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A paixão pelos maus não se fica por Snape. “Eu dedico-me a criar um herói perfeito, um herói por quem qualquer rapariga se poderia apaixonar, e por quem é que elas caem? Tom Felton, o Draco Malfoy!” desabafou Joanne Rowling. Para quem não sabe, Draco é um génio do mal com 16 anos. Para quem também não sabe, é um loiro de cair para o lado: a questão do génio do mal aqui torna-se secundária de cada vez que ele atira a madeixa para trás.

De qualquer maneira, Joanne assustou-se: “Comecei a receber uma data de cartas líricas cheias de declarações apaixonadas a Draco, e isto parou de me fazer rir e começou a assustar-me. Tentei fazer a distinção entre Tom Felton, o actor, que é um rapaz lindo, e Draco, a personagem, que, qualquer que seja o ângulo, não é um bom rapaz. Esta paixão corresponde à ideia romântica mas muito pouco saudável de que vamos conseguir mudar um homem. Esta ilusão persiste na vida de muitas mulheres até morrerem, e é pouco saudável. Fiquei realmente preocupada por ver tantas raparigas a jurarem amor eterno a uma personagem tão imperfeita, por isso escrevi a algumas delas num tom bastante brusco, a dizer-lhes qualquer coisa como: “por favor reconsiderem as vossas prioridades.

Joanne deixou um último conselho: “Meninas, párem de se apaixonar pelo mau da fita. Escolham o bom rapaz. Eu levei 35 anos a aprender, mas dou-vos este conselho de graça no princípio das vossas vidas.

Snape e Harry são personagens de livro, mas espelham aquilo que nos acontece vezes sem conta na chamada ‘vida real’: caímos pelo bonzinho, pelo vizinho do lado, pelo João Pedro que nos atura sem uma quebra há mais de dez anos? Claro que não. Perdemos a cabeça é pelo tipo com cara de James Dean, mesmo quem já não sabe quem foi o James Dean. E aquilo que se segue nem sempre é uma história de amor com final feliz. Aliás, se estão recordadas, os filmes do James Dean raramente tinham final feliz…

Qual é o nosso mapa afectivo?

“A primeira questão que nós temos de levantar é: o que é um ‘mau rapaz’?” lembra a psicóloga Sónia Duque, da ‘Clínica Harmonia’. “Mau rapaz no sentido de dar luta ou no sentido de ser traidor, infiel, mau companheiro, que não é amigo, que não é parceiro, que não partilha? Porque são coisas diferentes. Um aventureiro para muitas mulheres é aliciante porque o bonzinho geralmente não tem graça nenhuma. O que acontece é que as pessoas, de uma forma geral, tendem a apaixonar-se pelo mesmo tipo de pessoas. Cada pessoa tem inconscientemente um padrão, que é construído com base nas nossas experiências de vida, na nossa personalidade.”

E há quem tenha um padrão negro: “Claro que nem todas as pessoas se apaixonam pelos maus rapazes, mas determinadas pessoas têm de facto tendência para escolher parceiros que as magoam. Muitas vezes, o nosso padrão inconsciente é negativo. É muito frequente, por exemplo, a mulher vítima de violência conjugal perpetuar essa procura de parceiros que a magoam.”

Mas de onde é que nos vem esse padrão, esse mapa afectivo, e como é que o construímos? “O nosso padrão interior é feito a partir de referências, recordações, memórias. As primeiras experiências são muito importantes, e as pessoas que nos criaram também. Se fomos criados por pessoas violentas ou sem carinho, aquilo que vamos ter tendência para perpetuar é esse tipo de relação, porque não aprendemos a relacionar-nos doutra maneira. Inconscientemente, são essas imagens que temos gravadas.”

Ou seja, são essas imagens que nos vão traçar o retrato-robot do homem da nsosa vida. Perfidamente, podemos escolher o mesmo tipo de homem que fez infeliz a nossa mãe, não porque somos masoquistas mas porque essa foi a forma de amor que interiorizámos.

As controladoras e as aborrecidas

Outras vezes, é o nosso lado maternal que nos empurra para o abismo. “Há mulheres que têm necessidade de cuidar, de tomar conta dos homens”, recorda Sónia Duque. “E depois criam aquela expectativa de que ‘comigo vai ser tudo diferente das outras’. E depois, nós esquecemo-nos que a paixão cega sempre um bocado as pessoas e naturalmente acreditamos sempre que connosco correr tudo de outra maneira.” O que tem um lado de vaidade: nós somos especiais, nós vamos conseguir mudá-lo, coisa que nenhuma das outras conseguiu. E coisa que, salvo raras excepções, nós também não vamos conseguir. As controladoras caem mais facilmente no papel de vítimas, sentem-se mais injustiçadas precisamnete porque sentem que deram demais. Mas muitas vezes, ninguém lhes pediu esse sacrifício: são elas que o impõem aos outros.

Também há alturas da nosas vida em que estamos mais atreitas a sermos encantadas por um homem que nos soa a Príncipe Encantado, que é despenteado, incerto e perigoso, que é tudo aquilo que as nossas mães nunca quiseram para nós, e que nos soa perigosamente a aventura. Que a maldade é sexy, o cinema não se cansa de o afirmar, e a nossa cabeça já interiorizou esse padrão. Mas para lá da ficção, os homens mais perigosos são muitas vezes precisamente os mais sedutores. Perrault tinha razão: é mesmo preciso fugir do lobo mau.

Como as Capuchinhas deste mundo já perceberam, às vezes é mesmo preciso entrar na floresta e aprender à nossa própria custa. Mas se pudermos perceber como funciona um lobo mau, talvez possamos aprender a fugir dele. “Os homens infiéis são sedutores, às vezes porque são naturalmente sedutores, outras vezes porque são pessoas inseguras que precisam de afirmar a sua masculinidade e a sua autoestima mudando constantemente de caso”, explica Sónia. “E há também quem não consiga mesmo apaixonar-se: gostam de outra pessoa mas não se conseguem entregar verdaeiramente, não conseguem dar o passo seguinte.”

Problema: muitas vezes, aquilo que nos atrai num ‘lobo mau’ não é a maldade mas o lado masculino. “Quando falamos em homens maus, associamo-los geralmente àquele tipo alcóolico e violento. Mas mesmo neste tipo de carácter, numa primeira fase da relação o que pode aparecer não é o lado negativo mas o positivo. Ele até pode ser visto desde o princípio como um homem dominador, mas mesmo isso pode ser entendido de forma positiva. Não nos podemos esquecer de que há muitas mulheres que gostam disso, que associam a dominação com o lado masculino. Não nos podemos esquecer de todos os estereótipos não só de cultura mas também de biologia: a agressividade ainda marca uma diferença de género.” Ou seja: no fundo, os homens continuam a gostar de dominar e as mulheres ser seduzidas.

Problema: quando a agressividade perde o seu lado aventureiro e ‘macho’, e se transforma num domínio impossível de suportar.

Como se libertar do lobo mau

O mundo da ficção também não ajuda, e continua a passar a idea de que o bom é demasiado bom para ser verdade. Muitas vezes, apaixonamo-nos pelo mau não porque ele é mau mas porque a maldade lhe dá um ar mais humano. “No caso da ficção, identificamo-nos mais com o mau porque ele está geralmente mais próximo de nós”, confirma Sónia Duque. “O bom é perfeito, inatingível, não tem nada a ver connosco.” O mau tem caspa e dias de mau génio, sua e diz palavrões, corre-lhe mal o dia, não lhe saem as coisas como ele pensava e mesmo assim ele consegue ser sexy. É obra.

Mas uma coisa é o cinema, outra os dias do aldo de cá do ecran. Para bem da nossa felicidade futura, é importante começarmos a desactivar certos padrões e ideias feitas, até porque um herói aventureiro raramente se aguenta na vida de todos os dias. Como afirmava a cartoonista Maitena, “As mulheres apaixonam-se pelo Che Guevara e depois exigem-lhe que corte a barba…” O problema é quando eles não querem cortar a barba. O problema é que eles nunca querem cortar a barba. E o corte entre realidade e ficção pode ser insustentável. Outras vezes, o padrão vai-se repetindo até ao ponto em que nos destrói.

“Há pessoas que vivem muito bem com esses relacionamentos esporádicos. Mas há outras que vivem em constante sofrimento, e se não pararem para pensar porque é que escolhem sempre aquele tipo de homem, não vão conseguir mudar, porque o padrão interior continua o mesmo.”

Em vez de cair no fatalismo do “ai eu só tenho queda por malucos” importa perceber por que é que isso acontece e mudar a partir daí. Pode ser complicado ‘desactivar’ um padrão que cresceu connosco e que é feito do mesmo tecido da nossa vida, mas afinal parece que é possível escolher quem se ama, ou pelo menos ter consciência daquilo de são feitas as nossas escolhas. “Diz-se que o amor não se escolhe, mas está errado: nós escolhemos quem amamos, sim, só que é uma escolha inconsciente e portanto nós nem sempre nos apercebemos disso. Porque ninguém se escolhe por acaso, nós não somos atraídos por toda a gente.”

Armas anti-lobo-mau

– Goste de si. É sempre a melhor arma para tudo.

– Não vá com ilusões de mudar um homem. O que ali está é o que ali vai estar sempre.

– Não parta para uma relação em que um dá muito mais do que o outro. Vai acabar frustrada.

– A aventura é boa para os filmes de cobóis. Procure a paz acima de tudo.

– Se a relação é destrutiva, não se vitimize e dão dê uma de Madre Teresa: abandone-a assim que puder.

– Não tente controlar a vdia dos outros nem ser a salvadora da Humanidade.

– Procure o apoio dos amigos

– Torne-se egoista

– Aprenda a distinguir os ‘lobos maus’ deste mundo e fuja deles

– Tenha uma vida interessante. É menos fácil deixar-se iludir por um sedutor de meia-tigela
 

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