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Basta ligar a televisão numa qualquer novela: todos os adolescentes (enfim, quase toda a gente) são muito muito giros. Quando se tem 40 anos (às vezes nem quando se tem 40 anos…) sabemos, teoricamente, que aquilo não é para ser um espelho da realidade, que é só uma novela, que tudo é feito para ser visualmente atrativo e não para corresponder àquilo que somos. Mas isto que nos parece óbvio pode não ser assim tão óbvio para uma mente de 14 anos.


O espelho irreal não se fica pela televisão. Todos somos bombardeados por imagens de beleza e de masculinidade ideais de uma realidade ‘photoshopada’ e ditatorial: as meninas têm de ser muito magras, os rapazes têm de ser musculados. Os adultos (enfim, alguns) conseguem perceber o lado comercial por trás dessa fantasia. Mas para os adolescentes não é fácil separar fantasia de realidade: “A mente de um rapaz ou de uma rapariga ainda não aprendeu a pensar criticamente sobre estes assuntos”, nota a psicóloga inglesa Pam Meyers no site childevelopmentinfo.com. “E os media não explicam que, a não ser que se dediquem muitas horas ao ‘bodybuilding’, um rapaz normal não vai ficar assim. As raparigas também não percebem como é perigoso tentar atingir o estado de magreza da sua modelo preferida.”

A imagem não vale por mil virtudes


Toda a gente sabe: a adolescência é, em si, uma época de dúvidas. “É normal que tanto rapazes como raparigas tenham alguma dificuldade de relacionamento com o seu corpo. Podem sentir-se pouco à vontade com essas transformações, que acontecem em paralelo com tantas outras que causam instabilidade, insegurança e oscilações de humor”, lembra a psicóloga infanto–juvenil Rita Castanheira Alves, autora do livro ‘A psicóloga dos miúdos’.
Mas esta fase pode ser pior se na infância já se foi uma criança com baixa autoestima. O que há a fazer? Prevenir e trabalhar estes assuntos desde a infância, porque tudo está ligado. “Sabe-se que adolescentes mais seguros e confiantes, que se veem como capazes e dotados nalgumas áreas, também vivem melhor as crises da vida e as inseguranças, como as questões da autoimagem”, nota Rita Castanheira Alves. “É importante acima de tudo que lhes seja dada a possibilidade de se valorizarem em várias vertentes, para que, numa fase em que a autoimagem tem mais peso, não haja consequências negativas.”
Enfim, também ajuda que eles tenham de facto uma boa imagem, e isso não é aliar-se à ditadura da superfície: é velar pelo seu bem-estar físico e emocional. Não tem de lhe comprar todas as calças de ganga que ela quer, mas, às vezes, uma ajudinha dos pais é bem-vinda. “O cuidado com a imagem e os bons hábitos alimentares e de saúde física deve ser incentivado pelos pais desde a infância”, aconselha a psicóloga. Não deixe que fiquem o dia todo sentados, e incentive-os a fazer exercício, mas escolha qualquer coisa de que gostem: nem todas as meninas adoram ballet, e para alguns rapazes o futebol é uma tortura: procure alternativas e habitue-o a pensar ‘fora da caixa’.

Ver televisão sim, mas com outra atitude


Voltemos à televisão e às novelas. “Quando eu tinha 12 anos, costumava ver os ‘Morangos com Açúcar’”, lembra Mariana, hoje com 19 anos.


“Mas via por ver, porque toda a gente via, sem pensar muito nisso. Um dia a minha irmã, que é bastante mais velha que eu, pôs-se a ver a série comigo. Não se calou um segundo. ‘Tu já reparaste’, dizia ela, ‘que toda a gente ali é linda? Achas que o mundo é assim? Na tua turma são todos assim lindos de morrer? E já reparaste que não têm nenhum interesse na vida para além de terem ou não terem namorado? É assim que queres ser?’ Eu tinha vontade de lhe bater, mas ao mesmo tempo pensei que de facto ela tinha razão, por isso fiquei calada. Até então, isso nunca me tinha passado pela cabeça, que ninguém era como aquelas pessoas. Continuei a ver os ‘Morangos’, com o mesmo prazer, mas agora com outra atitude.”


Como é que se vai contra estas ‘imagens ideais’ sem estragar o inocente prazer de ver televisão? “Sem contrariar excessivamente, nem ter um discurso fora do quadro de referências do adolescente, nem paternalista”, lembra Rita Castanheira Alves. “Ou seja, dizer-lhe que tudo é falso, mau e irreal não terá qualquer efeito. Aos 15 ou 16 anos, o corpo conta mesmo e a relação com ele é realmente difícil.”


Tal como a irmã da Mariana, é importante falar: sobre estas questões e sobre tudo de forma natural e divertida (eles fogem de sermões, aliás quem não foge?). Mesmo que eles se calem, como fez a Mariana: é sinal de que podem mesmo estar a ouvir…
“É importante conversar muito sobre tudo, para além do corpo”, nota Rita. “E dar-lhe oportunidades para que goste de si mesmo enquanto pessoa.


Em termos de imagem corporal, deve valorizá-lo de forma saudável, propondo alternativas, sugerindo, por exemplo, uma atividade física à sua escolha, ir com ele comprar roupa adequada e cremes que o ajudem nas aflições do acne, levá-lo a fazer um corte de cabelo que lhe dê confiança, ensiná-lo a comer bem, sem o ignorar nem o criticar. E quanto mais cedo fizer isso, melhor.”

Que há de errado em querer ser como a Taylor Swift?


Toda a gente teve ídolos na adolescência, uns mais ‘aconselháveis’ que outros (quem nunca teve um poster da Britney Spears pendurado na parede que atire a primeira pedra). Ter um ídolo pode ser bom: “O seu filho de 15 anos pode nunca ser o futebolista que adora, mas não há nada de errado em fazer desporto e tentar ser mais atlético”, nota Pam Myers em www.childdevelopmentinfo.com. Também não há nada de errado em querer ser mais gira, mais bonita, mais talentosa. De qualquer maneira, tente ‘expô-los’ a outro tipo de ‘ídolos’ que não só os da cultura pop, para que tenham mais exemplos de vida que apenas a Taylor Swift, e outros sonhos que não ser cantora ou modelo…

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