Ter um irmão é ter alguém com quem brincar, com quem trocar confidências, com quem partilhar segredos, com quem desabafar quando a vida não nos corre pelo melhor. Ter um irmão é ter alguém que suporta connosco o peso das expectativas paternas. Ter um irmão é ter a certeza de que nunca estaremos sozinhos. Mas ter um irmão é também a angústia da rivalidade: é ter alguém que quer o nosso bolo, a nossa boneca, o nosso carrinho, a fatia de piza, a perna do frango, o colo da mãe. Ter um irmão é viver em alerta vermelho, na constante defesa do nosso espaço. E embora pareça que se fala de bolos ou livros, é de amor que eles falam sempre.

Cabe aos pais a tarefa sensível de administrar estas competições, estes fantasmas, medos e rivalidades: mas muitas vezes, eles próprios se encontram numa encruzilhada. Afinal, ouvimos desde pequeninos que se deve ‘dar igual’ a todos. E depois, muitos pais já foram (e são) eles próprios irmãos de outras pessoas. Quantos deles passaram por essas mesmas rivalidades, quantos deles não as resolveram?

O que se dá a um filho tem de se dar a outro? Ainda por cima, as crianças vêem tudo como símbolo de amor eterno (se se dá um chocolate a um e não dá ao outro é porque se gosta mais do primeiro) e cobram logo: Quando não cobram mas sentem, ainda é pior: fica um ressentimento surdo que se prolonga durante anos sem que os pais se apercebam. Mas tem de ser tudo sempre assim dividido?

Ser justo não é dividir tudo

‘Nesta área, a justiça do Rei Salomão não se aplica’, afirma a psicóloga Tânia Pereira Dinis, Psicóloga Clínica do NUPE – Núcleo de Psicologia do Estoril. ‘Dividir exactamente ao meio ou ter as mesmas regras ou dar as mesmas coisas não funciona entre irmãos.’

Mas a primeira certeza que os pais precisam de ter, afirma Tânia, é que uma das maiores riquezas na vida de uma criança é ter um irmão.
Não há brinquedo que se lhes compare em termos de impacto e resultados. É mais interactivo e imprevisível que qualquer jogo ou consola, e é na interacção e na brincadeira – e, também, nos conflitos que põem os cabelos em pé aos pais – que as crianças aprendem a gerir pequenas frustrações, a negociar, a encontrar o seu lugar na família e no mundo, a aprender a partilhar, não só bens materiais, mas também o tempo de televisão’.

A segunda certeza é que igualdade no sentido matemático aqui não se aplica: Tânia sugere substituí-la por ‘equivalência’, ‘flexibilidade’ e ‘aceitação da diferença’.

Ou seja: as crianças são todas diferentes, e como tal, não podem nem devem ser tratadas ‘da mesma maneira’. Devem é ser tratadas com o mesmo grau de justiça e atenção, que é uma coisa diferente. ‘Estas diferenças, desde que equilibradas com bom senso, não significam que os pais gostem mais de um filho que do outro, mas sim que tentam respeitar a individualidade de cada um’, esclarece a psicóloga.

Toda a gente se lembra de alturas em que uma criança precisa de mais atenção, por algum motivo. ‘Não é o fim do mundo se em dada altura tiverem de se concentrar mais num filho que noutro, desde que não seja sempre o mesmo, claro. Pode-se tentar incluir o filho menos problemático na procura de formas de ajudar o outro, mas sem descurar as suas necessidades.’

Não esqueça o irmão sossegado

Acontece muitas vezes que o filho mais ‘atinadinho’ acaba por receber menos atenção materna, precisamente porque ‘não chateia’. ‘É frequente ouvir frases como ‘nunca tenho que me preocupar com o João, faz tudo sozinho e é muito responsável, agora com a Maria tenho que estar sempre de volta dela para as coisas correrem bem’, nota Tânia. ‘Sem que os pais se apercebam, por vezes os filhos mais ‘atinados’ acabam por ser injustamente penalizados pelo seu bom comportamento. Se o João não precisa de ser ajudado, então os pais podem recompensá-lo passando mais tempo com ele, o que é não só uma boa forma de recompensar o seu bom comportamento, como pode ser uma forma de incentivar a Maria a ser mais autónoma se quiser o mesmo tipo de benefícios.’

O mais importante é estar atento às necessidades da criança e corresponder, mostrar que prestam atenção aos seus pedidos, aos seus interesses.’Por exemplo: no Natal é mais importante dar o que pediram, do que garantir que as prendas sejam todas do mesmo preço. Se os pais não derem importância isso, os filhos normalmente também não dão.’

Claro que as crianças são humanas e têm os mesmos impulsos que nós. Um deles, nota a psicóloga, é a tendência para achar que a galinha da minha vizinha (ou neste caso, da minha irmãzinha…) é sempre melhor que a minha: ou seja, querem as coisas do outro só porque são do outro: é uma demonstração de poder tão básica como a Humanidade. Solução? ‘Apenas incentivar a partilha, acompanhada do respeito pelas coisas que são dos outros e o seu direito a decidir quando e se querem partilhar.’

O tabu do filho preferido

E como é que se reage às queixas: ‘Mas tu gostas mais dele!’ ou ‘Dás sempre a razão à Rita!’? Tânia aconselha bom-senso e reflexão: ‘Importa distinguir se a queixa resulta apenas do calor do momento, se é uma forma de chantagem emocional, de manipular os pais para que se sintam culpados e cedam ou se, de facto, traduz uma percepção, mesmo que errada, da criança’. Como? ‘Conversando com ela, percebendo o que a levou a achar isso, e, caso a criança aponte situações pertinentes, alterá-las.’

Mesmo quando temos as melhores intenções, nem sempre a interpretação que as crianças fazem é aquela que nós pensamos e a única forma de ter certeza, é falar, falar muito, para se torne um hábito. No entanto, Tânia acalma os pais: ‘Estas situações devem merecer um olhar atento mas não merecem seguramente que os pais, já tantas vezes sobrecarregados, acrescentem mais um fardo de culpa à sua carga.’

Noutros casos, existe de facto uma situação ainda tabu, que é o filho preferido. É normal termos preferência por uma das crianças, que até por feitio pode ser mais compatível connosco? E como é que se lida com essas preferências? ‘É preciso saber se a preferência é real ou não’, nota Tânia. ‘O facto de uma criança se queixar ‘tu gostas mais da Maria’, não significa que seja verdade. É fundamental os pais conversarem entre casal, pois nem sempre somos os melhores juízes do nosso comportamento, especialmente em relação às coisas que não fazemos intencionalmente.’

Se a preferência é real, convém reflectirem sobre porque é que isto acontece. É habitual os pais sentirem-se mais identificados com o filho que acham mais parecido consigo, ou o mais bem comportado ou dedicarem-se mais ao que é mais reguila ou ao que é mais novo.’ Quantas vezes já ouvimos ‘és tal e qual como o teu pai/tua mãe’… ‘Estas polarizações são frequentes nas famílias, criando-se ligações preferenciais dos filhos com cada um dos pais. Pode ainda acontecer que um dos filhos tem mais atenção porque está a dar continuidade aos sonhos dos pais ou porque tiveram alguma doença grave que instalou nos pais o pânico do que lhe pudesse acontecer.’

À descoberta de cada criança

Um estudo da Universidade de Illinois indica que as crianças tendem a ‘fiscalizar’ mais de perto a imparcialidade da mãe do que do pai. ‘É possível, sabendo que na nossa cultura as crianças ainda passam mais tempo com a mãe, que é quem habitualmente conhece melhor as rotinas, os hábitos, as pequenas implicâncias, as estratégias mais eficazes para levar a água aos moinhos de cada um’, explica Tânia. Ou seja, as crianças talvez desculpem menos as falhas da mãe porque esperam que seja capaz de descobrir ‘magicamente’ quem tem razão ou quem começou a briga. ‘O pai beneficia habitualmente de mais desconto porque ‘não sabe’, ‘está sempre distraído’ ou ‘não vê, porque não é ele que vai buscar à escola’, etc.’

No meio de tantos pormenores e de tantos equilibrismos, o que se pode fazer mais para prevenir desequilíbrios e injustiças na família? O fundamental é descobrir aquilo em que cada criança é especial: ‘seja na escola, no desporto, nas artes, seja na relação com as pessoas, que é um talento igualmente importante.’

Estas rivalidades entre irmãos serão mais constantes quanto menos tempo os pais tiverem para estar com eles (o que é lógico: um bem escasso é mais precioso). Logo, todos os filhos devem ter momentos a sós com os pais, para além do tempo passado em família. Os pais devem criar hábitos de levar cada um à vez a passear ou lanchar ou fazer algo em conjunto.

E por fim, aconselha Tânia, ‘os pais devem procurar tirar prazer do seu tempo com cada um dos filhos, olhando para lá da rotina do dia-a-dia, que é sempre exigente e cansativo e que por vezes nos deixa com um pouco menos de paciência para os mais pequenos e para programar actividades que sejam igualmente interessantes para todos.’

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