Podemos escrever um tratado pungente sobre o amor e a nossa escrita revelar que somos crápulas insensíveis? Sim. Podemos enviar um currículo brilhante a uma empresa mas a carta de apresentação manuscrita gritar ao mundo que não acreditamos na nossa competência? Sim, de novo. É este o poder da grafologia, a arte de ler a alma nas letras de que Platão falava na Grécia antiga.

Muita tinta correu sobre os papiros desde então, e a teoria inicial, baseada na impressão intuitiva que a escrita causava em quem lia, foi substituída, em grande parte, pelas medições rigorosas da grafometria e tratamento estatístico de dados. Atualmente, a grafologia está mais próxima dos testes psicotécnicos ou da análise psicológica dos desenhos das crianças, ferramentas usadas com frequência pelos psicólogos. Ainda assim, em Portugal, a técnica de decifrar a personalidade através da escrita está pouco divulgada e contam-se pelos dedos os profissionais dedicados à matéria. Luís Philippe Jorge é um deles. Em França e no Canadá, dois países onde viveu antes de se fixar em Portugal, há sete anos, era normal ser requisitado por empresas para fazer análise grafológica em seleção profissional ou por escritórios de advogados ocupados com casos de falsificação de assinaturas em cheques e testamentos. “São as vertentes mais técnicas da grafologia. Na perícia de documentos, o objetivo é fazer uma autenticação e recorremos a medições precisas para fazer uma comparação exaustiva entre as letras. Na seleção profissional, limitamo-nos a ver se as características que o empregador procura estão presentes na escrita dos candidatos. Não seria ético fazer uma análise exaustiva da personalidade sem o aval dos visados”, explica o grafólogo. Em Portugal, pedidos destes são raros, o mais comum é a análise de personalidade individual, feita como instrumento de autoconhecimento. Mas afinal o que é que a escrita pode revelar?

LETRA A LETRA ENCHE O GRAFÓLOGO O PAPO

Para a grafologia, escrever é a mesma coisa que hastear uma bandeira com letras garrafais a dizer ‘eu sou’. Não há escapatória, mesmo que escreva em letras de máquina. “A escrita é energia convertida em forma. Quando escrevemos há algo que é posto ‘em movimento’ e que ultrapassa a dimensão consciente. A grafologia tenta descodificar o significado dessa linguagem gestual através dos resíduos que deixa no papel, da mesma maneira que alguém experiente lê a linguagem corporal de outra pessoa. Todo o movimento é expressivo e o ato de escrever não é diferente. O braço é um prolongamento anatómico do cérebro e a escrita uma espécie de registo encefalocardiográfico, que regista ritmos, pulsações, pressão arterial e estados psicológicos interiores. Basicamente, a escrita é uma floresta de símbolos coreografados sobre a página e pode ser lida como um teste de projeção, da mesma maneira que algumas correntes psicológicas analisam os desenhos para decifrar a personalidade. É uma forma de ler o inconsciente.”

Mas porquê concluir que uma escrita pequena revela timidez e uma grande extroversão? “Há princípios universais que se aplicam a qualquer atividade gráfica e se estendem à grafologia. Inicialmente, a interpretação começou por ser intuitiva, uma escrita grande parece indicar alguém que se quer mostrar e uma pequena alguém mais modesto, mas depois estas impressões tornaram-se progressivamente científicas e a estatística permitiu tirar conclusões sobre a relação entre certos elementos gráficos e características psicológicas.”  Então a nossa escrita faz de nós um ‘livro aberto’? “Bem, uma pessoa não se resume à sua escrita, mas a escrita também é a pessoa. E se é verdade que a escrita não engana, o grafólogo pode enganar-se, tal como o médico ou o detetive podem a interpretar sintomas ou provas.” Sendo assim, o melhor é ir sem demora para o local do crime. A análise vai começar.

 

A ESCRITA À LUPA

Primeiro alerta: nenhuma característica isolada chega para afirmar seja o que for. Convém que pelo menos três indícios gráficos indiquem a mesma coisa. Segundo alerta: há elementos a ter em conta antes de começar e que influenciam a análise: a idade – uma criança não escreve da mesma maneira que um adulto; a mão – não é igual interpretar a letra de um canhoto ou de um dextro; o sexo – mulheres e homens têm escritas diferentes (de forma geral a da mulher é mais arredondada e a do homem mais angulosa); a cultura – os modelos de escrita variam de país para país e de geração para geração. “Em geral, a letra dos nossos avós era mais pequena e apertadinha, a ocupação da página refletia um sentimento de liberdade restrito, a opressão, as dificuldades…” A experiência do grafólogo é determinante para articular todos os fatores.

A análise grafológica começa pela avaliação das sete constantes da escrita:

1. FORMA As pessoas que não gostam da sua escrita referem-se ao aspeto estético, mas uma escrita regular não é necessariamente bom sinal. “Demonstra um temperamento calmo e estável mas também pode haver rigidez. Quanto mais certinha mais pobre é em termos de riquezas psicológicas, pode significar que a pessoa ficou presa a um modelo instituído.” Já a escrita irregular corresponde a pessoas que necessitam de liberdade de expressão e que se deixam afetar por impulsos interiores ou por impressões do exterior.

Uma escrita hieroglífica é indicadora de alguém que não está interessado em revelar-se. “Se pretendemos comunicar e a escrita é ilegível, isso é um paradoxo. Não nos preocupamos em saber se o outro irá perceber ou não. Claro que se for numa criança a significação será diferente. Faz parte da aprendizagem e indica apenas falta de mestria. Num médico, esta escrita revela a distância emocional necessária à profissão e também algum secretismo já que a prescrição visa ser descodificada apenas pelo farmacêutico.”

2. DIMENSÃO Artistas e políticos têm características na escrita que tendem a aparecer continuamente. Geralmente são escritas grandes e com mais movimento de expansão, que dizem ‘aqui estou eu, olhem para mim’. Há uma procura de afirmação. Isto não acontecerá em professores de filosofia ou matemática, tendencialmente pessoas com escritas mais pequenas e com menos necessidade de afirmação. Os grandes pensadores têm escritas simples e humildes. Já nas personalidades excêntricas é comum haver desproporções e exageros.

3. DIREÇÃO A inclinação para a direita denota uma viva sensibilidade afetiva e sensualidade. Geralmente pertence a pessoas apaixonadas. Já a inclinação à esquerda, se for muito acentuada, indica dificuldades psicológicas. No mínimo denuncia insatisfações. É comum nos jovens que ainda não conseguiram resolver problemas afetivos.

A inclinação também pode ser passiva, se a escrita é mole e pouco estruturada, o que indica alguém mais conformista. Mas a escrita inclinada e dinâmica demonstra firmeza e determinação.

4. PRESSÃO A grossura e a firmeza do traço no papel exprimem o dinamismo da pessoa e uma certa força potencial ou energia nervosa. O traçado é nítido e decidido.

Pessoas mais frágeis fisicamente tendem a ter escritas leves e consequentemente mais finas. O traçado é mais brando, assim como o temperamento…

5. MOVIMENTO ou velocidade. É uma característica importante já que na vida a evolução é uma constante. Uma escrita estática, com pouco movimento, que é feita letra a letra, lentamente, não é natural e corresponde muitas vezes a personalidades problemáticas. A velocidade, pelo contrário, indica vivacidade.

6. ORDENAÇÃO Mesmo numa folha pautada, há pessoas que escrevem por baixo da primeira linha, outras em cima, umas fazem parágrafos, outras blocos compactos de cima a baixo.

“Ocupar todo o espaço da página é um indicador de precisar ocupar espaço na vida, de reconhecimento, sobretudo se a letra for grande. Se a letra for muito pequenina pode indicar avareza, necessidade de retirar o máximo proveito do espaço que lhe é concedido.”

A margem esquerda corresponde ao desejo de expansão. Pessoas com iniciativa e vontade de avançar tendem a deixar uma margem esquerda maior do que as que precisam de mais tempo para decidir. A margem direita exprime o movimento em relação ao futuro. O normal é ser pequena, desigual ou até inexistente, o que mostra desejo de ir para a frente. Se a margem à direita for muito grande pode haver apreensão face ao futuro.

7. CONTINUIDADE Escrever com letras separadas ou juntas tem significados diferentes. A ligação das letras facilita o movimento cursivo que é o adiantamento do braço. Para quem separa as letras é como se cada letra fosse uma ação, o que corresponde a um espírito mais analítico, que decompõe as tarefas, e a uma vocação técnica. Uma escrita que liga as letras corresponde a pessoas que associam, de modo fácil, factos e ideias, refletindo uma inteligência vocacionada para o mundo social e humanidades. E escrever com letra de máquina? “São pessoas que precisam de se agarrar a um modelo impessoal porque não se querem revelar. Pode ser uma máscara, pelo menos dão prioridade à imagem, que tentam que seja perfeita mas que camufla a verdadeira personalidade.”

 

ASSINE EM BAIXO

Não se pode analisar uma escrita sem ela. “Na assinatura, a escrita liberta-se dos constrangimentos da página e da caligrafia. Pode dizer-se que é a essência da pessoa, revela o que se é, o que se gostaria de ser e o que se tenta ser. Revela um lado social mas também tem uma carga inconsciente forte. Quanto mais semelhante é ao texto mais coerência há na personalidade: revela uma boa aceitação de si. Se é muito diferente pode obrigar a relativizar a interpretação da escrita. A assinatura colocada na margem direita indica sociabilidade, sobretudo se a distância em relação ao texto for pequena. Colocada ao centro ou à esquerda indica personalidades mais contidas. Muito à esquerda: inibição ou mal-estar em relação à sociedade. Quanto mais distante do texto estiver a assinatura (que representa o eu) mais distante a pessoa se sente da sociedade. Quanto ao treino da assinatura, “revela uma procura de nós mesmos, a busca de um sentimento de satisfação, só pela forma depositada na página e do efeito que causa em nós, o que mostra bem o enorme impacto da escrita na psique”.

A ESCRITA PODE CURAR

Os psicólogos podem usar a grafologia como auxiliar de diagnóstico mas também como terapia. A grafoterapia parte do princípio de que os padrões de comportamento podem ser alterados através da mudança consciente das manifestações a que dão origem. “Tal como tomarmos consciência de certos processos da escrita pode ser libertador, mudar a escrita conscientemente também gera mudanças internas.” A explicação pode estar no conceito de neuroplasticidade, isto é, a capacidade de mudar estruturas neurológicas, circuitos cerebrais, associados a determinados comportamentos, através do treino. No entanto deve ser feito com cuidado e sempre com acompanhamento profissional.”

COMO SE FAZ UM RELATÓRIO?

Primeiro passo: escrever numa página branca as motivações para fazer a análise e assinar. Depois convém juntar algumas páginas escritas por si noutra altura, com mais duas ou três assinaturas. Quanto mais material melhor. Idealmente mete-se tudo num envelope e manda-se pelo correio. Tudo é analisado, até a forma como se preenche o envelope, que pode ser mais ou menos espontânea, equilibrada, afirmativa ou, pelo contrário, tímida. O preço pode ir dos e60 em relatórios mais pequenos aos e250 nos mais completos.

ESCREVER OU TECLAR EIS A QUESTÃO

No tempo dos gregos, escrever levava o seu tempo. Usava-se um estilete de madeira aberto na ponta, onde cabiam umas gotas de tinta vegetal. Era quase um ritual. Bastante diferente é a ligeireza com que hoje usamos uma caneta. Mas a tendência é para se escrever cada vez menos e se teclar cada vez mais. Será que ainda faz sentido avaliar a letra na era digital? Luís Philippe Jorge diz que sim: “ Na verdade, quando menos se escreve mais reveladora é a escrita. Uma atividade que fazemos todos os dias permite-nos desenvolver mestria e isolá-la das nossas emoções, mas no que fazemos pouco não temos essa capacidade tão bem desenvolvida, o que faz com que o inconsciente se revele mais no gesto.”

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