Crianças

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Há uns tempos, a minha amiga Joana comunicou-me que se ia divorciar. “Não aguentava mais!”, desabafou. “E não é só ele: esta geração de homens está toda transtornada. São uns egoístas imaturos com a inteligência emocional de uma ervilha, incapazes de falar do que sentem, aliás, incapazes de sentir seja o que for com alguma profundidade. E sabes de quem é a culpa?” Não sabia, mas algo me dizia que ela ia revelar-me. “Das mães deles!”

Na altura, confesso que tive uma certa vontade de rir, mas depois fiquei a pensar se ela não estaria certa. Se eu tivesse um filho, queria que fosse como estes homens que eu vejo todos os dias a saltarem de relação em relação sem aprenderem nada da experiência, a colecionarem crianças e complicações? Hmmm. E, então, qual será a ‘receita’ para criar um homem com um comportamento do qual, daqui a 20 anos, nenhuma nora me possa acusar?

Procurei a pessoa ideal para me guiar na arte de criar um rapaz, a psicóloga Susana Lucas, professora no Instituto Piaget, terapeuta de casal e autora do primeiro estudo português sobre violência no namoro, além de orientadora de muitas ações escolares sobre sexualidade.

Geração de imaturos

Falei com ela depois de uma noite de pesadelos em que uma serigaita me dizia: “Ai D. Catarina, desculpe que lhe diga, mas o seu Zé Alberto tem a inteligência emocional de uma ervilha…” hehehe

E, então, estamos a criar uma geração de imaturos emocionais? “Pois estamos” – confirma Susana. “É interessante que, depois de tantos progressos, homens e mulheres pouco ou nada mudaram em termos emocionais. Temos imensa informação, sabemos tudo o que temos de fazer e, no entanto, há uma grande resistência em atingir a maturidade emocional.”

Ou seja, exigem-nos desde bebés que tenhamos boas notas, sejamos combativos, funcionais, produtivos, mas quanto à parte emocional, nada. Ensinaram-nos a ler e a escrever, mas ninguém nos ensinou o essencial: “Como gerir emoções, como nos controlar em situações adversas, como nos colocar no lugar do outro, como ter a coragem de resolver os nossos problemas, alguém ensina isto às crianças?”, pergunta Susana. “É por isso que criámos uma geração com baixa resistência à frustração. Protegemo-los de mais, naquela ambivalência de os querermos ao mesmo tempo autónomos e dependentes de nós. Mas quando eles choram, não conversamos sobre isso. Queremos é que se calem depressa.”

E para os rapazes piora um pouco. “Continuamos a tratar de forma diferente rapazes e raparigas”, confirma Susana. “E ainda hoje é espantoso como o modelo de educação masculino continua baseado na agressividade. Há uma enorme resistência em educar para sentir.”

Porquê? “Por várias razões: porque as pessoas têm medo de um desaparecimento das diferenças de género, porque temem que isso fragilize a criança, para evitar que esta seja vista como diferente e ridicularizada na escola, porque não veem qualquer utilidade em educar para as emoções, e porque os próprios pais não o sabem fazer…”

O medo do compromisso

Não saber dizer o que nos vai na alma torna-nos inseguros: se o terreno das nossas emoções nos é desconhecido, seremos cegos no mapa emocional dos outros. Resultado: adolescentes e jovens adultos com grande imaturidade emocional, com medo da intimidade verdadeira com outra pessoa.

“O medo do compromisso de que tantas mulheres se queixam em relação aos homens tem precisamente que ver com a incapacidade de lidar com a frustração”, explica Susana.

“Entregar-se ao outro mete-nos medo, não é bom que alguém conheça as nossas fraquezas porque pode abandonar-
-nos, e depois ter outra pessoa na nossa vida dá trabalho: temos de abdicar de muita coisa, partilhar os nossos segredos, as nossas emoções. Alguém disse que um casal é eu, tu e nós.”

Eles agora não sabem ser nós? “Exatamente. Um compromisso exige que se abdique de muita coisa, e eles nunca aprenderam a abdicar do que quer que fosse. A juntar a isto, temos um mundo que nos oferece tudo, e onde as pessoas estão disponíveis com muita facilidade.O que está a dar neste momento são os sites de ‘speed dating’, onde se anuncia que em menos de meia hora se encontra o par ideal.”

Isso é o sonho de qualquer mulher, certo? O príncipe encantado, com pouco trabalho, e já! [risos] “Pois é… Não queremos uma relação profunda, mas superficial, porque aprender a crescer a dois dá trabalho: aprender a ouvir o outro, a resolver situações de conflito, a perceber quando há um problema, tudo isso implica uma grande consciência das nossas emoções…”

ABC das emoções

E como é que se muda isto? “Falando destes assuntos, na família, na escola, no infantário. Vou muito a escolas falar de sexualidade, mas verifico que, mais urgente do que falar-lhes dos métodos contracetivos, é falar-lhes dos afetos: o que é um compromisso, a intimidade, a paixão, o saber dizer não, o saber dizer o que me vai na alma sem ser agressivo…Tudo isto precisa de ser trabalhado.”

A internet veio baralhar os dados e voltar a dar. É aí que eles agora encontram par, que (enfim…) comunicam. O problema é que muitos deles não aprendem comunicação não-verbal, só sabem ler o que de facto está escrito, mas não sabem ‘ler’ uma expressão, uma ironia, um sorriso no rosto do outro.

“E a própria internet em si pode ser motivo de rutura. Na minha consulta de sexologia recebo imensos casais que não comunicam porque chegam a casa e vai cada um para o seu computador… E se não falam entre si, obviamente que também não vão falar com os filhos…” E aí temos a pescadinha de rabo na boca.

E, então, para concluir, é mau ser-se um menino da mamã? “Tenho um filho e uma filha gémeos, e ambos são meninos da mamã”, ri Susana. “Acho que é bom ter carinho e mimos, e também é bom ter alguém que nos chama à razão quando erramos. É bom ser menino, e menina, da mamã sem que a mãezinha lhes faça tudo na vida e os torne totalmente dependentes.”

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