No mês de outubro, em que se assinala o Mês Internacional da Luta Contra o Cancro da Mama, entrevistámos Sofia Mensurado, investigadora do Fundo iMM-Laço, do Instituto de Medicina Molecular, que recorda não só a a importância do controlo regular do corpo e das visitas regulares ao profissional de saúde, como nos falou da forma como a alimentação e um estilo de vida influenciam esta doença e dos avanços que a Ciência tem feito para se aproximar da cura.

  1. Qual é atualmente a média de novos casos de cancro da mama por ano?

Em média surgem por ano cerca de 6 mil novos casos de cancro da mama em Portugal, 355 mil na União Europeia e 2 milhões de novos casos a nível mundial. Este é um dos cancros mais prevalentes e representa cerca de 25% dos casos de cancro em mulheres.

  • Qual a percentagem de sucesso em cancros detetados precocemente?

Segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, uma doente diagnosticada com um tumor localizado, que tenha um tumor com menos de 2 cm de diâmetro, ou seja, que tenha sido detetado precocemente, tem uma probabilidade de sobrevida aos 10 anos de 85%, enquanto que uma doente diagnosticada com lesões noutros órgãos terá uma probabilidade de sobrevida aos 10 anos menor que 15%.

  • Podemos indicar fatores de risco no caso deste tipo particular de cancro?

Sim, existem fatores de risco, alguns dos quais não modificáveis. A idade é um desses fatores, estando o aumento da idade associado a um risco acrescido. Também a história familiar de cancro da mama é importante para o risco de desenvolver esta doença. Assim, indivíduos com história familiar significativa (dois ou mais parentes próximos com cancro da mama antes dos 40 anos, cancro da mama e ovário na família, cancro da mama bilateral ou cancro da mama num familiar do sexo masculino) devem recorrer a consulta de risco familiar. Mulheres que tenham tido a primeira menstruação antes dos 12 anos, a menopausa depois dos 55 ou que nunca tenham tido filhos, ou que os tenham tido depois dos 31 anos também apresentam um risco acrescido de desenvolver este tipo de cancro.

Outros fatores associados a uma maior probabilidade de desenvolver cancro da mama são a exposição a radioterapia no peito (especialmente se a exposição foi antes dos 30 anos), obesidade após a menopausa, inatividade física e ingestão de bebidas alcoólicas.

Os fatores associados a uma menor probabilidade de desenvolver a doença incluem a amamentação e a prática de exercício físico.

  • Há vários graus de gravidade, conforme a natureza do cancro da mama, formas mais e menos agressivas…

O cancro da mama pode ser classificado em diferentes subtipos, de acordo com a expressão de certas moléculas, como recetores hormonais (para estrogénio e progesterona) e uma proteína denominada HER2. O subtipo de cancro designado por luminal A apresenta expressão dos recetores hormonais mas não da proteína HER2 e é o que geralmente apresenta células cancerosas com um menor potencial proliferativo, ou seja menor capacidade de se multiplicarem, sendo por isso mais fácil de controlar, apresentando um prognóstico mais favorável. Por sua vez, o cancro da mama do subtipo triplo negativo (este nome deve-se ao facto de não expressar recetores hormonais para estrogénio, progesterona nem a proteína HER2) é o subtipo mais agressivo. O facto de não expressar nenhuma das três moléculas referidas leva a que as opções terapêuticas sejam mais limitadas, pois ao contrário dos outros subtipos de cancro não pode ser tratado com terapia direcionada (ou seja, terapia que é dirigida a moléculas específicas expressas pelas células tumorais).

  • Em termos de prevenção da doença, que cuidados e hábitos devem as mulheres incorporar no seu dia a dia?

Como para qualquer outro tipo de doença é muito importante conhecer o nosso corpo e estar alerta. Perceber quando há algum desvio à normalidade é fundamental para que se detete alterações o mais cedo possível e evite complicações. Além disso, especificamente para a prevenção de cancro da mama é recomendável manter um peso saudável (especialmente após a menopausa, altura em que o excesso de peso constitui um fator de risco acrescido para o desenvolvimento da doença) e manter-se fisicamente ativa, praticando atividade física moderada e intensa. Adicionalmente deve manter uma dieta saudável, dando preferência a produtos de origem vegetal, evitando hidratos de carbono refinados e bebidas alcoólicas.

  • Que evidências científicas existem que a alimentação e a prática de exercício físico diminuem a incidência de cancro da mama?

Relativamente à alimentação, existem evidências científicas que sugerem que o consumo de alguns alimentos (vegetais sem amido, alimentos que contêm carotenoides, alimentos ricos em cálcio) poderá diminuir o risco de desenvolver cancro da mama. No entanto, é preciso salientar que esta evidência científica é ainda limitada, ou seja, não é possível ainda concluir com confiança que haja uma associação entre a ingestão destes alimentos e a incidência de cancro da mama.

No entanto, relativamente ao exercício o cenário é mais claro, as evidências são mais fortes e indicam que é provável que a prática de atividade física diminua o risco de desenvolvimento de cancro da mama após a menopausa. No caso de incidência de cancro da mama antes da menopausa o benefício é apenas provável se o exercício físico praticado for intenso.

  • Com que regularidade devem ir ao ginecologista, tendo em conta a idade e outros fatores de risco?

Regra geral a consulta ginecológica de rotina deve ser realizada anualmente. No caso de risco aumentado de cancro da mama o médico irá determinar se essa periodicidade deve ser alterada, de acordo com cada caso, e se será necessário realizar exames mamários de rotina e a sua regularidade.

  • Quais os sinais de alerta?

Deverá estar atenta e consultar o seu médico no caso de detetar alguma das seguintes alterações: nódulo ou espessamento na mama ou axila; alterações no tamanho ou formato da mama; dor na mama; aumento de sensibilidade, retração, secreção ou perda de líquido no mamilo; e ainda vermelhidão, inchaço, comichão, pele gretada ou descamativa na mama ou mamilo.

  • Podemos afirmar que cada vez mais surgem novos casos entre mulheres mais jovens? Se sim, quais as possíveis justificações?

Existiu de facto entre 1998 e 2012 um aumento dos novos casos de cancro da mama em mulheres mais jovens (com menos de 50 anos), essencialmente em países mais desenvolvidos. As causas deste aumento não são totalmente conhecidas, mas alguns fatores podem ajudar a compreender este efeito, embora não o justifiquem por completo.

A maternidade mais tardia, a nuliparidade, ou seja, não ter filhos, ou ter poucos filhos são fatores associados a um risco aumentado de cancro da mama (antes da menopausa) pelo que podem contribuir para estas estatísticas. Além disso, não se pode ignorar que o consumo de bebidas alcoólicas por mulheres, especialmente jovens, tem vindo a aumentar, o que, sendo um fator de risco, pode contribuir para o aumento do número de casos. Por fim, apesar do aumento dos exames de rastreio ser mais significativo a partir dos 50 anos, o facto de se ter vindo a consciencializar mais as mulheres para esta temática também pode facilitar a deteção de novos casos em idades mais jovens.

  • Qual a importância da auto-apalpação e como deve ser feita corretamente?

O autoexame da mama deve ser realizado mensalmente uma semana após a menstruação ou sempre na mesma altura do mês nas mulheres que não menstruam. Primeiramente deve observar-se ao espelho de forma a detetar alterações como pele “casca de laranja”, assimetria excessiva, vermelhidão ou líquido no mamilo. Em segundo lugar deve realizar a palpação da mama. Para isso pode, de pé, colocar uma mão na nuca e com a outra mão percorrer a mama no sentido dos ponteiros do relógio de fora para dentro, não esquecendo o mamilo e axila. Repita o procedimento na outra mama. É preferível realizar a palpação no banho, devido à presença de sabão que ajuda o deslizamento dos dedos e consequentemente a deteção de irregularidades.

Recentemente tem surgido algum debate sobre o benefício deste exame, visto que não há evidência de que efetivamente reduza a mortalidade por cancro da mama. É, no entanto, um método fácil e económico para detetar alterações no tecido mamário pelo que pode ser importante para detetar alterações, mesmo que não sejam relacionadas com cancro da mama. O que é importante reter é que este autoexame não deve, em momento algum, substituir a visita regular ao ginecologista, nem os exames de rastreio

  • Quais as formas mais comuns de tratamento?

Os tratamentos mais comuns de cancro da mama tipicamente envolvem cirurgia, se o tumor for detetado cedo. Dependendo do estadiamento e das características moleculares do tumor a cirurgia pode ser seguida de quimioterapia, radioterapia, ou terapias dirigidas (como por exemplo, terapia hormonal ou, nos casos de cancro de mama HER2 positivos é utilizado uma terapia dirigida a esta molécula). No entanto novos tratamentos e combinações de tratamentos existentes continuam a ser investigados

  • E o papel da imunoterapia?

A imunoterapia é um tipo de tratamento que consiste em estimular o sistema imunitário com o objetivo de aumentar a eficácia de eliminação do tumor. Tem tido um papel importantíssimo na terapia de alguns tipos de cancro, nomeadamente em melanoma (cancro de pele) e cancro do pulmão, permitindo mesmo atingir remissão da doença em casos para os quais as opções terapêuticas eram muito limitadas. No caso do cancro da mama, a imunoterapia também desempenha um papel de grande relevo. Existem várias terapias para esta doença que se baseiam na capacidade do sistema imunitário eliminar o tumor. Entre elas é de destacar os anticorpos monoclonais (moléculas produzidas em laboratório) que reconhecem especificamente proteínas que estão altamente expressas nas células tumorais (como HER2), em alguns subtipos de cancro da mama. Estes anticorpos ao se ligarem às células tumorais vão “sinalizá-las” facilitando a sua deteção e consequentemente eliminação pelo sistema imunitário. Além destes anticorpos, um outro tipo de imunoterapia foi aprovado no ano passado (2019) pela Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de cancro da mama triplo-negativo metastático, em combinação com quimioterapia. Esta terapia consiste no bloqueio de moléculas inibidoras de linfócitos (um tipo de glóbulos brancos capaz de combater os tumores). Ao bloquear-se estas moléculas inibidoras os linfócitos ficam mais ativados e conseguem combater com maior eficácia as células cancerígenas. Em suma, a imunoterapia tem contribuído grandemente para aumentar as opções terapêuticas em cancro da mama. Continua, no entanto, a ser necessário desenvolver novas estratégias terapêuticas, especialmente para doentes com doença avançada, pelo que a investigação nesta área é de extrema importância

  • Qual o papel da alimentação no processo terapêutico?

No geral, não é claro se um tipo específico de dieta pode ajudar a aumentar o tempo de sobrevida em doentes de cancro da mama. Estudos revelaram que sobreviventes de cancro da mama que tinham uma dieta rica em vegetais, fruta, cereais integrais, frango e peixe tendem a viver mais tempo do que quem inclui na dieta níveis mais elevados de açucares refinados, gorduras, carnes vermelhas e processadas. No entanto, não é claro se este efeito é diretamente no cancro da mama ou se é devido a outros benefícios na saúde, que por sua vez diminuem a mortalidade.

  • Quais as linhas de investigação atual que se apresentam como mais promissoras?

Uma das áreas de investigação que na minha opinião é muito promissora é precisamente a imunoterapia em cancro da mama. Um dos primeiros grandes sinais de sucesso desta terapia surgiu, como referi anteriormente, no ano passado, com a aprovação pela FDA do bloqueio de moléculas inibidoras de linfócitos, em cancro da mama triplo-negativo metastático – um dos tipos de cancro da mama mais agressivos e para os quais as opções terapêuticas se limitavam a quimioterapia. Creio que este avanço é apenas o começo de um longo caminho a percorrer com vista a aumentar o grau de resposta e a percentagem de doentes de beneficiam desta terapia. Existem atualmente centenas de estudos a decorrer sobre potenciais combinações deste tipo de imunoterapia com outras formas de atacar o tumor e/ou estimular o sistema imunitário, e acredito que daqui sairão novas estratégias terapêuticas importantes, não só para o tratamento de cancro da mama, mas para variados tipos de cancro.

  • Qual o papel do Fundo iMM-Laço na investigação?

O fundo iMM-Laço angaria apoios financeiros junto de empresas e da sociedade civil, que são fundamentais para testar ideias no seu estado mais embrionário. Estes fundos permitem adquirir reagentes e equipamentos necessários à investigação, ajudando a passar ideias a resultados preliminares e com isso permite que os investigadores tenham capacidade de se candidatarem a programas de financiamento para continuarem a sua investigação. O tipo de investigação que o fundo iMM-Laço apoia é a investigação que serve de base para que, no futuro, novos ensaios clínicos e alternativas de diagnóstico e tratamento surjam.

Fontes:

American Cancer Society. Can I lower my risk of breast cancer progressing or coming back? Disponível em cancer.org/cancer/breast-cancer/living-as-a-breast-cancer-survivor/can-i-lower-my-risk-of-breast-cancer-progressing-or-coming-back

Breastcancer.org. Molecular Subtypes of Breast Cancer. Disponível em breastcancer.org/symptoms/types/molecular-subtypes

Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research. Continuous Update Project Expert Report 2018. Diet, nutrition, physical activity and breast cancer. Disponível em dietand cancerreport.org

Heer, Emily et al. Global burden and trends in premenopausal and postmenopausal breast cancer: a population-based study. The Lancet Global Health, Volume 8, Issue 8, e1027 – e1037 Liga Portuguesa Contra o Cancro. Programa de Rastreio de Cancro da Mama. Disponível em ligacontracancro.pt/servicos/detalhe/url/programa-de-rastreio-de-cancro-da-

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