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Saúde e Beleza

Guia para a mente de um passivo-agressivo

Dizem que ‘está tudo bem’ e que ‘tanto faz’, quando se sentem frustrados e furiosos. Amuam quando as coisas não correm como querem e os mais tóxicos gostam de manipular, usando o sentimento de culpa dos outros. Tem uma pessoa assim na sua vida?...

Cristina Tavares Correia

Gary Martin 83 - SA14 8SR

Todos nós já tivemos uma reação idêntica, pelo menos uma vez na vida, quando a colega de trabalho fez um comentário inofensivo ao qual não achámos muita piada, quando o namorado nos gorou os planos de um fim de semana romântico porque alguma coisa mais urgente apareceu, quando nos fizeram uma crítica que achámos injusta... “Concordas?” – “Tu é que sabes, faz como quiseres...”. “Não ficaste chateada, pois não?” – “Não, está tudo bem. A sério...” Não está – e quem a conhecer bem vai sabê-lo quando olhar para a sua cara de poucos amigos – mas escolhe não expressar exatamente a raiva ou desapontamento que lhe vai na cabeça porque: a) não adianta nada e só iria agravar a situação, b) sabe que pode nem ter razão para se sentir zangada, apesar de não conseguir evitar sentir-se mal, c) é a pessoa com menos poder nessa relação, sobretudo se ela acontecer no trabalho e com o seu chefe. 
Mas o que é isto de ser passivo-agressivo? É expressar hostilidade mas não de forma direta. Em vez disso, evita o confronto mas dá-o a entender de forma subtil – falar por meias palavras, ser irónica ou amuar. Quase todos nós temos alguém assim nas nossas vidas: pode ser o colega de trabalho, aquela ‘amiga’ que intoxica mais do que apoia, o marido ou namorado. 

Retrato-Robô de um manipulador:
Há um pouco disto em todos nós, sim. O problema é que há pessoas que usam estas estratégias passivas-agressivas deliberada e constantemente para manipular alguém na sua vida, como explica Margarida Vieitez, mediadora familiar e autora do recentemente publicado ‘S.O.S. Manipuladores’ (Esfera dos Livros). “Estas pessoas são manipuladoras e tóxicas. Por vezes, é difícil percebermos que se trata de um passivo-agressivo, porque usam táticas muito subreptícias, como a culpabilização e a vitimização. A agressão psicológica é muito subtil. De tão centrados que estão em si próprios, grande parte destes manipuladores não tem a mínima consciência do mal que causam aos outros. A maioria é muito egocêntrica, narcisista e muitos têm alguns transtornos de personalidade – são obsessivos, bipolares, têm ciúmes delirantes ou transtorno de personalidade limite (borderline), histriónicos (necessidade de atenção constante). Acham-se sempre donos da verdade. Fazem birras desgraçadas quando não lhes fazem a vontade. Punem com silêncios, desprezo e indiferença.”
Mas, afinal, o que está na base do comportamento deste tipo de manipuladores é uma grande insegurança. “Se sentem que perdem o controlo, sentem uma privação imensa. São normalmente pessoas inseguras e com baixa autoestima, marcadas por falta de afeto e elogios na infância e adolescência, por experiências muito marcantes de rejeição. Fazem tudo e mais alguma coisa para causar dependência nas pessoas. Começam por um processo de conquista e sedução, mesmo nas relações de amizade e de trabalho. Vão tentar saber toda a história da pessoa para a controlar.” 
As mulheres mostram mais inclinação para a agressão indireta (passiva-agressiva) do que os homens, como mostram vários estudos na área da psicologia. Por fatores sociais e até biológicos, eles são mais dados a exteriorizar diretamente as agressões, físicas ou verbalmente. Mas a verdade é que muitas mulheres sofrem nas mãos deste tipo de manipuladores, como Margarida Vieitez sabe. “Vejo mulheres extraordinárias, independentes, cheias de força, perderem todo o brilho e energia quando caem nas mãos destas pessoas. Mas também há muitos homens vítimas de relações amorosas passivas-agressivas. Ainda hoje estive em consulta com um homem vítima de uma manipuladora...”

O modus operandi. As melhores armas de um manipulador passivo-agressivo são o sarcasmo, amuar ao ponto de não responder ou de o fazer por monossílabos, ser excessivamente crítico, nunca elogiar ou agradecer ao outro, fazer ‘greve’ de sexo ou evitar contactos de afeto, fazer-se permanentemente de vítima e culpabilizá-lo por isso (apesar de o fazer de forma subtil), atrasar permanentemente uma decisão ou a conclusão de uma tarefa. 

O alvo. Tal como a maioria dos passivos-agressivos, também as vítimas têm traços específicos que eles procuram, por lhes servir como uma luva. “Este tipo de manipuladores usa a necessidade de as pessoas agradarem aos outros, o facto de não conseguirem dizer ‘não’, agirem sempre consoante o dever e serem bonzinhos. Todos parecemos carregar uma grande mochila de culpa– é-nos transmitida pela cultura, pela educação.” Pessoas com baixa autoestima, ou cuja autoestima eles sentem que podem atingir mais facilmente, são alvos preferenciais, observa a mediadora.
Se tem “espírito de Madre Teresa”, como lhe chama Margarida Vieitez, está em maior risco de ser manipulada por um passivo-agressivo, sobretudo numa relação amorosa. “Muitas mulheres vêm com este ‘chip’ instalado e fazem tudo para satisfazer estas pessoas, para as fazerem felizes e ajudar. Nada resulta porque, na verdade, aquela pessoa não quer ser ajudada; está permanentemente insatisfeita. Muitas vezes entramos nessas relações e cedemos por medo, por culpa e dever, pelo receio de ficarmos sozinhos (no caso das relações amorosas). Se temos uma pessoa ao nosso lado que nos diz constantemente ‘Será que conseguias fazer alguma coisa sem mim? Alguém te ama mais do que eu?’, que é impossível existirmos sem ele, depressa a nossa autoestima fica de rastos. Esta chantagem emocional fragiliza tanto que é muito difícil sair dessas situações; a maioria tem que pedir ajuda.”

Como lidar com eles

Convença-se de que aquilo é hostilidade subtil e perceba porque reage como reage. “No livro, aconselhamos a pessoa a conhecer-se a si própria primeiro e a perceber porque tem todas estas atitudes e reações quando é manipulada desta forma”, diz Margarida Vieitez. “Temos um exercício no livro em que aconselhamos a pessoa a descrever as emoções que sente e as reações que tem face a estas pessoas – fecham os olhos, fazem de conta que não aconteceu nada, fazem tudo para satisfazer?” 

–  Confronte-os, direta mas assertivamente. O problema dos passivos-agressivos é que a sua comunicação vive de indiretas. “Eles são muito subtis e dão sempre o dito por não dito. Insinuam constantemente sobre as mais variadas realidades”, observa a mediadora. Depois, quando confrontados, negam sempre a verdadeira intenção. A expressão a usar é ‘o que é que queres dizer com isto, concretamente?’, ser o mais assertivo possível por contraste à comunicação deles – ou seja, sendo direta mas sem um registo de culpa ou agressão. E confrontá--lo, dizendo que sabe exatamente o que ele quis dizer.”

–  Imponha limites. Corte as pernas às tentativas de manipulação. Diga que não vai permitir que o comportamento continue e, se isso acontecer, que a relação entre vocês vai terminar ali ou mudar radicalmente. “O mais difícil é aprender a dizer não. Ele só faz aquilo que nós deixamos fazer. E a verdade é que, quando são confrontados com confiança e assertividade, normalmente recuam.”

–  Não se sinta culpada. Ninguém é responsável pelo outro ser infeliz. Por isso, aprender a identificar chantagens emocionais, por mais duro e difícil que seja, é essencial. “A partir do momento em que a pessoa se apercebe que não tem que se sentir culpada pela infelicidade do outro, que não tem de fazer algo que vai contra os seus princípios para lhe agradar, quando se apercebe que não existe essa coisa da culpa, apenas responsabilidade, consegue começar a quebrar o padrão de manipulação.” 



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