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"Fui trocada por um smartphone": como lutar contra o amor dele pela tecnologia

Relações a três já não são de hoje, mas quando o terceiro elemento não é humano, como lutar contra ele? Descubra como recuperar uma relação desgastada pela tecnologia.

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Vou jantar com o amor da minha vida mas ele não me liga a mínima. De minuto em minuto, olha para o smartphone. Manda SMSs. Anda no Facebook. Quer dizer, eu nem sei onde ele anda. Se calhar está a pôr fotografias do sushi e do copo de cerveja. Se calhar está só a checar o mail. Se calhar anda a ver fotos do verão passado. Até já o Papa Francisco ordenou aos fiéis que pusessem o telemóvel na gaveta e conversassem mais com a família, mas este fiel não parece muito sensível aos apelos do divino. Então eu pago-lhe da mesma moeda e faço a mesma coisa. Parece normal? Problema: um objeto tão corriqueiro como um smartphone está destruir relações amorosas à volta do mundo. E nós deixamos.
Até já há um ‘palavrão’ novo nos dicionários: chama-se ‘tecnoferência’, e acontece quando um elemento do casal se queixa de estar a ser ‘trocado’ pelo smartphone do outro. Até já existem estudos: um inquérito da Pennsylvania State University mostrou que 75% das 143 mulheres inquiridas se sentiam ‘trocadas’ pelos smartphones dos companheiros. Queixavam-se de várias coisas: de que os parceiros pegavam no telemóvel em momentos em que o casal estaria normalmente a conversar, de que os parceiros andavam no Facebook ou mandavam mensagens mesmo durante uma conversa a dois, que pegavam no telemóvel e interrompiam a conversa sempre que recebiam uma notificação. Todas estas pequenas ‘traições’ (mesmo que não necessariamente uma Traição) interferiam na relação e desgastavam-na.
Porque é que nós, mulheres, nos sentimos tão ameaçadas? Porque é que, quando alguém pega no telemóvel em vez de falar connosco, vemos isso como uma rejeição?

O problema é a falta de controlo
“O grande desafio para as pessoas hoje é voltarem a saber conversar umas com as outras”: foi novamente o Papa que o afirmou, e todos os psicólogos concordam com ele. Infelizmente, não parece assim tão fácil de fazer, principalmente porque o smartphone está feito para se tornar altamente aditivo. E as mulheres, principalmente, queixam-se de perder o pé à situação.
“Antes, quando havia uma ameaça de traição, os casais acabavam por perceber para quem ele ou ela estava a olhar, qual era o objeto de interesse”, nota o psicólogo e sexólogo Tiago Torres Lino. “Com um smartphone, tudo isso desapareceu e as pessoas sentem-se perdidas porque não sabem o que é que se está a passar e perdem o controlo. A sensação de descontrolo aumenta o ciúme. Tudo isto desgasta muito uma relação.”
Por que é que não conseguimos separar-nos dos smartphones? Por que eles nos trazem imensos ‘reforços’ da autoestima que uma relação normal não nos dá. Vejamos o Facebook, por exemplo. “As redes sociais trazem um falso positivo em relação à autoestima”, explica Tiago Lopes Lino. “A pessoa sente-se desanimada, chega lá e num instante tem 200 likes. Mas não resolvemos os nossos problemas, só os mascaramos com um reforço imediato que não nos ajuda. Antes, se tivesse um problema ia almoçar com a sua amiga, encontravam-se ao fim do dia para conversar e discutiam o assunto. Agora, no Facebook toda a gente comenta e nos anima, mas nada fica de facto resolvido. Também no casal as coisas deixaram de ser conversadas.”

Eu contra mil apps
Ou seja, para voltar ao restaurante onde estou com o meu namorado que não me liga:
“A pessoa está a jantar e ao mesmo tempo posta no Facebook a foto do prato. Logo aí arranja uma briga, porque geralmente não se fala da companhia mas do prato”, explica Tiago. “As pessoas precisam de reforço imediato, de elogio constante, e no dia a dia não temos isso. No Facebook sim. Repare que não existe o botão do ‘não gosto, ou seja, aquilo existe mesmo para reforço positivo. Isso é altamente aditivo e obviamente que vai prejudicar a relação ‘real’ que ali está à nossa frente, e que não é tão ‘aditiva’ porque se rege por outras leis. Numa relação não temos 250 likes. Aquela até pode ser a pessoa mais importante para mim, mas é só uma…”
E a competição não é apenas com o Facebook mas com um universo de apps à distância de um dedo. “Eu percebo a angústia de muitas mulheres (e homens, evidentemente): como é que se pode lutar contra um ‘inimigo’ que tem armas tão incomparáveis? Não há competição possível não só com o Facebook como com as milhares de aplicações de um smartphone! É que há vários tipos de traição: ele pode estar completamente inocente a fazer palavras cruzadas, mas elas sentem-se impotentes contra uma máquina. E sentem que a ‘máquina’ é prioritária em termos de relação. Isso é que as magoa.”
Por outro lado, também leva muitas vezes a uma invasão de privacidade. “Também tem de haver algum respeito pelo espaço do outro”, nota Tiago. “Às vezes, não se pode estar na sala de espera do dentista entretido com um jogo inocente que não venha logo a acusação: ‘Já estás no Facebook, já estás a conversar com alguém’. A questão é usar bem o smartphone sem deixar que se torne tóxico e sem perder aquilo a que os nossos avós chamavam boa educação.”

Não se zangue (mesmo que lhe apeteça muito)
Mas como é que eu posso estabelecer limites com um viciado? “É complicado, mas não é impossível”, explica Tiago. “O que acontece é que, quando estas coisas são discutidas, geralmente saem de uma forma muito zangada, em forma de acusação, e a outra pessoa já não fica predisposta a colaborar…”, explica o psicólogo. “Pelo contrário, afunda-se ainda mais no mundo virtual que funciona como um escape, mesmo que não haja necessariamente uma ‘traição’. É um efeito boomerangue: a mulher reage mal porque está cheia de ciúmes, o companheiro ainda fica mais indignado e depois nada se resolve.”
Ou seja: é importante mostrar à outra pessoa que usar o ‘nosso’ tempo de antena com uma máquina nos magoa, mas se possível, tentar conversar sobre o assunto em vez de entrar numa de ‘olha, podias desligar isso ou queres que vá aí eu desligá-lo por ti?’. E depois estabelecer momentos sem smartphones: para recuperar o simples prazer da conversa sem interferências. Que, com ou sem dispensa papal, continua um dos maiores prazeres da vida.

COMO CHEGAR A UM ACORDO
– Decidam que espaços ou alturas devem ser ‘smartphone-free’: uma hora quando chegam do trabalho? Quando estão a jantar?

– Quando usar o smartphone, inclua a pessoa com quem está: mostre-lhe o vídeo que está a ver, por exemplo, ou conte-lhe a última bisbilhoticedo Facebook.

– Tenha algum respeito pela pessoa com quem está: lá porque tem acesso à tecnologia 24/7, não quer dizer que o faça.

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