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Ana Alexandra Carvalheira: a sexóloga que lembra que é preciso salvar o erotismo

"Estamos cada vez mais afastados do nosso corpo"

Catarina Fonseca

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

D.R.

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de abril de 2018

Diz que o mundo em que vivemos anda a matar-nos o desejo: mas não apenas uns pelos outros, pela vida em si. Professora e investigadora no ISPA, Ana Alexandra Carvalheira junta a investigação na área da sexualidade à prática clínica, é membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, escreveu um livro em defesa do erotismo e continua a dizer que, no sexo como em tudo na vida, querer é mesmo poder.

Há diferença entre sexo e erotismo?


O erotismo é a energia do sexo. É o combustível. O sexo sem erotismo é um sexo vazio, desinteressante. O erotismo faz parte da natureza humana, mas é uma construção cultural, vai mudando ao longo da história. No tempo dos nossos avós, um elemento importante no erotismo era a transgressão. Transgredir tinha uma carga erótica brutal. Hoje, o que é proibido já não tem esse peso, mas, curiosamente, quando falo disto com as minhas alunas, elas ainda dão como exemplo de uma situação erótica sexo com um professor, com o namorado de uma amiga, ou em locais públicos… Portanto, a transgressão continua a ser importante, só que é uma transgressão diferente. O Dr. Allen Gomes diz que nesta sociedade sem tabus vamos ter de reinventar o erotismo.

As pessoas queixam-se de que não têm vontade de ter sexo. Porquê?


Porque não estamos em tempos fáceis para o erotismo. Aliás, daí o título do meu livro, a defesa do erotismo, porque ele precisa mesmo de ser defendido. E depois porque vivemos num stresse brutal, a todos os níveis, saltamos de obrigação em obrigação, temos agendas pesadíssimas, andamos a correr de sítio para sítio, e tudo isso cansa. O stresse é um poderoso agente antidesejo. Além disso, vivemos num mundo digital onde somos obrigados a processar muitíssima informação. Isso torna-nos muito cerebrais. Trancamo-nos cada vez mais nesta caixa de racionalidade, desligamo-nos do corpo, vivemos cada vez mais afastados da natureza.

Esquecemo-nos de que somos animais?


Somos animais, temos um corpo, e abandonamo-lo cada vez mais. Agora andamos todos a querer voltar para a natureza, porque temos necessidade de nos ligarmos a nós, de acalmarmos, de respirarmos de outra maneira, de recuperar o lado sensorial imprescindível ao erotismo.

Diz que o desejo é sempre o desejo do desconhecido e que o erotismo precisa de separação. Como é que tornamos um marido num desconhecido?


Não podemos pensar que conhecemos totalmente a outra pessoa, mesmo quando estamos com ela há dez anos. Ali está uma pessoa em constante evolução e crescimento, que não é hoje igual ao que era ontem. Portanto, cultivem uma atitude curiosa e exploratória. Isso é importantíssimo, porque o totalmente conhecido mata o erotismo, que se alimenta do mistério e da novidade.

A maioria das mulheres que vão a uma consulta de sexologia queixa-se da falta de desejo: mas é possível recuperá-lo. A sexóloga apresenta um ‘manual’ muito fácil de ler. Agrupado em capítulos com temas, explica-nos como é que podemos, num mundo totalmente virado para a racionalidade, recuperar a nossa ligação ao corpo.

A maioria das mulheres que vão a uma consulta de sexologia queixa-se da falta de desejo: mas é possível recuperá-lo. A sexóloga apresenta um ‘manual’ muito fácil de ler. Agrupado em capítulos com temas, explica-nos como é que podemos, num mundo totalmente virado para a racionalidade, recuperar a nossa ligação ao corpo.

D.R.

O problema, diz, é que hoje queremos simultaneamente segurança e aventura...


É o grande desafio da conjugalidade. Queremos segurança, ninho, proteção, mas também risco, aventura, novidade. Tudo isso são forças contrárias. Mas acredito que é possível. O erotismo vive numa dança em que o abraço pode abrir e fechar, num movimento de aproximação e afastamento. O nosso problema é que temos imensa dificuldade com o afastamento. Há casais que preferem ficar fusionados porque acham que é a relação perfeita. Mas isso aniquila qualquer casal. O romantismo e os mitos românticos como a fusão ou o orgasmo simultâneo ainda nos estragam a vida.

De onde vem essa perda de desejo?


É interessante que a perda de desejo sexual muitíssimas vezes esteja ligada à perda do desejo em geral, a perda de desejo pela vida, de viajar, de me enriquecer. As pessoas desejam pouco, em geral, e a perda do desejo é a nossa morte como seres humanos. A etimologia do desejo é ‘desideri’, do grego ‘pelas estrelas’, como os marinheiros se orientavam no mar. O desejo é a nossa estrela e guia. E sim, recupera-se, explorando, experimentando, percebendo do que gosto.

Pôr o sexo na agenda é aconselhável?


Claro que sim. Porque é que nós guardamos tempo para tudo menos para o sexo?

Um dos maiores problemas femininos?


Por exemplo: a nossa ligação ao corpo passa geralmente por preocupações estéticas, de autoimagem. Sou atraente, tenho celulite, tenho rugas? Não estamos ligadas ao corpo para sentir, para ter prazer. E depois somos vítimas do multitasking. Fazemos 40 coisas ao mesmo tempo, quando o sexo exige concentração. A mulher, para se excitar, precisa de treinar o foco, não pode estar distraída a pensar noutra coisa qualquer.

Os homens treinaram-se mais nessa concentração de estímulos?


Claro que sim. Nós ainda fomos socializadas de forma mais reprimida. É suposto que os homens se masturbem. A nós nunca ninguém disse que o prazer sexual era uma meta a atingir. Diziam-nos: tens que ser independente, ganhar dinheiro, viajar, ser boa mãe, mas a sexualidade? Zero. Para nós nunca foi uma prioridade.

franckreporter

Habituámo-nos a esquecer-nos de nós?


Temos várias esferas na nossa vida: a profissional, a social, a maternal, a de esposa, a de filha, e a esfera de mulher é tão minúscula… Mas há 30 anos só tínhamos duas destas esferas, a da maternidade e a de esposa. Portanto, a transformação foi brutal.

Outro mito é que as pessoas mais velhas não têm sexo…


Conheço muitas pessoas de 70 anos com uma vida sexual muito mais activa do que os miúdos que se riem quando se fala nisso. Têm um património erótico grande, já não têm inibições tipo ‘ai a celulite’ e fazem o que lhes apetece. Mas não devemos impor a atividade sexual a ninguém. Há casais que preferem finalmente a paz sexual. O que é muito problemático é que as mulheres mais velhas não encontram parceiros. Acima dos 65 anos há 4 vezes mais viúvas que viúvos, é uma assimetria enorme. Os homens da idade delas estão com mulheres mais novas, e elas não têm onde procurar: só as escolas de dança ou a internet, que não são acessíveis a todos.

Mas as mulheres mais novas também sentem que se espera delas que tenham uma vida sexual muito mais frequente…


Sim. E mentem muito sobre isso. Homens e mulheres. É um sinal de insegurança. Quando dificuldades toda a gente tem.

Foi a primeira psicóloga que não me disse a célebre expressão ‘os casais têm de conversar’ (risos)


Não, não têm nada de conversar. Quer dizer, a comunicação não tem de ser sempre verbal. É preciso aprender o silêncio. Aliás, muitas vezes digo aos casais, ‘calem-se. Toquem-se, olhem-se, cheirem-se.’ A conversa vem depois.

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