Como explicar as meninas más às meninas boas

Britney Spears passou de virgem a perturbada com uma rapidez assustadora: o mundo inteiro assistiu a tudo quando ela rapou o cabelo, entrou para uma clínica, saiu da clínica, e acabou por perder a custódia dos filhos depois de uma maternidade apressada, um casamento atribulado e um divórcio muito muito litigioso. A irmã, Jamie Lynn, engravidou com 16 anos.


A actriz Lindsay Lohan colecciona estadas em clínicas de reabilitação como as outras adolescentes vão a campos de férias. A socialite Paris Hilton passou 23 dias na prisão e conseguiu fazer com que o avô preferisse entregar a sua fortuna a instituições de caridade do que largá-la nas mãos da neta. A Amy Winehouse, para mal dela, ainda ninguém conseguiu meter na prisão, mas pouco falta: é a campeã das sem-juízo. Está sempre perto de ganhar um Grammy. Também está sempre perto de uma morte súbita enquanto não se tratar das drogas, álcool, automutilação e bulimia.


Estas já não são meninas mimadas: são adolescentes a quem a fama, o dinheiro e o descontrole levaram a excessos demasiado… excessivos, mesmo para celebridades. Problema: todo este circo de autodestruição passa nas televisões, revistas e sites de internet, e as meninas adoram-nas.


A pergunta passa pela cabeça de qualquer mãe: como é que se responde a esta admiração? Será possível ensiná-las a admirar a música da Amy sem admirar forçosamente o seu estilo de vida?

Explicar o que é um famoso


"Adoro a Lindsay Lohan," admite Mariana, de 12 anos. "Sei que tem uma vida complicada, mas acho que é uma actriz fantástica. Já me explicaram que a fama faz aquilo às pessoas, mas eu se fosse famosa não ia ficar assim. Também gosto da Amy Winehouse, droga-se mas tem uma voz linda." E a Britney? Declara decididamente: "A Britney é burra." Bem… uma a menos.


Pelos vistos, a adoração não as torna completamente acríticas, mas de qualquer maneira é um assunto que começa a preocupar as mães de todo o mundo. "Não é que eu ache que a minha filha vá crescer a pensar ‘a Jamie Lynn Spears engravidou aos 16 anos, eu vou fazer o mesmo’," nota a jornalista Kathleen Deveny, autora de um artigo para a revista americana ‘Newsweek’ chamado precisamente ‘Obrigada, Jamie Lynn’. "Acredito que as crianças aprendem os seus valores em casa e que os meus anos de lavagem ao cérebro terão mais efeito do que uma famosa de meia-tigela que decidiu deitar-se com um qualquer. Também não é o sexo que me preocupa. É a gravidez que me põe doida. A minha filha tem oportunidades ilimitadas à sua frente: no seu mundo, as raparigas vão para a faculdade e podem chegar a Presidente. E pensar que ela pode desperdiçar tudo isso para ser mãe aos 16 anos, apavora-me."


Kathleen acaba por concluir que, provavelmente, está a projectar os seus medos na filha e que essa não é a melhor estratégia. Decide não abordar o assunto com ela. Mas, e se ela lhe falar nisso? Que dizer sobre a Jamie Lynn? "Se isso acontecer, vou falar com ela sobre a diferença entre um actor e uma pessoa real. Sobre o que acontece quando se é famoso. Vou dizer-lhe que, quando esses miúdos são mesmo famosos, são autorizados a comportar-se como adultos, e que os pais têm muita dificuldade em protegê-los."

De onde vem o fascínio?


A mesma opinião tem a psicóloga Rita Xarepe. "Não acho que a vida dessas celebridades seja um problema, acho até que pode ser uma óptima oportunidade para conversar sobre muitas coisas importantes: a sexualidade, a integração numa sociedade que tem regras, como manter a nossa liberdade individual sem arruinar a nossa vida e a dos outros, até que ponto é que estas raparigas são de facto livres… Por que é que estas pessoas agem assim? O que é ser famoso? Como é que se lida com a fama e o que é que ela faz à vida das pessoas? Estas pessoas são um bom exemplo de como ser famoso e ter essa vida deslumbrante que atrai tanta gente afinal não é assim tão bom."


Mas afinal, de onde vem o fascínio pelas rebeldes famosas? "Disso mesmo: da rebeldia que essas raparigas representam", afirma a psicóloga. "Elas não têm regras, e isso para crianças que vivem espartilhadas numa vida de deveres, é muito aliciante. Elas vêem mulheres adultas que continuam a parecer crianças. Fazem coisas que até espantam os outros adultos. Como é possível que um adulto possa fazer tantas asneiras? Os pais e os outros adultos que elas conhecem não são assim. E para quem vive num mundo onde tudo tem de ser negociado, onde tudo são regras, onde tudo depende do que podem ou não podem fazer, o mundo da Britney e da Amy é fascinante."


Mas o espectáculo destas ‘anfíbias’, com um pé no mundo dos adultos e outro no das crianças, nem sempre é agradável de ver… "Claro que não. São maus exemplos de coisas boas: elas simbolizam a liberdade e a criatividade mal usadas. Se pensarmos bem, as crianças até são capazes de ser mais críticas do que pensamos: mas o fascínio continua lá. E no fundo, não é o que acontece também connosco?"

Adultas que brincam


Sim, elas podem achar graça à Paris Hilton porque ela é tonta e faz palhaçadas. Mas é possível dar um contraponto em casa: e não é pela seriedade, defende Rita. "Se elas tiverem esse lado da palhaçada, da brincadeira, no dia-a-dia, se souberem que há alturas em que podem fazer o que lhes apetece, não vão ficar tão fascinadas pela rebeldia alheia. Ou seja, se tiverem pais que brincam com elas, até vão achar a Paris um bocado tonta, mas se não tiverem, aquilo parece-lhes fantástico."


As crianças que idolatram essas pessoas são geralmente as mais sobrecarregadas e espartilhadas com regras e imposições. Mas se a família as deixar ser quem são, não vão ficar tão vulneráveis ao fascínio das rebeldes famosas. "Obviamente, há alturas em que se tem de dizer ‘não’", lembra Rita, "mas este ‘não’ tem de ser explicado, porque se as miúdas não percebem o que é que está em causa, o ‘não’ é apenas exterior, não o interiorizam. O que é que acontece: da próxima vez que puderem e não houver pais por perto, vão fazê-lo de certeza."


É indispensável perceberem que uma regra não é um braço-de-ferro com os pais, mas que tem uma razão de ser. Se perceberam isto, podem escolher: o ‘não’ dá-lhes liberdade. "Se tiverem de fazer uma escolha, elas podem pensar: ‘Sei que não devia fazer isto, mas apetece-me.’ Fazem mas optam, e optam com consciência", explica a psicóloga. "Lembro-me quando era pequena que a minha mãe me explicava tudo, e rematava sempre com ‘mas tu é que sabes’. Era fatal. Passava-nos a responsabilidade para cima dos ombros. Acabávamos por fazer sempre o que ela queria."

Aprender a respeitar as regras


Entre o brilho da Britney e a baça rotina de todos os dias, onde é que fica a vida das raparigas? "Obviamente, tem de se lhes ensinar a respeitar as regras", resume a psicóloga. "Mas se elas perceberem que, dentro das regras da sociedade, têm liberdade para criar as suas, se perceberem que dentro do respeito pelos outros cabe a criatividade individual, tudo correrá bem."


Então e não se pode oferecer-lhes outro tipo de ídolo? "Poder pode," ri a psicóloga, "mas que graça tem um ídolo oferecido por um pai ou mãe? Agora, se os próprios pais forem pessoas interessadas e interessantes, os filhos vão estar atentos ao que eles fazem, e ouvi-los e aceitar as suas propostas. Claro, se são uns chatos que não ouvem os filhos e só sabem dar ordens mas depois eles próprios não cumprem nada do que mandam, toda a conversa vai cair em saco roto."


Ou seja, torne-se o ‘ídolo’ da sua filha, e não serão as Britneys deste mundo que lhe farão sombra.


ELAS CRESCEM MAIS DEPRESSA
Mães e pais afirmam que as meninas crescem actualmente mais depressa. Aos 8 anos já querem andar de umbigo à mostra, aos 12 já têm namorado. Será também isso resultado dos maus exemplos célebres? "Não me parecem que sejam a causa", defende Rita Xarepe. "Não é por imitarem a Britney que elas crescem mais depressa. Elas crescem mais depressa porque o mundo agora também roda mais depressa." E não perdem fases importantes? "Nós se calhar dantes também perdíamos, por outras razões", lembra Rita. "Não acho que o mundo delas seja dramático, desde que sejam bem acompanhadas. Tudo depende do bom-senso dos pais e educadores. Claro que têm de estar mais atentos, porque agora, como tudo é mais rápido, o que descamba, descamba logo."


É PRECISO SER BONITA E LOURA?
Além da vida caótica, Britney, Jamie, Amy e Lindsay têm mais em comum: são louras e giras. Será que a ditadura da beleza afecta as suas fãs mais novas? Como é que se lhes explica que se pode vencer na vida mesmo não sendo loura? "É difícil", admite Rita Xarepe, "principalmente quando elas próprias vêem que no dia a dia delas, na escola, as mais giras são as que têm a vida mais facilitada. Mas com o tempo, se forem bem acompanhadas e valorizadas pelos pais, vão descobrindo que podem não ser iguais à Britney mas que são inteligentes, bondosas, têm jeito para qualquer coisa, e vão aprendendo a apreciar-se por aquilo que são." Mas, alerta, não é um processo rápido: "Tudo isto é uma aprendizagem que dura uma vida." Mas nem tudo é mau: "Na idade certa, essa mensagem da feminilidade, por outro lado, até pode ser positiva: elas aprendem que têm a liberdade de mostrarem o que são."

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