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Falámos sexo com a autora Sílvia Baptista: “Vivemos também na época das listas, até o sexo vem todo mastigadinho"

É um tema que a interessa e sobre o qual escreve há vários anos, primeiro com pseudónimo no seu blog e agora neste livro sem disfarces. Fomos falar com Sílvia Baptista, que, com muito humor, quer abanar mentalidades e pôr-nos a pensar num assunto que bem vistas as coisas é condição para estarmos aqui neste planeta.

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Era uma vez um blog...
“Sexo foi sempre um assunto que me fascinou, aquilo que somos sexualmente diz muito de tudo o resto. Tirei o curso de comunicação, fui jornalista e depois fiz uma série de outras coisas, mas nenhuma delas me dava tanto prazer como escrever sobre sexo. Esta descoberta deu-se há sensivelmente 10 anos, quando os blogs não tinham a importância que têm hoje. Nessa altura, escrevia uns comentários no blog do Miguel Esteves Cardoso e achei que poderia ter graça ter um blog meu. Criei um com um nome muito pouco inspirado, ‘Cenas de gaja’, e escrevia com o pseudónimo ‘Princesa Sissi’. Falava sobre tudo, mas um dia escrevi um post sobre sexo e percebi que o blog, que tinha zero visitas, começou a ter imensas. Gostei não só desse facto mas também percebi que era um tema que me dizia muito. Às tantas, apesar de ler muito sobre o tema, precisei de mais técnica, de conhecer outros autores, e decidi fazer uma pós-graduação em sexologia. O sexo é praticado de modo diferente em culturas diferentes, mas é importante para toda a gente, no fundo nós estamos cá porque alguém teve sexo.”

Dar a cara
“Este não é o meu primeiro livro publicado, esse surgiu quando estava em Londres e era uma compilação das minhas crónicas. O segundo já tem material original, mas ambos foram escritos sob pseudónimo. Este, que agora lanço, é o primeiro com o meu nome.”

Ai, os pais
“Uma das perguntas que mais me fazem por causa do livro é ‘o que os teus pais acharam de tu escreveres um livro sobre sexo?’ E isto espanta-me imenso, porque naturalmente os meus pais não vão agarrar no livro e mostrar aos amigos todos. Mas a verdade é que não matei ninguém, não roubei, só escrevi um livro sobre sexo. Nem sei bem o que dizer quando me perguntam isso... acharão bem?! Não sei! Como se falar sobre sexo fosse uma vergonha.”

Ou 8 ou 80
“Este tema chega à maioria de nós de 2 maneiras muito diferentes: por um lado temos o lado médico, das disfunções, dos problemas de saúde – e ainda bem que alguém trata dessa parte –, e por outro temos os nichos, mais voyeurista, onde as pessoas são vistas como freaks: o poliamor, os swingers, S&M, onde só se quer mostrar o lado mais folclórico.”

A matemática do sexo
“Vivemos também na época das listas, até o sexo vem todo mastigadinho: as 10 formas de atingir um orgasmo, as 5 maneiras de arranjar um namorado, as 20 maneiras de deixar um homem louco na cama... Ninguém olha para dentro, ninguém pensa ‘o que é que eu realmente gosto, como é que eu quero, porque gosto disto desta maneira’. É essa a parte que mais me interessa. Aquilo que eu proponho é mais difícil, mas é muito importante e é daqui que parte tudo. Tenho a arrogância de querer fazer com que as pessoas comecem a olhar para dentro depois de lerem o livro [risos]. Quero que este livro sirva para que se comece a falar mais de sexo... mas desta forma. E não tem de ser uma conversa aborrecida, pode ser algo divertido e bem-disposto, sem nenhuma camada médica. É verdade que se fala muito de sexo mas é mais em termos quantitativos: quantas posições, quanto tempo demora, quantos orgasmos tem. Ninguém se preocupa em perceber se gosta ou não de determinada posição... tudo parece meio robótico.”

Tabus e preconceitos
“Em Portugal, a sexualidade feminina está encharcada em tabus e preconceitos e é muito discutida, mas do ponto de vista do abuso e do crime, da lei. É bom que se discuta neste prisma, porque ele existe, mas a sexualidade feminina não se esgota nisto. Era importante que as mulheres discutissem mais sobre sexo mas o tabu começa também em nós. Andaram as outras desgraçadas a queimar sutiãs para nós agora não podermos fazer na cama coisas que outros achem degradante? Somos ainda muito críticas umas das outras... se um tipo tem várias mulheres é até apreciado, porque à partida tem experiência e sabe dar prazer, se é uma mulher com o mesmo número de parceiros, ou até mesmo metade, é uma grande porca. E isto somos nós que dizemos, mas se formos essa pessoa não vai ser nada agradável ouvir isso.”

O post gerador de insultos
“Curiosamente não foi nenhum ligado ao sexo. Tenho outro blog agora, o silviabaptista.com, e o único post que me granjeou não só insultos como as mais variadas ameaças foi aquele em que escrevi que não queria ter filhos. Houve imensas mulheres a sentiram-se muito ofendidas porque há uma mulher no mundo, um grão de areia, que decide não parir.”

Uma questão de prazer
“Procurar o prazer do outro e procurar o prazer em conjunto são coisas diferentes, porque se o homem procura só o prazer da mulher e ela só o prazer dele não estão a procurar prazer para si mesmos, faz toda a diferença. Tem de haver uma aprendizagem, que é outro mito. De repente vamos para a cama com alguém pela primeira vez e se não nos deu um orgasmo é uma merda na cama, se ela não fez anal ou trezentas posições, também não interessa. É absurdo.”

O sexo e a TV
“Atualmente não há uma série que represente o sexo real, mas há várias muito badalhocas, como ‘A Guerra dos Tronos’ que retrata o sexo do tabu, do incesto, mais primário, animal, que é no fundo de onde ele vem. Também temos a série ‘Masters of Sex’, que é genial. Mostra-nos duas personagens reais: Bill Masters e Virginia Johnson, que fizeram avançar os nossos conhecimentos sobre a sexualidade humana, sobretudo a nível mecânico. O ‘Shameless’ também é muito interessante porque tem um sexo completamente desbragado. São séries bem feitas, onde o sexo é mostrado sem pudor, são muito corajosas. Há uns anos havia os ‘Sopranos’, a minha série favorita, que era muito bem escrita e psicanalítica, abordava o sexo da dor, das nossas mágoas, frustrações, dos nosso traumas, dos medos e angústias... que é algo que me interessa bastante.”

Porno-educação
“Sou a favor da pornografia mas gostaria que os miúdos não olhassem para ela como a única fonte de informação, porque tudo aquilo é uma realidade muito distorcida. Os miúdos andam muito largados e somos nós, sociedade, pais e escolas que estamos a falhar. O que é que eles vão pensar daquilo? Que as pilas devem ser todas daquele tamanho, que é para imitar aqueles gritinhos e poses? Se não tens mais informação, para ti aquilo é toda a verdade... até teres mais experiência e perceber que há muitas nuances...”

O desgaste do tempo
“Acredito que é possível ser feliz sexualmente com alguém com que se está há 10, 15, 20 anos, e com filhos, sim. Pode não ser com a frequência dos primeiros tempos, mas porque é que o sexo tem de ser 3 ou 4 vezes por semana? A frequência é uma ideia-feita que põe muita pressão entre os casais. As pessoas têm é de perceber que o sexo não é sempre igual, o que tu tens aos 20 não é o mesmo que tens aos 50, porque o corpo não reage da mesma maneira, porque já não tens a mesma energia, gostas de outras coisas, deixaste de gostar de umas posições e passaste a gostar de outras, e a dinâmica dos casais também muda. Com o tempo, o sexo pode ser mais explorado na profundidade – e não na variedade que é mais comum no início – e na imaginação.”

Cenas da vida real
“O sexo não se esgota num orgasmo. A caminhada faz-se caminhando. A nossa vida não se compadece com cenas altamente elaboradas. O sexo da vida real não é assim, é mais tosco que glamouroso. Só vais ter sexo quando houver toda a disponibilidade do mundo, onde tudo é perfeito, com lareiras e velas? Então e nos outros dias em que até te apetece e... é quase como as idas ao ginásio, quando lá estás até gostas.”

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