Como associar a escola ao prazer?

‘Temos de ser realistas: na maior parte das vezes nós não podemos mudar a escola.’ Esta é a opinião de Alexandra Frias, do centro terapêutico Kids & Teens, que dá acompanhamento educativo e apoio psicopedagógico a crianças e pais. ‘E, portanto, ou nós baixamos os braços ou fazemos da nossa criança uma criança adaptada às circunstâncias que encontra, porque crescer também é saber crescer na adversidade, e cabe-nos a nós, pais, dar-lhes um empurrãozinho de optimismo.’

Face ao panorama desolador que vimos atrás, esse ‘empurrãozinho de optimismo’ parece muito pouco. Mas a alegria de Alexandra é contagiante. ‘Uma coisa que se faz muito pouco é associar a escola ao prazer. Das chatices, a gente fala muito: do professor que embirra, das disciplinas que não interessam, etc. Mas das coisas boas fala-se muito pouco. Há fontes de prazer na escola, e nunca pensamos nisso.’

Em face de um insucesso, o primeiro passo é verificar de onde é que ele vem. ‘Eu acho que há sempre qualquer coisa a fazer, pode é levar tempo, obviamente. Nunca sei quanto tempo irei passar com uma criança. E os pais têm muitos problemas em aceitar que o filho é diferente dos outros. Comparam-no incessantemente com outros miúdos, frequentemente à frente dele próprio! O insucesso muitas vezes está relacionado com a descrença e a falta de auto-estima. Depois, a criança interioriza que aquilo é verdade, os seus resultados vão comprovando esse preconceito, e transforma-se num ciclo vicioso.’ Um dos factores que continua ligado às dificuldades escolares é a falta de leitura. ‘Se a questão da leitura fosse levada a sério, nós não teríamos metade dos problemas de aprendizagem’, defende Alexandra Frias. ‘Mas se não há livros em casa, para eles os livros serão só os livros da escola e nunca os associam ao prazer. Ora se a pessoa não tem prazer em ler, nunca irá ler.

E depois, o que nós vemos é que eles têm um vocabulário extremamente pobre e não percebem o que se lhes pergunta. As palavras que usam são sempre, sempre, as mesmas isto quando são palavras, usam muito a expressão ‘coiso’ para dizer seja o que for. Eles têm de ter um modelo de leitura e um modelo oral: os pais têm de ler e contar histórias aos filhos.’ A televisão tem a ver com isso? ‘Pode ter ou pode não ter. Claro que é muito cómodo apresentar a televisão como bode expiatório, mas temos de ver se há outra coisa por trás disso. Se calhar, aquela crian-ça é desconcentrada não porque vê muita televisão mas porque tem pouca gente a dar-lhe atenção, pouca gente a falar com ela e a ligar àquilo que ela é. O problema é que um miúdo está na escola e é o aluno, mas quando chega a casa continua a ser o aluno. nunca é o filho.’

SABE EM QUE É QUE O SEU FILHO É BOM?


O que os pais podem fazer: ‘Acima de tudo, não deixar arrastar as coisas até se tornarem um problema, porque depois aquilo transforma-se numa cadeia de insucessos, da qual é muito difícil sair. Claro que nem tudo passa pelos pais, mas eles, se calhar, nem se apercebem do muito que podem fazer.’ Podemos começar, por exemplo, por perceber o fantástico filho que temos. ‘Os pais têm muita consciência daquilo em que os filhos não são bons, mas muitas vezes ignoram ou desvalorizam aquilo em que eles são bons’, nota Alexandra.

‘Claro que aquilo que nos preocupa são os problemas, mas muitas vezes as qualidades ajudam-nos a perceber qual é a melhor maneira de aquele menino es-tudar. Às vezes as pessoas dizem: ‘Estás aí há meia hora e já te queres levantar’, mas se calhar ela precisava mesmo de se levantar. Temos de conhecer a criança e programar o trabalho com ela, e não apenas para ela. E sentir que faz parte desse processo responsabiliza-a.’ A responsabilização é outra palavra-chave: ‘As crianças estão muito habitua-das a que outros estudem por elas. Há a explicação, o pai a fazer os trabalhos, o acompanhamento na escola, e ela nunca é responsabilizada. Quando se envolve a criança, ela percebe que tem de fazer algo porque é a principal interessada.’ E o cavalo de batalha dos TPC? ‘Acima de tudo, nunca os fazer por eles. Conse-quências negativas também fazem parte do processo de aprendizagem. Têm de ser levados com a calma possível.’ Mas continua a faltar-nos entusiasmo. ‘O entusiasmo também se treina, tal como a concentração, mas tem de ser muito in-centivado’, afirma Alexandra. ‘As pessoas estão muito viciadas no castigo. E, mais do que a coisa material ‘faz isto que depois eu compro-te aquilo’, importa a palmadinha nas costas, o elogio. Mas em Portugal a cultura não é nada essa. Pelo contrário, projectamos neles o peso dos nossos sonhos todos. Não digo que pôr metas não seja importante, mas são metas realistas, à medida de cada um. Não podemos exigir às crianças que se-jam boas em tudo, porque nós também não somos! Se ele é bom a Português e depois a Matemática tem dificuldades, se conseguir um 3 isso já é muito bom. A meta é o que aquela criança, esticada, pode dar.’

TEMPO DE QUALIDADE PRECISA-SE

‘É importante brincar, participar, estar próximo, saber quem são os amigos’, lembra Alexandra. ‘E depois os pais queixam-se de que eles não contam nada. Claro que não, como é que, primeiro, vão contar a quem não sabe do que é que estão a falar e, depois, a quem também não conta nada da sua própria vida? Queixamo-nos de que eles não partilham connosco, mas nós tam-bém não partilhamos com eles. O sucesso escolar pode ser a ponta do icebergue de tudo isso. Se não começarmos a criar uma relação profunda com os nossos filhos, não é quando chegarmos à adolescência que isso irá acontecer.’

A confiança tem de ser ganha muito antes. ‘Falamos muito em trabalhar um casamento, mas nunca falamos em trabalhar a relação com um filho.’ E reforçar, reforçar. ‘Houve uma altura em que a minha filha, com 5 anos, anda-va tristíssima porque era boa a Desenho mas achava que isso não era importante’, recorda Alexandra. ‘Tentei mostrar-lhe que, se calhar, os grandes pintores ti-nham começado todos como ela, por ser bons a Desenho, e, se não tivessem visto isso como uma coisa importante, nunca teriam sido grandes pintores. Portanto, temos de nos entusiasmar com aquilo que fazemos bem e usá-lo como apoio. Claro que não é deixarmos tudo o resto para trás… sabemos realistamente que na vida académica há muito mais que nos é pedido, mas se esse esforço for feito sabendo que somos bons em alguma coisa a carga será mais leve.’ O problema é que continua a haver muitos preconceitos sociais. ‘Há crianças que nunca vão ser boas a matemática ou geografia, mas se calhar são excelentes a coisas que alguns pais não valorizam: apetências artísticas, criativas, que tam-bém não são valorizadas na escola. Os pais tentam proteger as crianças de um futuro complicado, mas essa estratégia nem sempre funciona.’

EVITAR O ESTUDO INÚTIL


Ajudar as crianças passa por focá-las nos pontos fortes para trabalhar os fracos. ‘Para elas, enfrentar os seus pontos fracos e dificuldades é muito compli-cado! Por isso temos de recorrer aos seus próprios interesses, porque à força não se conseguirá nada. O trabalho tem de ser completamente individualizado.’ Alexandra Frias defende ainda uma estratégia de organização para evitar horas inúteis de estudo: ‘Um estudo efectivo começa por os ensinar a organizarem-se, ensinar a usarem um dicionário, orientá-los para seguirem sozinhos, porque a dependência do adulto para estudar está muito enraizada. E depois enchem as crianças de horas de estudo e explicações, que na maioria dos casos nem rendem, quando elas deviam era estar a brincar. Não digo que as expli-cações não possam ajudar, mas não são obrigatórias.’

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