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O impacto da crise não se fica pelas contas. Todas as áreas da vida são afetadas, incluindo os relacionamentos. O ditado diz que ‘casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão’, mas nos tempos que correm há mais cenários a ter em conta, além do previsível aumento da tensão no meio familiar. Homens e mulheres com filhos que regressam a casa dos pais, famílias com membros emigrados, divorciados desempregados. Fomos tentar perceber como é namorar nos dias de hoje.

Pedimos ajuda ao psicólogo João Lima: “Se uma pessoa está fragilizada por um fator externo, isso tem implicações imediatas na vivência emocional. A falta de dinheiro faz com que as pessoas se focalizem nas questões da sobrevivência e não tenham espaço interno para as emoções ou os relacionamentos.” Não parece um bom ponto de partida. Haverá aspetos positivos?

“Vai-se falar mais das relações forçosamente, sobre o que significam para nós. Precisamente porque são a primeira coisa a ser influenciada pelos fatores externos, os problemas vêm ao de cima e vê-se a consistência das relações. Há casais em que a vida íntima, a nível da sexualidade, é inexistente, por exemplo. Observa-se muito. É quase como se a estabilidade anterior fosse uma espécie de camuflagem do problema. Agora, as pessoas são obrigadas a olhar.”

Melhor sorte têm os casais de relações consistentes. A estes, a crise “pode trazer um reforço da relação e maior proximidade”.

Viver e namorar em casa dos pais

Em 2011, o casamento de 10 anos de José Mões chegou ao fim. Não é de ânimo leve que se termina uma relação de 17 anos, com um filho de cinco, uma casa comprada a dois e um projeto de futuro. Aos 42 anos, este comercial de uma empresa de telecomunicações viu-se forçado a voltar para casa dos pais.

“Inicialmente arranjámos um sistema alternado. Quando era a minha semana com o Eduardo, eu ia para a nossa casa e a minha mulher saía para casa dos pais ou de uma amiga. Quando era a semana dela, ficava ela na casa e eu ia para casa dos meus pais. Foi assim durante cinco meses. Depois alugámos a casa e ficámos na casa dos nossos pais definitivamente. Foi a forma de arcar com a despesa da casa e das outras dívidas que tínhamos contraído durante o casamento.

Voltar para casa dos meus pais não foi fácil. Tenho lá o meu quarto de infância, o que ajuda, mas foi estranho. Voltámos ao passado, mas claro que não é igual. A dinâmica em casa mudou. De repente perde-se a privacidade e de certa forma a liberdade. Não é que tenha de dar satisfações, tenho 42 anos, mas dou por respeito. Os atritos, quando acontecem, têm mais a ver com o neto. Eu educo o meu filho da forma que acho que deve ser, mas os avós não resistem a interferir. De resto, não são de questionar muito. Inicialmente havia as perguntas ‘Então hoje não jantas?’, ‘Vais sair com quem?’. Para todos os efeitos o filho voltou a casa… mas pus um travão e já não comentam. Entretanto, voltei a namorar… como um adolescente! A minha namorada atual tem um apartamento, mas como também tem um filho só estamos lá em casa quando não o tem com ela. Vamos com calma. Não estava nada à espera que acontecesse tão rápido, mas a vida tem destas coisas.”

O que diz o psicólogo?

“Quem volta para casa dos pais tem de fazer um luto da vida anterior. É como regredir em termos de idade. Os pais exercem uma função de controlo durante a infância que tendem a assumir de novo, faz parte. Para além das dependências emocionais que possam subsistir, há agora uma dependência real que vem de se viver no espaço deles. Há um tipo de conversa que vem da adolescência, querer saber porque o filho não vem jantar, onde vai dormir. Somos uma cultura latina muito invasiva dos espaços, de entrar pelo quarto adentro. Coisas miudinhas mas que reforçam muito a angústia nestas alturas. Se as coisas na adolescência correram bem será mais fácil. Em todo o caso, tudo vai depender da capacidade para conseguir demarcar novamente o espaço emocional e físico. O mesmo vale para as relações afetivas que se estabeleçam nesta altura. É essencial encontrar um espaço para desenvolver a intimidade. Se a outra pessoa não tem uma casa, há que encontrar novas soluções, nem que seja junto de amigos. Os pais nalguns casos também podem assumir uma postura mais facilitadora…”

Namorar desempregado

A taxa de desemprego vai em 16 por cento. É difícil, nos dias que correm, não ter familiares e amigos sem trabalho. Namorar não é definitivamente uma prioridade para quem procura emprego. Ainda assim, tenta-se preencher o espaço afetivo. Procuram-se coisas boas. Mesmo que a falta de dinheiro faça do ofício de namorar uma tarefa difícil e pouco atrativa. Diogo Delgado, 42 anos, está divorciado há três, tem uma filha de seis. Depois de se separar, arranjou casa. A vida continuou, tinha namoradas, ia jantar fora, ao cinema. Até ficar sem o emprego de 16 anos numa produtora de TV e voltar a viver com a mãe. Como é namorar assim?

“Bem, a minha experiência não é muito boa. Não estava habituado a que me pagassem o cinema ou o jantar. Há pouco tempo namorei, mas durante um mês só estive em casa dela, não fui a lado nenhum. Se a relação evoluísse, (não evoluiu) era preciso fazer outras coisas juntos, mas eu não podia. E isto, pelo menos para mim, é duro. Quando a pessoa com quem estamos tem dinheiro não é forçosamente mais fácil. Ela pode pensar que só namoramos com ela por ajuda. Estou lá em casa mas não contribuo para o jantar, é ela que me leva aqui e acolá, pode sentir-se abusada e eu não me sinto bem. Quem seja bem formado sente-se diminuído. Estar numa relação e ficar sem emprego já é mau, mas entrar numa relação desempregado é pior porque ainda não há uma relação de confiança.

Agora estou a habituar-me a outra realidade. Consegui trabalho numa imobiliária, à comissão e a recibo verde. A minha casa passou a ser um sítio para dormir e jantar. Antes, havia o triângulo pai, mãe, filha. Agora, tenho o triângulo pai, avó, filha. De repente há a avó com as suas ideias. Mas não tive grandes problemas na questão da independência, não me custou dizer que não ia dormir a casa da primeira vez. Mas hoje, penso duas vezes se devo entrar num relacionamento até melhorar a parte financeira. Parece que não estou inteiro. Entro tímido, coxo, sinto-me diminuído. Por isso, disse ‘ok, não posso namorar’ e fechei essa porta. Namorar é para quem pode!”

O que diz o psicólogo?

“Em tempos difíceis, por um lado há falta de disponibilidade para começar novas relações, por outro, na ansiedade de encontrar novamente alguém, pode-se construir relações que têm pouca base, pouco estruturadas. A probabilidade de erro a curto prazo é muito maior. Também é importante aprendermos a procurar coisas para fazer em conjunto que não impliquem custos e começar a valorizá-las. Se reparar, os nossos velhos socializam nos parques, não estão habituados a ir para os cafés, isto dos cafés tem 40 anos. Foi-se criando o costume das atividades sociais se centrarem nalgum tipo de gasto monetário, seja estar no café, sair para jantar ou ir ao cinema. Os espaços sociais são espaços de consumo. Isto cria uma dificuldade.”

Juntos… à distância!

Maria João Bravo, 45 anos, vive com o marido há 17. Casaram-se há cinco, antes de ela emigrar para Bruxelas por motivos profissionais. Numa passagem por Portugal, conta como é possível viver em países diferentes e manter a chama. Conselhos úteis, num tempo em que emigrar é cada vez mais uma necessidade de muitos.

“Era professora de matemática numa escola secundária, o meu marido é condutor de Metro. Temos duas filhas. Quando apareceu uma oportunidade de ir trabalhar para Bruxelas, numa escola europeia, não pude deixar passar. Vivíamos numa casa alugada, não tínhamos possibilidade de comprar e nunca iríamos ter se não fosse para fora. Agarrei a oportunidade e fui, com as minhas filhas, na altura com 13 e 15 anos. Não pensei muito, não se pode pensar muito ou não fazemos as coisas. Pensámos a longo prazo.

Estar longe é horrível. Nos primeiros anos falávamos diariamente, sem exceção. Sobretudo por telefone, atualmente também usamos o Skype. Falávamos sobre tudo o que se passava. Hoje já não falamos necessariamente todos os dias, mas há sempre uma mensagem, um sms, um e-mail. Todas as férias eu vinha a Portugal ou ele ia ter connosco. Agora estou a entrar numa fase nova, porque as minhas filhas, com 18 e 20 anos, voltaram para Portugal e eu vou ficar mais três anos em Bruxelas.

É difícil estar sozinha, não gosto. Mas Bruxelas é uma cidade multicultural e o meu local de trabalho também. Acabo por conhecer muitas pessoas na minha situação, o que ajuda. Para aguentar, é preciso gostar muito da pessoa com quem estamos, perceber que o essencial – o amor – não depende da distância. É importante que quando nos reencontramos as coisas corram bem. A primeira semana é muito intensa em todos os sentidos. Anda-se muito às turras. Quem fica ocupa o espaço e cria rotinas próprias. O pão fica aqui, o leite acolá… -Temos que ter respeito pelas rotinas de quem ficou. Por outro lado, quem chega não vem igual. É impossível ir para fora sozinha e voltar a mesma pessoa… Isso pode perturbar o parceiro que ficou e que espera que estejamos iguais. Tivemos algumas crises por causa disto. Às vezes as coisas não corriam bem. Agora estamos numa fase muito positiva. Uma das coisas que decidimos foi estarmos juntos mais vezes. Havia insegurança mútua. Existe o medo de perder o outro, que a distância pode acentuar. Penso que uma relação durável é sempre um milagre mas a probabilidade de ficarmos juntos nestas circunstâncias é ainda mais pequena. Sempre achei que era preciso haver qualquer coisa de relevante para durar, o amor.”

O que diz o psicólogo?

“A distância põe à prova a consistência da relação. É preciso grande confiança e uma capacidade significativa de perceber o outro. A qualidade dos reencontros é importante. Se não houver encontros suficientes, e bons, as diferenças podem começar a aumentar e a frieza emocional levar ao afastamento definitivo. É importante pensar em conjunto e falar da relação. Que implicação tem esta situação na nossa relação? O que nos une? O que nos separa? Porque de forma geral só se fala da relação quando as coisas correm mal.”

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