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O amigo de infância

Andaram juntos na primária, onde se revezavam a pôr pioneses na cadeira da professora, a copiar (mal) um pelo outro e a eleger as miúdas mais giras da aula. Gostavam os dois da Patrícia, que era loira e estava apaixonada por um primo surfista e nunca soube que eles existiam. Um deles tinha uma avó que fazia pastéis de bacalhau com arroz de tomate, o outro tinha uma mãe abandónica e um pai em parte incerta e portanto passavam os dias juntos a comer pastéis e a trocar de ténis malcheirosos. Depois um deles tirou Economia e foi fazer um MBA em Buffalo, o outro não tirou nada a não ser a carta, meteu-se no carro e nunca mais ninguém o viu. Quando voltou de ninguém sabe de onde, tinha a Patrícia no banco do lado, três crianças a matarem-se no banco de trás, e um palacete algures no Minho com um brasão que não era o dele e um fantasma espirrando pelos corredores gelados. Continuam a encontrar-se os dois, ninguém sabe porquê. Talvez porque os pastéis e os ténis malcheirosos criam uma lealdade que não desaparece nunca.

Como conquistá-lo: Desde que se ria das piadas dele e não lhe pergunte pela mãezinha, está à vontade. É o tipo de homem que gosta de todas as mulheres. Certifique-se é que não bate muito a pestana ao pé da Patrícia, que ela sim, não perdoa, não gosta de mulheres, pratica Krav Maga e viu 14 vezes ‘Atração Fatal’.

O colega de trabalho

Partilharam reuniões eternas, chefes tarados, prazos impossíveis, noitadas para acabar relatórios, almoços na esplanada do ‘Pérola da Avenida’, saídas de trabalho. É uma amizade que quase nunca deixa o sítio onde nasceu, porque depois de 10 horas com uma pessoa, geralmente não nos apetece passar mais nenhum minuto com essa pessoa. De qualquer maneira, às vezes saem para beber um copo. Jogam golfe uma vez por mês. Não há grandes conversas intelectuais nem partilha de confissões nem ligações mais profundas que o tempo que passam juntos, mas só o tempo que passam juntos já os autoriza a acharem-se da mesma família. Afinal, também não amamos de paixão todas as pessoas da nossa família…

Como conquistá-lo: Não dizer – ai o teu amigo Bruno é tão chatinho! Tão pãozinho sem sal… tão engravatadinho. Se não aguentar as conversas de carros e computadores, vá comprar cómodas para o IKEA.

O copraticante

Vão juntos ao attack, ao pump e ao cycle.  Já correram na passadeira até Nova Iorque (chegaram lá, não havia nada para ver e vieram embora). Já jogaram futebol na praia ao domingo de manhã, a pensar que a areia molhada dá uns músculos fantásticos e que as miúdas estão todas a olhar para eles e que Deus queira que não haja alforrecas. Já ficaram sentados na prancha durante horas, à espera da onda que não veio. Estas coisas unem mais um homem que três mil conversas sobre tipas.

Como conquistá-lo: Se não pode vencê-lo, junte-se a eles e vá atacar também. 

Gabe-lhe os abdominais aos quadradinhos, os ombros em triângulo (isósceles) e pronto, não exagere na geometria descritiva senão tem uma ceninha de ciúmes à espera. E nos dias de futebol, aproveite e fique a dormir mais um bocadinho. Não caia na asneira de limpar a casa de banho enquanto ele não está.

O emplastro

Está sempre colado a ele. Ele vai trabalhar, o emplastro trabalha com ele, vai-se lá a casa e o emplastro está no sofá com os pés na almofada a ver os ‘Piratas das Caraíbas’, quer-se combinar um cinema e o emplastro aparece à última hora, fala-se num concerto e o emplastro diz ‘ai o que eu sempre quis ouvir isso’ e pronto, lá vem ele. Ficam os três a ver a ‘Anatomia de Grey’, a beber cerveja e a espalhar cascas de tremoço pelo tapete de Arraiolos chinês, e só seria engraçado se tivessem todos 13 anos. Quer um serão romântico com a sua alma gémea e ele diz, ‘eu queria, mas combinei ir a casa do Zé arranjar-lhe o modem, ele não se entende com aquilo’, e quando se diz que se acha incrível que ele nos troque pelo Emplastro, ele encolhe os ombros e diz, ‘Coitado…’.

Como conquistá-lo: AHHHHH! Mas conquistado já ele está! Conquistado demais, até! Aqui a ideia é desconquistá-lo. Tente explicar ao seu querido que uma relação é feita a dois, não a três. Vai ter de aturar o Emplastro, mas tente dosear. Cuidado: ele não sabe quando está a mais.

O inútil

Vive numa casa que não vê um pano desde Aljubarrota (não que ele saiba o que foi Aljubarrota) e onde vive igualmente o Mussolini, um dobberman com peladas nas orelhas que lhe rosna ameaças de morte e pinga ranho verde do focinho de cada vez que lá aparece. Ainda recebe uma mesada da avó (o que seria estranho mesmo que avó ainda estivesse viva, que não é o caso), que gasta em vídeos pornográficos e playstation, onde baba para cima daqueles jogos onde se ganha pontos por espetar bebés de encontro a carros e assassinar velhinhas. Só não é delinquente a sério porque não tem energia para ser nada a sério e porque prefere a versão online, mas faria as delícias de qualquer psicólogo, onde ele aliás nunca foi porque acha que é uma pessoa perfeitamente normal e um homem encantador e não percebe por que raio nenhuma rapariga lhe dá bola.

Como conquistá-lo: Heeee… Se fosse a si, não tentava. Não se chegue muito perto, porque, como todos os malucos, ele corre o risco de obcecar por si: ou desenvolve um fetiche pelas suas orelhas ou acha que lhe enfeitiçou o amigo. Não tente convencer o seu amor a abandoná-lo. Não tente perceber que raio de amizade é aquela. Tente não ter de lá ir a casa. É que os cães e os gatos e as caganitas fermentadas cheiram mesmo mal.

O companheiro de copos

Vão para a farra juntos desde que tinham de mentir aos respetivos pais e dizer que iam passar a noite a estudar físico-química (o que era, de certa maneira, verdade).  Correm 14 bares por noite de garrafa na mão a cantar o hino do Benfica e a chorar de cada vez que há um regresso ao passado e dá o My Heart Will Go On porque lhes lembra a Sandra Isabel que eles catrapiscaram os dois em Cabanas de Tavira no verão quente de 1998 antes de o verbo catrapiscar começar a dar problemas, começarem os dois a meter água e a Sandra voltar a Lisboa com um Leonardo que não eles. O problema é que um deles cresceu e o outro continuou no verão quente de 1998, o problema é que de repente os sábados à noite já não são passados nos copos mas no sofá ou no cinema ou em casa de amigos, o problema é que apareceu outra pessoa na história e isso foi o fim da adolescência eterna, mas enfim, isso não tem necessariamente de ser um problema.

Como conquistá-lo: Perceba que caiu na vida dele como um cometa, deixando um rasto de destruição à volta. Não espere que ele vá à bola com um cometa que espalhou um rasto de destruição à volta. Não exija todos os sábados para si. Deixe-os lá ter a sua noite de saudosismo de vez em quando. E aproveite para ligar à sua melhor amiga.

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