Nunca se imaginaria onde está agora e as quatro nomeações para os Óscares vieram com “medo”, disse Jennifer Lawrence a Oprah Winfrey. Foi assim que começou a conversa com a apresentadora mais conhecida do mundo.

A atriz conta que o último ano foi passado com medo que as pessoas se “fartassem” e com alguma insegurança. “Não sei se era o sentimento de ‘tenho mais a perder, há mais pessoas que podem ficar desiludidas’. Não sei explicar”.

O medo tem sido, na verdade, uma constante na vida da atriz, que refere também o “receio de ser sexy” (algo que teve de ser no fime ‘Red Sparrow’) desde 2014, quando as fotografias de Lawrence nua foram divulgadas. “Pensei: ‘não volto a fazer isso. Não vou partilhar essa parte de mim com mais ninguém desde que foi partilhada sem o meu consentimento’. E depois disse que sim a ‘Red Sparrow’ e senti que estava a voltar para trás”.

Sobre o caso das fotografias, a protagonista de Hunger Games assegura: “Preferia que a minha casa tivesse sido invadida”. É isso que é assustador sobre as coisas eletrónicas. Tenho tanto medo com o meu telemóvel e o meu computador. É roubar propriedade intelectual mas também o meu corpo. Foi violador a um nível sexual”.

O abuso foi, aliás, um dos temas mais abordados durante a entrevista. “Não conheço nenhuma mulher que não tenha sido vítima de algum tipo de abuso. Fico triste com as histórias dessas mulheres, mas estou entusiasmada com a mudança que está a acontecer. O livro de regras está a ser reescrito neste momento”, disse.

Jeniffer faz questão de explicar que as pessoas estão “aterrorizadas” com essa mudança, especificamente, os homens, mas ressalva: “Eu fui abusada por uma mulher num filme”, ao referir-se a uma produtora que lhe pediu que “alinhasse nua com cerca de cinco mulheresque eram muito mais magras” que ela, sem referir o filme ou o produtor do mesmo.

Sobre o peso, Jennifer refere que era “consenso geral naquele filme que era gorda, por isso não foi apenas aquela mulher”. “Toda a gente concordou que eu era gorda. E ela teve de ser o porta-voz”, acrescentou. Foi quando pediram à atriz para perder quase sete quilos em duas semanas, com referências sexuais à mistura. A conclusão foi a mesma que em muitas conversas sobre Hollywood este ano: “Foi abusivo”, completou Oprah.

“Falei com mulheres. Falámos sobre formar uma comissão. É tão triste porque todos os atores, quando estão a começar, não há realmente muitas opções. Nesse filme, liguei ao meu agente, liguei a toda a gente. É como se não houvesse nada que alguém pudesse realmente fazer porque esse comportamente está normalizado. E depois começas a ter mais poder, e as pessoas começam a ‘lixar-te’ menos. As pessoas no início da carreira não querem abanar o barco, porque se o fazes, vão te chamar difícil”, disse sobre mudar o paradigma atual. “Temos de pôr as nossas cabeças a pensar em conjunto e perceber como podemos não deixar esse momento [de abuso] passar”, e acrescentou: “Algo tem mesmo de ser feito”.

Oprah aproveitou a entrevista para finalmente abordar o assunto Harvey Weinstein com a atriz, que via o produtor como uma figura “paternal”. “Temos a responsabilidade de dizer alguma coisa; todas trabalhamos com ele, mas toda a gente precisava de um momento. Falando por mim, conheço-o desde os 20 anos, e ele sempre foi simpático – menos nos momentos em que não foi, e depois eu chamei-lhe idiota, e seguimos em frente. Ele foi paternal para mim. Então precisava de um momento para processar tudo porque achei que o conhecia, e de repente ele estava a ser acusado por violação”.

A noção de abuso tem de ser mudada, aos olhos de Jennifer Lawrence. “É por isso que é tão importante falar sobre abuso, todas as diferentes formas de abuso, porque ele não lhe tocou com um dedo [Harvey Weinstein na mulher que o denunciou] e eu fiquei gelada até aos ossos [só de ouvir]”.

A apresentadora falou sobre Jennifer “abanar o barco” no início da carreira quanto à diferença de pagamentos entre homens e mulheres para o mesmo trabalho. Esta tem sido uma das suas lutas. “Se pedires mais [dinheiro], vamos contratar outra pessoa, e todo o filme desaba. Eles preferiam que um filme inteiro desabasse do que pagar-me de forma justa”.

“És politicamente frustrada”, disse Oprah, para introduzir a pergunta sobre o que vai fazer por isso. Pragmática, Lawrence explicou a angariação de dinheiro para a organização Represent.Us, na qual faz parte do Conselho Administrativo, e dos circuitos que vai fazer por escolas e universidades para falar com os estudantes. “Quero viajar pelas áreas de onde sou para as pessoas perceberem que a corrupção é um assunto completamente não partidário. E queremos fazer uma conferência de imprensa onde as únicas pessoas a fazer perguntas sejam os alunos. Queria [também] ajudar a passar um pacote de leis [contra a corrupção no governo]. Poderíamos aprovar legislação em cada estado para ajudar a para a corrupção no governo. Adorava fazer aprovar leis que ajudem os pais das celebridades a levar os filhos para os sítios sem terem de se preocupar com os paparazzi”, explicou.

Jennifer Lawrence admitiu ainda: “A minha paixão política quase se transformou numa obsessão. Quero dizer, acho que nunca se fica satisfeito, mas quando ficas satisfeita com o teu lar e com a tua vida pessoal, começas a olhar para o mundo e pensas ‘Como é que conserto isto? O que podemos fazer?'”

A atriz quer conhecer Trump e que tem preparado um “discurso bastante bom e que acaba com um Martini na cara dele”. “Vou-te dar uma dica – não é nada simpático. Não quererias que to dissesse a ti”, avisa Jennifer.

A conversa entre Oprah e Jennifer Lawrence acabou por referir um almoço entre as duas em casa da apresentadora, quando ainda não se conheciam. Jennifer confessa que ouviu nesse dia “a coisa mais inteligente” e o melhor conselho que já ouviu. “Disseste-o baixinho. Estavas a falar e depois, baixinho, disseste ‘Tens de ensinar a alguém como tratar-te'”.

Ainda assim, confessa a lição que levou mais tempo a aprender: “Ainda estou a aprender a acalmar-me. Os meus pensamentos são tão gigantes. Vou de uma pequena ideia até daqui a 40 anos e penso demais sobre tudo e nada acaba por ser realmente feito. A preocupação não faz nada. Então, viver no momento e fazer tudo passo a passo é algo que eu ainda não domino. Ainda estou a trabalhar nisso”.

“Louca” e talvez “honesta e leal”, diriam os amigos sobre Lawrence, que completa a frase “Daqui a 20 anos, o mundo vai ser…” com “Justo. Isso abrange a fome, abrange muitas bases”. Na entrevista a Oprah Winfrey, disse ser feliz e realizada “a maior parte do tempo”. Vê-se como espiritual, mas não religiosa nem ateia e partilhou a sua frase preferida (da sua autoria): “Definitivamente não o deveria ter feito, mas estou em paz sabendo que não poderia não o ter feito”.

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