, que as prepara para a futilidade. São fenómenos que parecem inocentes mas que estão longe de o ser.”

Os pais têm mais força do que pensam

A questão é, estaremos a ser demasiado apocalípticos nisto tudo? A resposta é que, como habitualmente, tudo isto são generalizações. Outra resposta é que os pais têm mais força do que pensam. “São a principal fonte de inspiração, sempre”, explica Cristina Valente. “Os adolescentes podem ter como modelos os YouTubers e bloggers que quiserem, mas a maior força continua a ser os pais. A personalidade começa aí: não começa nos amigos, nem nos YouTubers, nem na indústria, começa sempre na família.”
Vítor reforça que os pais podem ser uma ‘contracorrente’ à tendência para a ‘estupidificação geral’. “Estando próximos dos filhos, conhecendo-os bem em vez de moralizar, estão a transmitir-lhes a cultura do amor, que é diametralmente oposta à cultura consumista e acéfala. Podemos ensiná-los a estar em sintonia com eles próprias, a ser feliz com muito pouco.”
O próprio Vítor é pai de uma adolescente. Como é que ele vê todo o ‘bombardeamento’ dirigido aos mais novos? “Com preocupação, evidentemente. Enfim, no meu caso é menos grave porque vivemos numa quinta (risos). Claro que nem toda a gente pode viver numa quinta, mas vão ao parque, a um pinhal, ver animais, fazer piqueniques, fazer passeios, excursões fotográficas, observação de plantas, há tanta coisa para fazer! Dá trabalho? Dá muito menos do que andar a família stressada em jogos de futebol ou festas todos os fins de semana. Tudo isso também está a ser-nos vendido, faz parte desta sociedade do ‘és o que mostras, o que tens, onde vais’.”
Pormenor ou acrescento: esteja próximo dos adolescentes mesmo quando… eles lhe dão com os pés. “A adolescência é o período em que eles mais precisam dos pais, só que o comportamento deles diz o oposto, e muitas vezes os pais afastam-se”, explica Cristina Valente. Devemos ser pais presentes mesmo quando eles nos enxotam? “Exatamente. Porque esse é que é o amor incondicional: o que está presente mesmo quando o meu ego de mãe não está a ser satisfeito.”

AntonioGuillem

As ‘guerras’ que valem a pena


Claro que não é fácil exercer esta influência, principalmente quando toda a sociedade lhes passa valores tão diferentes. “Por exemplo, a sensualidade começa agora muito cedo, elas com 8 anos já veem séries para adolescentes”, nota Cristina Valente. “A questão das roupas é mesmo o principal conflito nas famílias.”
E então, proibimos? “Isso não funciona com um adolescente. Hoje utilizamos a proibição como uma ferramenta educativa diária, e ela perde a força. A solução é eu ter com o meu filho uma relação forte desde a infância para que, quando chegarmos à adolescência, eu poder dizer: ‘Eu respeito-te, respeito as tuas escolhas, mas há duas ou três coisas que eu não vou admitir’. Se eu só tiver duas ou três proibições, será muito mais fácil. Porque os adolescentes procuram uma energia tão intensa que fracture pais e filhos: assim é mais fácil eles virarem costas. E quando eu me coloco numa postura autoritária, estou a fazer o jogo deles.” O que acontece, explica, é que os pais escolhem as batalhas erradas: “Ofendem-se muito com as roupas, que é uma guerra pouco produtiva, porque é um movimento de rebeldia que vai passar (basta pensar na nossa adolescência). Uma luta que valha a pena: saídas à noite e drogas.

Fale sobre o que veem

E o que veem na internet, pode ser controlado? “Tenho de ajustar o controlo à idade”, nota Cristina Valente. “Com um miúdo de 6 anos, ainda posso fazer algum controle: o computador está sempre na sala. Com um adolescente, só posso controlar o tempo dele. Um adolescente fica em média 3 horas no telemóvel depois de se deitar! Mas claro que esse controlo é ilusório. Eu levo os miúdos à escola para os proteger, mas dou-lhes um telemóvel onde estão em contacto com o mundo todo...”
“Eu sou um fraco exemplo”, ri-se Vítor. “Não controlo os sites onde a minha filha anda dado que ela sabe infinitamente mais informática do que eu. Se eu tentasse controlá-la, só conseguiria dela um ataque de riso…” Então qual é a sua técnica? “A melhor técnica é educarmos as crianças em vez de as controlarmos, porque senão abrimos cada vez mais fendas no sistema. Quanto mais se tenta controlar, mais eles tentam escapar. Temos é de ajudá-los a desenvolver uma mentalidade esclarecida e um equilíbrio emocional.” Ou seja: em vez de proibir, tente saber o que veem, converse, desmonte. E como disse Nuno Markl, “não vem nenhum mal ao mundo se miúdos de 8 anos puderem ser miúdos mais um bocadinho e tentar atrasar o gandulo que há neles”.

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