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Toda a gente já foi (ou é) ex-mulher, ex-namorada de alguém. Que tipo é você?

– A ex inimiga

No fundo no fundo, é a tentação de todas as ex. E é o pesadelo de todos os homens, uma espécie de ‘Atracção Fatal’ tornada realidade. Quer dizer, se se fizesse uma estatística, se calhar até nem se encontravam muitas candidatas, porque ser ex inimiga dá imenso trabalho: é preciso saber a que horas ele sai para lá ir furar os pneus, é preciso ter disponibilidade para andar a segui-lo de bar em bar a entornar-lhe cerveja gelada pelo colarinho, é preciso coragem para interromper um jantar de amigos e cair-lhe em cima com todos os raios e trovões, ou aparecer no escritório com a Ritinha e o Marquinho pela mão, a gritar que não lhes paga a pensão desde 1984, ou andar a telefonar para todas as namoradas dele a contar-lhe todas as sacanices de que ele é capaz, ou a impedi-lo de ver os filhos com a desculpa que ‘quando éramos casados nunca lhes ligaste nenhuma e agora é que queres ir com eles ao Oceanário’.

– A ex desaparecida

Não há muito a dizer. É isso mesmo: divorciou, morreu. A ex desaparecida acontece na esmagadora maioria quando não há filhos, caso contrário é difícil que ela diga: “Então pega aqui na Aninhas e no Joãozinho que eu vou ali comprar cigarros” e nunca mais volte (embora haja casos, como se sabe). Escusado será acrescentar que a ex-desaparecida é o sonho de todos os homens: vê-la desaparecer ao pôr-do-sol como o Lucky Luke, sem deixar saudades nem memórias nem rasto, deixando a casa livre das coisas dela e a vida livre do peso dela, para que ele possa refazer tudo, como se nada se tivesse passado. Mas como a vida não é assim tão simples, a maioria das ex desaparecidas tem tendência para se transformar em ex-fantasma e aparecer na ‘Caras’ a dizer muito mal dele.

– A ex fantasma

Há várias formas de uma ex se tornar fantasma. Ou porque o assunto ficou mal resolvido. Ou porque algum deles ficou atormentado pelos remorsos. Ou porque ela desapareceu de repente num dia de tempestade e deixou a casa cheia com os livros dela e os CDs dela e o perfume dela. Ou porque ela se recusa a aceitar a desunião e aparece de vez em quando, deixa-lhe mensagens no telemóvel, liga-desliga e/ou parte-lhe o retrovisor, nos casos mais dramáticos. A ex-fantasma aparece quando menos se espera. Ele vira a esquina e dá de caras com ela, mais gira e mais magra. Ele abre uma revista e ela está lá na primeira página, numa casa no Alentejo vestida de nativa com um chapéu de palha, estiraçada numa rede e a dizer muito mal dele. Uma ex-fantasma também pode existir só na cabeça dele, que são os casos piores. Está-se à mesa e de repente ele diz: “A Joana é que gostava muito de canja”, e pronto, está o caldo entornado.

– A ex melhor amiga

Geralmente ninguém percebe por que é que se divorciaram. Ele passa o tempo a pedir-lhe conselhos, ela telefona-lhe para saber se ele quer vir ao teatro com ela, à sexta-feira é dia de cafezinho juntos, frequentam o mesmo ginásio, fartam-se de dizer como um divórcio pode ser uma coisa civilizada e de se apresentarem como a prova disso, e todos os outros casais de divorciados, para se consolarem, dizem que aquilo não é normal. A ex-melhor amiga é o pesadelo da actual mulher, a não ser que a actual mulher esteja mesmo segura no seu posto. Geralmente a coisa acaba por rebentar: ou ele volta para a ex, ou ele acaba de vez com essas amizadezinhas, porque as actuais não aguentam tanta ‘civilização’.

– A ex praticamente da família

É uma variante da ex-melhor amiga, com a vantagem de se ter tornado, por ironia do destino, amiga de toda a família. Ela fica em casa a tomar conta das crianças se o ex quer sair com a actual, ela dá explicações de matemática ao Luisinho, ela vai à praia com eles ao domingo, ele é operado e ela faz turnos com a mulher para lá ficar no quarto com ele, ela continua a ir tomar chazinho com a ex-sogra, ela até vai às compras com a actual, embora isso já não seja muito bem visto porque ele achará que estão a dizer mal dele pelas costas e a comparar tudo aquilo para que ele não tinha jeito (fazer a cama e escolher melões). Geralmente, uma ex só tem alguma probabilidade de se tornar praticamente da família no caso de um divórcio muito muito muito amigável, no caso de nenhum dos elementos ter alguma vez estado a morrer de paixão pelo outro, no caso de não haver filhos (se houver, é mais complicado juntar a criançada toda) e no caso de a ex não estar interessada em refazer a sua vida ao lado de outra pessoa que tenha mais jeito para escolher melões.

– A ex vítima

Há as verdadeiras vítimas e as falsas vítimas. As verdadeiras vítimas são as que foram abandonadas com três filhos nos braços, as que foram trocadas pela melhor amiga, as que foram de férias com ele e voltaram sem ele, as que o aturaram durante 34 anos ao fim dos quais ele lhes comunicou que não aguentava a forma como ela comia a sopa, e as que lhes facilitaram o divórcio só para perceberem, quatro meses depois, que ele não tencionava pagar-lhes nem um tostão para os filhos. As falsas vítimas são as que sempre acharam que iam ficar casadas a vida toda e não aguentaram uma mudança de planos. Estranhamente, são as falsas vítimas que costumam dar mais trabalho e fazer mais barulho, talvez para compensar a ausência de argumento.

– A ex má da fita

A culpa foi dela, diz ele. Toda dela. Foi ela que começou a sair com o Jorge para ir às sessões da meia-noite da Cinemateca. Foi ela que desatou a ficar no escritório todas as noites enquanto ele deitava as crianças e lia todo o ‘Harry Potter’ em voz alta e fazia as vozes do ‘Capuchinho Vermelho ‘ incluindo a da avozinha. Foi ela que desapareceu para um congresso em Islantilla enquanto ele ficava em casa com os pés de molho num alguidar. Foi ela que lhe pôs as malas à porta quando ele, coitado, murmurou que estava um bocadinho farto da situação. Claro que a outra versão nunca ninguém a ouviu porque ela assim que se assinaram todos os papéis declarou que nunca mais o queria ver na vida e desapareceu.

– A ex espia

Sabe tudo sobre ele. Separaram-se há dez anos, mas ela continua a saber tudo sobre ele. Sabe que à quinta feira é o dia em que vai pôr o carro a lavar, e como é que se chama a namorada, e que embirra com o novo chefe, e que o emprego novo não é exactamente o que ele queria, e que nunca mais ninguém lhe engomou decentemente as camisas, e que nunca mais teve uma conversa intelectual sobre a Janis Joplin, e que precisou de arrancar os dentes do siso (que ele nunca teve. O siso) e que nunca mais vai arranjar outra mulher tão boa como ela. A ex espia tem métodos subtis (e menos subtis) que foi aperfeiçoando ao longo dos anos: ouvir as conversas dos filhos ao telefone, interrogá-los assim que chegam dos fins de semana, ir visitar a ex-sogra para levar uns pastelinhos de nata, como quem não quer a coisa, e ir perguntando aos amigos, aqui e ali. A ex-espia só pode melhorar se arranjar um novo amor absorvente, o que é difícil de acontecer enquanto estiver mascarada de polícia política.

– A ex da mamã

Quando lhe chegaram as notícias do divórcio, a mãe dele teve quase mais pena do que ele. A Patrícia era a legítima, e todas as outras são lixo. Aliás, isto não quer dizer que ela sempre tenha amado a Patrícia, é perfeitamente possível que até lhe tenha feito a vida negra enquanto estava casada com o filho, mas uma coisa muito diferente é ele ir agora divorciar-se da pequena coitada para se concubinar com outra. Ele tentou levar a Clara a jantar lá a casa, e a mãe serviu-lhe a sopa sem sal, pôs-se a ver a telenovela e nunca mais lhe ligou nenhuma. Sempre que ele tem de ir a casa da ex, encontra lá a mãezinha sentadinha ao lado dela no sofá a dar-lhe chazinho de tília e a deitar, a ele, olhares de ódio enquanto a Patrícia funga para cima do lencinho de seda que ela lhe ofereceu (quando até então só lhe tinha dado panos para a loiça comprados na loja dos trezentos). A mãe dele só passará a gostar da Clara se ele passar a namorar a Alexandra, mas mesmo assim não há amor como o primeiro.

– A ex pirata

Ah é? Ah ele trocou-a pela badameca da Cláudia? Então já vai ver como elas mordem. A ex-pirata não se fica a chorar nos braços da mãe entre as almofadinhas de coraçõezinhos encarnados enquanto ele vai passear para o Guincho. A ex-pirata saca-lhe tudo o que pode como compensação pelo seu coração partido: a casa, o carro, os CDs, os de vinil embora não lhe sirvam para nada e ele seja coleccionador, o serviço de chá, embora odeie chá, o cão, embora planeie abandoná-lo, e o aquário, embora esteja vazio desde que o tubarão comeu os outros. A anedota preferida dela é aquela da menina que queria a Barbie Divorciada porque trazia o carro do Ken, a casa do Ken e o telemóvel do Ken. A ex-pirata só descansará quando o vir depenadinho de todo. O ideal dela era vê-lo a arrumar carros no Saldanha, mas como isso geralmente não acontece, ela contenta-se em vê-lo num t-zero para lá do fim do mundo, ou melhor ainda, em casa dos pais, a suprema humilhação.

– A ex perfeita

É o pior que pode acontecer a qualquer pessoa. A Ana era linda, loira e magra. A Ana é que fazia bem empadão, a Ana é que dizia umas piadas muito giras, a Ana tinha um sorriso tão bonito, a Ana é que sabia levá-lo, a Ana nunca se zangava… Dá vontade de dizer: ‘Então o que é que estás aqui a fazer comigo?’ Uma ex-perfeita demora mais tempo a passar do que uma escarlatina, e deixa marcas mais profundas. No caso de lhe calhar um destes em profissão de fé, abandone rapidamente o espécime ou prepare-se para esperar muito tempo até que a doença lhe passe.

– A ex independente

Não quer nada dele. Nada. Tirando os filhos. Podes ficar com o carro e a casa e as jóias, mas não fiques com ele, como diria a Ágata. Podes ficar com os candelabros da tia Irene, o manjerico do Santo António, os CDs da Adriana Calcanhoto e essa ***** toda, para veres se eu me ralo. A ex-independente faz gala da sua independência, usa-a como bandeira, passeia-se pela rua de nariz levantado. Claro que, meses mais tarde quando tiver de pagar infantário, renda de casa e mulher a dias, arrepende-se amargamente de não lhe ter sacado tudo o que podia, coisa que nunca confessará a ninguém.

– A ex sensata

Às vezes só é possível ser-se ex-sensata 10 anos depois do divórcio, mas há almas que conseguem a proeza dois dias depois de ele lhes dizer que afinal de quem gosta é da vizinha do 2.º esquerdo. A ex-sensata não perde 15 quilos, não chora como se o mundo fosse acabar, nem lhe foge com os filhos para o Paquistão. A ex-sensata aparece composta em todas as sessões de divórcio, troca duas ou três palavras como ele como se tivesse acabado de o conhecer, e nem sequer diz mal dele aos amigos, embora lhe apeteça muito. Ele chega a ter remorsos de a ter enganado com a loira. No minuto seguinte, pensa que, se ele soubesse que ela se ia portar assim tão bem, já se tinha separado dela mais cedo.
 

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