A mulher tem características fisiológicas únicas relacionadas especificamente  com  a função reprodutiva. Apesar desta  capacidade e do impacto que tem na progressão da sociedade à escala mundial, as mulheres, pertencem, ainda, a um grupo frágil em termos educacionais, sociais e econômicos, Estima-se que em Portugal haja cerca de 20.000 mulheres  com epilepsia. Pelo menos 60% delas encontram-se em idade fértil. Importa portanto implementar cuidados que possam determinar melhor saúde da mãe e descendentes .

Nos primeiros anos da puberdade feminina a hipófise inicia a produção de hormonas que regulam a maturação periódica de folículos ováricos e estes induzem a libertação de outras hormonas (estrogénios e progesterona), fundamentais para a fertilidade mas que tambŕm atuam no funcionamento cerebral da mulher com repercussão  a nível  emocional e cognitivo e comportamental. Por exemplo, a sexualidade pode ser afetada verificando-se  diminuição do desejo sexual,  da capacidade de orgasmo e índices mais elevados de depressão.  Certos tipos de epilepsia surgem nesta idade e epilepsias já existentes exacerbam-se frequentemente nas adolescentes.

Como é que a Epilepsia se relaciona com o ciclo hormonal da mulher?

Durante o próprio ciclo menstrual  existem picos e quedas bruscas de estrogénios e progesterona gerando um equilíbrio hormonal instável e consequentemente muitas mulheres  com epilepsia têm exacerbação das crises  particularmente no início do período menstrual – crises catameniais.  O efeito  destas hormonas também vai contribuir para dificultar a  acção terapêutica dos medicamentos antiepiléticos e efeitos adversos. Daí que as atitudes terapêuticas devam ser consideradas em três vertentes: características hormonais, tipo de epilepsia, tipo de medicação. Um bom exemplo da interação negativa destes três factores é a elevada frequência de Síndrome de Ovário Poliquístico uma das principais causas de infertilidade nas mulheres  com epilepsia. Cerca de 60% têm múltiplos quistos ováricos, sobretudo se medicadas com ácido valpróico no fim da adolescência/início da idade adulta. Quando retirado o medicamento, melhora a obesidade, os quistos regridem, os ciclos menstruais regularizam e a fertilidade aumenta. Fatores, culturais, podem também influenciar a sexualidade e portanto a fertilidade. Ainda há poucos anos era frequente na consulta de Neurologia assistirmos a mulheres com epilepsia mal informadas, a quem tinha sido dito que não poderiam ser mães. Todavia, desde que a gravidez seja atempadamente planeada e assistida em consulta de gravidez de risco e de epilepsia, a mulher  com epilepsia pode ser alvo de cuidados que lhe permitam ter filhos saudáveis.

A consulta de planeamento familiar ganha particular relevância?

É fundamental que o planeamento familiar e a gravidez sejam abordados o mais precocemente possível, para que a jovem tome consciência das vantagens de adoptar medidas seguras que minimizem os potenciais riscos de uma gravidez indesejada. A primeira medida será escolher com os médicos assistentes, o método anticoncepcional  mais adequado ao contexto de cada mulher com epilepsia. A contracepção hormonal (pílula/implante/transdérmico) só é compatível com alguns medicamentos antiepiléticos, por poder diminuir a eficácia terapêutica e/ou perderem a sua própria ação. Se a mulher  com epilepsia já tiver um ou mais filhos o dispositivo intrauterino poderá ser a melhor opção e,  a  esterilização ou outro tipo de métodos devem ser considerados,  tendo sempre em mente o risco /benefício de cada um. 

A adolescente e jovem adulta deve também ser esclarecida de que planear uma gravidez requer  informação e um intervalo de tempo adequado à otimização e estabilização da terapêutica, para simultaneamente prevenir crises mas também evitar elevados níveis de medicação no sangue e  precaver malformações major no feto.

Então quais são as medidas mais importantes para uma gravidez segura?

As duas medidas mais importantes são o início da toma de ácido fólico pelo menos 4- 6 semanas antes da possível fecundação e a divisão da dose total do medicamento antiepilético por várias tomas nas 24 horas, durante todo o período de gravidez e amamentação. Nas que tomam mais do que um tipo de medicamento antiepilético tenta-se diminuir a dose e/ou reduzir a medicação a uma única substância (monoterapia) pois é mais um factor de segurança, enquanto que a politerapia aumenta a teratogenicidade medicamentosa. Por medo de causar danos na criança, mulheres  com epilepsia, não esclarecidas, podem tomar a iniciativa de parar ou reduzir a medicação, e com esta decisão irresponsável, agravar a frequência e/ou duração das crises e consequentemente colocar-se em risco a si e à criança, podendo desta situação resultar  problemas de desenvolvimento e até lesões cerebrais, hipóxia/acidose ou traumatismo.  Estudos internacionais demonstram que o planeamento prévio atempado e a boa adesão à terapêutica são imprescindíveis para a segurança da mãe e do filho.

Na altura  do diagnóstico  de gravidez a mulher  com epilepsia deve submeter-se aos exames de monitorização preconizados e, como em qualquer grávida, deve cumprir descanso noturno adequado, prevenção do stress, atividade física moderada e os devidos cuidados na alimentação e ganho de peso. A vigilância deve ser mantida regularmente em Consulta de Obstetrícia de Alto Risco  e de Epilepsia.

O trabalho de parto deve ter lugar num hospital, mas pode ser eutócico (dito normal), se a mulher souber que é rara a ocorrência de crises nesse período, sentirá maior segurança e tranquilidade podendo colaborar melhor. Tanto quanto possível a medicação antiepilética deverá ser administrada, mas pode ser adaptada ao tipo e duração do parto.

Uma mulher com epilepsia pode amamentar?

Se não houver qualquer contraindicação a amamentação deverá ser iniciada na altura apropriada.Os benefícios, quase sempre ultrapassam os riscos. O fortalecimento da relação mãe-filho, a profilaxia de infeções e a diminuição das doenças imunológicas, contrapõem-se aos hipotéticos efeitos da passagem dos medicamentos antiepiléticos para o leite materno. Todos os medicamentos antiepiléticos passam para o leite, mas só alguns são evitados por causarem sonolência, acumulação no fígado do recém-nascido ou  não existirem dados suficientes para conclusões seguras.  Este período de amamentação e cuidados a um novo ser humano e membro da família, pode ser cansativo e motivo de insegurança para a mulher  com epilepsia. A  ajuda e apoio dos outros familiares e amigos poderá ser conveniente. Havendo sempre risco de crises existem medidas fáceis e práticas que podem minimizar acidentes. Por exemplo, o leite pode ser congelado e administrado durante a noite pelo pai ou outro familiar enquanto a mulher  com epilepsia cumpre o descanso noturno. Os cuidados prestados pela mãe poderão ser realizados no plano do chão, prevenindo a queda da criança na eventualidade de ocorrer uma crise. Seguramente outras ideias podem ocorrer ao pessoal médico e de enfermagem que cuida estas mulheres para que essa época tão importante da vida decorra da melhor forma.

« Se o amor nem sempre é motivo para uma mulher se empenhar é-o pelo menos para medir forças consigo mesma » Maria Ondina Braga , Nocturno em Macau

Élia Baeta, Coordenadora da Unidade de Neurologia do Hospital CUF Descobertas – integra a consulta de Epilepsia

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