Não é por acaso que o sangue está ligado ao simbolismo da vida e da morte. Este precioso tecido do nosso organismo desempenha funções essenciais à nossa sobrevivência. Para além disso, a sua constituição é de tal maneira complexa, que a medicina ainda não conseguiu criar um substituto comparável. Daí que seja essencial a nossa contribuição como seres humanos solidários para que seja possível continuar a salvar vidas. Contudo, a saúde do doador não pode ser descurada. Por esse motivo, existem alguns cuidados alimentares a ter, de modo a evitar carências nutricionais.

Cada dádiva de sangue total (450 ml) resulta na perda de cerca de 200 a 250 mg de ferro. O ferro é um componente essencial da hemoglobina que transporta o oxigénio dos pulmões para os tecidos, e da mioglobina que fornece oxigénio aos músculos. Além disso, é essencial para o crescimento, desenvolvimento, funcionamento celular normal e síntese de algumas hormonas. Com efeito, têm sido descritos efeitos clínicos adversos relacionados com a diminuição de ferro induzida pela dádiva de sangue, tais como fadiga, diminuição da produtividade, síndrome das pernas inquietas, perdas sanguíneas a nível gastrointestinal e anemia precoce na gravidez.

Alguns subgrupos de doadores correm maior risco de desenvolver deficiência de ferro e respetivos efeitos adversos: mulheres na pré-menopausa, doadores com valores de hemoglobina próximos do mínimo e doadores frequentes.

A doação de sangue pode ser feita de quatro em quatro meses pelas mulheres e de três em três meses pelos homens, sendo que o tempo de reposição dos depósitos de ferro após a dádiva depende da quantidade de sangue colhida, frequência da dádiva, idade, género, dieta e ingestão de suplementos.

De facto, a maior parte do ferro do nosso organismo é reciclada. Uma pequena percentagem perde-se diariamente através de restos celulares e, no caso das mulheres em idade fértil, através da menstruação. As perdas fisiológicas diárias de ferro em não-dadores de sangue são de cerca de 1 mg em homens e 1,5 a 2 mg em mulheres em idade menstrual, embora possam ser perdidos 4 mg por dia durante a menstruação. Assim, a manutenção do balanço de ferro requer uma absorção diária apropriada.

As quantidades diárias recomendadas de ferro na idade adulta para os homens são de 8 mg, e para as mulheres são de 18 mg até aos 50 anos e 8 mg a partir dos 51 anos.

Deste modo, é importante tomar medidas para minimizar o défice de ferro induzido pela dádiva de sangue, mantendo a saúde da comunidade dadora. Para isso, uma alimentação adequada – variada, equilibrada e rica em ferro – é imprescindível. Porém, a correção de ferro no sangue através da alimentação é um processo lento, que requer persistência e disciplina durante um longo período.

De um modo geral, podemos distinguir duas formas de ferro nos alimentos: ferro heme e ferro não heme. O ferro heme encontra-se na hemoglobina e na mioglobina, tem origem exclusivamente animal e caracteriza-se por ser três vezes melhor absorvido do que o ferro não heme, de origem vegetal. Assim, em dietas vegetarianas as necessidades aumentam em cerca de 80%.

A taxa de absorção de ferro varia entre 1 e 40%, dependendo da presença de inibidores (como fitatos e polifenóis) e potenciadores (como vitamina C, ácido cítrico e outros ácidos orgânicos) da sua absorção na refeição. Esta pode ser melhorada com a alteração dos hábitos alimentares.

Deste modo, para potenciar a absorção de ferro devem ser ingeridos alimentos ricos em vitamina C (pimentos, brócolos, couves, kiwi, limão, laranjas, morangos, abacaxi e toranja), pois a vitamina C é o maior potenciador da absorção, já que promove a conversão do ferro férrico em ferro ferroso. Assim, é recomendada a ingestão de vegetais e/ou fruta em todas as refeições, e poderá acrescentar-se umas gotas de limão ao tempero dos vegetais.

Por outro lado, deve ser evitada a ingestão de bebidas gaseificadas, chá, vinho tinto e café durante ou após as refeições devido à presença de fitatos e polifenois, que inibem a absorção de ferro.

Por último, deve evitar-se ingerir produtos ricos em cálcio, nomeadamente lácteos, durante e/ou perto das refeições principais, dado que o cálcio, no organismo, compete com o ferro pela sua absorção.

Quando as estratégias alimentares não são suficientes, poderá ser necessário suplementar com ferro oral e/ou aumentar o intervalo de tempo entre as dádivas.

Em suma, a dádiva de sangue requer uma atenção especial à ingestão diária de ferro, sendo que através destas estratégias e/ou através da suplementação poderá aumentar a sua absorção e evitar carências nutricionais.

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