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A enxaqueca não mata, mas mói (muito)

Todos nós já tivemos pelo menos uma dor de cabeça na vida, certo? A maioria toma um comprimido e segue a sua vida. Mas então o que faz com que algumas pessoas fiquem sem capacidade para estudar ou trabalhar?

Gisela Henriques

Yuri Arcurs peopleimages.com

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de abril de 2018

Para si, dor de cabeça e enxaqueca é a mesma coisa? Se respondeu não, acertou, talvez porque já sofreu das duas e percebeu as diferenças. Para simplificar, podemos dizer que pertencem à mesma família, mas não são exatamente a mesma coisa. Isto é, uma enxaqueca é uma dor de cabeça, mas uma dor de cabeça nem sempre é uma enxaqueca, porque esta tem outros sintomas associados.

Descubra as diferenças


Uma dor de cabeça dita normal é, geralmente, sentida na cabeça toda, ou então só na zona frontal, sobre os olhos, ou na nuca, podendo haver, por vezes, alguma intolerância ao ruído. “Já na enxaqueca, a dor, muito intensa e incomodativa, é sentida só em metade da cabeça, só do lado esquerdo ou só do direito. As pessoas ficam nauseadas e podem mesmo chegar a vomitar. Ficam também intolerantes aos estímulos sensoriais: à luz, aos cheiros, aos barulhos e até mesmo aos movimentos da própria cabeça. É uma dor que se agrava quando se faz qualquer esforço, desde subir umas escadas a passar a estrada a correr. Sente-se uma dor como um pulsar, um latejar. A este conjunto de sintomas é que se dá o nome de crise de enxaqueca. Outro factor importante é que a dor, apesar de poder durar de 4h a 72h, é autolimitada, o que quer dizer que mesmo que não haja tratamento ela desaparece ao fim desse tempo. No entanto, até ao fim desses 3 dias há um grande sofrimento, que pode levar a que as pessoas não consigam fazer a sua vida normal, seja trabalhar ou estudar”, esclarece a neurologista Isabel Pavão Martins.


As variantes


Nem todas as enxaquecas são iguais. As mais comuns são as enxaquecas sem aura, que se caracterizam por dores de cabeça acompanhadas por náuseas, sensibilidade à luz, aos cheiros e ruídos. “Já 20% das pessoas com enxaqueca tem aquilo que se designa por enxaqueca com aura, que é uma crise mais complexa, em que a pessoa tem sintomas neurológicos visuais – vê brilhos, tem uma sensação de encadeamento, dificuldade em focar – e sente uma dormência na mão ou à volta da boca. Estes sintomas desaparecem ao fim de meia hora e dão lugar a uma dor de cabeça fortíssima. Por fim, há ainda quem tenha a chamada enxaqueca crónica, em que há dor mais de 15 dias por mês e por vezes com o quadro completo da enxaqueca (náuseas, sensibilidade ao som e luz), outras vezes não, mas que são sempre muito incomodativas e incapacitantes”, explica-nos a neurologista.

Primárias e secundárias


Assim se podem dividir as dores de cabeça, sendo que as primeiras são uma doença em si mesma e não um sintoma de outra doença. As enxaquecas, na sua maioria, pertencem geralmente a esta categoria, assim como as cefaleias de tensão, as dores de cabeça mais comuns.
Quanto às dores de cabeça ou enxaquecas secundárias, estas são uma manifestação, um sintoma, de outro problema de saúde. Pode ter como origem patologias mais comuns – como gripe, hipoglicemia, hipertensão, abstinência alcoólica, traumatismo craniano – ou mais graves, do sistema nervoso central, como tumores, trombose venosa e ruptura de aneurismas.

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Uma questão familiar


Porque tenho enxaquecas e a minha vizinha do lado não? Porque comigo surgiram aos 15 e a outra pessoa aos 30? São questões pertinentes para as quais a ciência ainda não tem uma resposta com 100% de certeza. Sabe-se que está relacionada com vários processos cerebrais, e que “é multifatorial, sendo que um componente muito importante é o factor genético”, afirma Isabel Pavão Martins. Que o digam Ana Leite e Célia Marques, ambas com 43 anos e que sofrem há anos deste problema. “Tanto do lado do meu pai como da minha mãe há familiares que têm crises de enxaqueca”, conta-nos Ana. “Lá em casa éramos 6, só dois dos meus irmãos é que não tinham. Tenho ideia de que a primeira vez que tive uma enxaqueca foi na altura em que me apareceu o período menstrual. Cheguei a fazer uma ‘cura’ de 3 meses à base de comprimidos quando tinha 20 anos, mas não resultou, as crises só melhoraram quando tive os meus filhos. Com o tempo fui percebendo como é que elas surgem: começo a sentir os olhos muito psicadélicos, a ver estrelas e sei que uma hora depois vou ter dores de caixão à cova. Fechar-me no quarto às escuras e tomar um comprimido forte para as dores costuma resultar, se isso não acontecer já sei que só vomitando é que atenua. Geralmente acontecem por volta do meu período e abstenho-me de comer chocolate, nem sequer cheirá-lo, eu que adoro chocolate.”
Apesar da irmã mais velha ter um historial de fortes crises de enxaquecas desde pequena, com Célia elas só surgiram aos 30 anos, depois de ter o primeiro filho. Antes disso lembra-se de ter muitas dores de cabeça – como a mãe – mas não com a intensidade de agora. “As minhas crises costumam surgir ao domingo. Acordo com dores horríveis e por vezes só passam três dias depois. Na quarta, acordo e já não tenho nada, é uma leveza! Comecei por tomar os analgésicos e anti-inflamatórios mais comuns mas deixaram de fazer efeito há anos, e desde há uns meses tomo uns comprimidos mais fortes receitados pela médica do trabalho. Sei que devia ir a um especialista, mas como vejo que a minha irmã já consultou tantos e não tem a situação controlada, eu escuso de gastar dinheiro. Antes destes comprimidos milagrosos arrastava-me até ao trabalho, porque a segunda-feira é o dia mais importante da semana, e muitas vezes trabalhava quase com um olho aberto e outro fechado, sim, porque ainda por cima trabalho com computadores e é penoso estar 10h a olhar para um ecrã. Mas há um mês que não tenho nada... vou bater na madeira três vezes” (risos).

Outras causas


As flutuações hormonais – sobretudo de estrogénio – também estão na origem de muitas crises e talvez isso explique o facto de haver mais tendência das mulheres sofrerem de enxaquecas que os homens e serem mais habituais durante o ciclo menstrual, quando desce os níveis daquela hormona. “O stresse, o facto de ter filhos pequenos, o estilo de vida, dormir poucas horas, compensar e dormir mais ao fim de semana também podem desencadear uma crise. O facto de passar muitas horas sem comer, não beber água suficiente, fumar ou mesmo o fumo passivo, são outros fatores que podem causar enxaquecas”, clarifica a neurologista.

A importância do que se come


Além do jejum prolongado e da falta de hidratação poderem estar na origem de uma crise, há muitas pessoas que relacionam alimentos e bebidas com o desencadear de uma enxaqueca. O inimigo número um será o álcool; o café também é apontado por algumas pessoas, mas a neurologista argumenta que “este, pelo contrário, ajuda a tratar uma crise, até porque há fármacos que misturam um pouco de cafeína com analgésico. Mas o caso muda de figura se as pessoas bebem café em excesso, mais de 5 por dia”, aí os sintomas de abstinência podem conduzir a uma enxaqueca. Quanto aos alimentos, apesar de não haver estudos abrangentes que comprovem que sejam desencadeantes de uma crise, há pessoas que mencionam o chocolate, os queijos, as natas, citrinos, marisco, mas “isso já depende de pessoa para pessoa”, afirma a neurologista.

D.R.

Como se diagnostica


A consulta com um neurologista é fundamental porque conhecer o historial do doente é meio caminho andado para perceber o que se tem. A outra metade do caminho até ao diagnóstico são os exames neurológicos, que consistem num conjunto de testes feitos no consultório (oftalmológicos, martelo de reflexos, diapasão, fontes de frio e calor) e só em casos suspeitos é que se parte para exames com recurso à tecnologia como TAC ou ressonância magnética, para excluir a hipótese da enxaqueca ser um sintoma de outra doença. Por exemplo, quando surge uma primeira crise aos 45 anos, ou aos 5, sem haver um historial de fatores genéticos.

Criança (também) sofre!


“Nos dois extremos da vida, na infância e a partir dos 60 anos, a incidência é muito mais baixa”, confirma Isabel Pavão Martins. A faixa etária mais afetada é dos 15 aos 40 anos (o pico é aos 30), e mais mulheres que homens. Mas há crianças com 4-5 anos que sofrem deste problema. “Cerca de 8-9% da população infantil até à adolescência tem enxaquecas e costumam ser aparatosas, as crianças geralmente agarram-se à cabeça, ficam muito brancas, vomitam, choram, ficam muito assustadas, não conseguem abrir bem os olhos, nem ouvir barulho. Muitas vezes dormem um bocadinho e quando acordam já estão boas”, revela a neurologista.
Quando a sua filha Matilde, com 12 anos, começou a queixar-se de dores de cabeça, de barriga, a ter vómitos e a desmaiar, Catarina Almeida ficou muito apreensiva. “Fomos a um neurologista pediátrico que lhe fez uma série de exames e mil e uma perguntas sobre os sintomas, hábitos de sono e historial familiar, e parece que o facto do pai e da avó terem tido enxaquecas o deixou mais tranquilo. Aconselhou ben-u-ron e com o passar do tempo ela já consegue identificar os sinais de alerta e há 4 meses que não tem nada. Eu é que fiquei um pouco ansiosa com as viagens de estudo e asseguro-me sempre que ela leva os comprimidos. Os telefonemas da escola são sempre um sobressalto porque já sei que a partir do momento em que começa a dor de cabeça, vão aparecer os vómitos e a prostração total e até pode desmaiar, o que é chato nesta fase da adolescência em que começa a sair mais sozinha.”
No caso das crianças pequenas, pode ser um sinal de doença mais grave, e é sempre mais preocupante que num adulto, por isso tem de ser fazer o despiste, mas “costumam ser tão benignas como num adulto. Aliás, muitos adultos começaram por ter enxaquecas na infância ou adolescência”, explica a neurologista, “e os tratamentos são os mesmos que para os adultos”.

Como se trata


Infelizmente as enxaquecas não têm cura mas têm tratamento, e há vários: “Os farmacológicos, em que a pessoa toma só quando está com dor. Podem ser anti-inflamatórios ou analgésicos mais comuns ou mais específicos, como os triptanos, que são muito eficazes no tratamento da crise. Depois há os tratamentos preventivos diários e servem para evitar que as pessoas tenham tantas crises. Existem muitos fármacos de diferentes categorias. Hoje em dia também se faz toxina botulínica, o chamado botox, substância que se injeta para paralisar os músculos e tirar rugas, que injetada em diversos pontos no couro cabeludo, na cabeça e no pescoço, evita crises em pessoas que têm enxaquecas crónicas. No final deste ano vão aparecer uns fármacos novos, muito específicos, que são uns anticorpos contra uma substância que as células do sistema nervoso libertam na circulação durante uma crise e que se pensa estar relacionada com a dor. Agora conseguiu-se sintetizar um anticorpo dirigido contra os recetores dessa substância. É injetada uma vez por mês e o anticorpo fica em circulação. Entra em ação quando a tal substância que provoca a crise é libertada. Foi testado na enxaqueca crónica e na episódica e agora vai ser testada nos outros tipos de dor de cabeça”, remata Isabel Pavão Martins.

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