*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA nº347 (outubro 2019)

Podemos chamar-lhe ‘a doença do século’ e os psiquiatras já a classificaram como epidemia: Portugal é dos países com maior taxa de ansiedade: segundo um estudo da Universidade Nova, 16,5 % dos portugueses são afetados. É a doença mental com maior prevalência no País e sem igual na Europa – a Irlanda do Norte está num distante segundo lugar, com 14,6%. Mas não estamos sozinhos: segundo o National Institute of Mental Health, nos EUA, 1 em cada 7 americanos sofre de algum tipo de ansiedade. E todo o mundo em que vivemos nos empurra para isso: temos uma sociedade hiper-estimulada, que não pára, somos constantemente bombardeados de informação, onde o medo é incentivado por tudo e onde temos (ou achamos que temos) de ser os melhores em tudo. O estranho é não ser ansioso…

A ansiedade nasceu como uma reação natural: ajuda-nos a estar alerta de modo a reagir rapidamente perante situações de medo ou expectativa. Se um leão vier atrás de nós, a nossa antepassada não podia estar calmamente encostada à caverna a limar as unhas. Quando é que se torna uma perturbação? Quando interfere gravemente na nossa vida. Ou seja: quando estamos constantemente a ver leões onde eles não existem. “A ansiedade patológica é generalizada e não focada numa única situação”, explica o psiquiatra Diogo Telles Correia, psiquiatra, psicoterapeuta, professor da faculdade de medicina de Lisboa e autor do livro ‘A ansiedade nos nossos dias’: “Inclui uma série de medos na maioria dos casos desproporcionais à realidade ou mesmo desfasados dela.”

Não existe um limite rígido entre a ansiedade normal e a que se considera anormal. Acredita-se até que determinados níveis de ansiedade podem ser benéficos. “Em situações de maior exigência, uma prova académica, uma reunião com o chefe, uma apresentação pública, por exemplo, é normal que a ansiedade surja, porque nos prepara para uma melhor prestação”, explica Diogo Telles Correia. A ansiedade pode ser uma amiga, mas o nosso mundo encarrega-se de a voltar contra nós. “Começa a atingir níveis demasiado elevados e contínuos, sem ser apenas em situações específicas, e acarreta níveis intoleráveis de tensão psíquica e mental, que deixam de ser adaptativos.”

Os dois caminhos  para longe da ansiedade

As mulheres sofrem mais de ansiedade (e de depressão) do que os homens. “Não se compreendeu ainda qual a razão. Há quem fale que determinadas estruturas do cérebro responsáveis pela ansiedade estão hiperdesenvolvidas na mulher e outros autores defendem que as mulheres acabam por sofrer de mais situações traumáticas ao longo da vida”, explica Diogo Telles Correia.

Também para a psicóloga Dulce Silva, criadora do conceito ‘A psicologia da boa forma’, as mulheres, mais do que os homens, são vítimas quer de stresse quer de ansiedade. Mas há uma diferença entre os dois: “Enquanto o stresse pode ajudar-nos e dá-nos energia, a ansiedade geralmente dificulta-nos a vida e suga-nos essa energia. Depois passamos a generalizar e achamos que não vamos ser capazes noutras coisas.”

A ansiedade surge muito ligada à preocupação com a imagem e a forma física. “Preocupamo-nos muito ainda com o que é socialmente aceite. Penso que os outros vão gostar mais de mim se eu for mais magra, e a baixa autoestima gera muita ansiedade. A autoestima é aquilo que eu penso a meu respeito: ‘Se eu fosse mais magra, era mais feliz.’ E não percebemos que, muitas vezes, vamos buscar como tentativa de preenchimento pessoal qualquer coisa que não funciona, ou seja, não são esses quilos a mais que nos transtornam a vida. Se eu perder aqueles quilos, vou continuar insatisfeita. Por isso tenho de perceber o que está por trás da minha ansiedade.”

A ansiedade não está necessariamente ligada à apresentação que tenho de fazer em público, ao trabalho que não vou conseguir entregar, ao medo de que a nossa filha não consiga vir sozinha da escola. Está muitas vezes ligada àquilo que sentimos sobre nós: que não somos capazes, competentes, boas mães. “Muitas vezes há padrões de ansiedade recorrentes, que se repetem há tanto tempo na vida de uma pessoa que ela não é capaz de os quebrar sozinha”, conta Dulce Silva. “Mas se eu aprender a estimar-me, a valorizar-me, a reconhecer aquilo que faço bem, já estou a percorrer metade do caminho para longe da ansiedade. A gestão emocional é a outra metade: que estou a sentir neste momento? Como é que posso dar espaço ao meu organismo para estabilizar, para acalmar, para conseguir refletir sobre aquela questão que me preocupa?”

Medo de morrer

Mas controlarmo-nos não é fácil, e às vezes uma simples ansiedade resvala para um ataque de pânico: uma situação absolutamente assustadora e cada vez mais comum. A blogger Ana Garcia Martins, mais conhecida como A Pipoca Mais Doce, partilhou uma destas situações no seu blog: “Estava no cinema com uma amiga, um balde de pipocas e um filme de animação. De repente, o coração descontrolado. Não posso jurar, mas acho que chegou a sair-me pela boca e voltou lá para dentro. Já não consegui voltar a concentrar-me no velhinho amoroso do Up, porque achei que a minha hora tinha chegado. Eu ia morrer ali, que ninguém tentasse convencer-me do contrário. A minha amiga não só não tentou como me ajudou a ir para casa. Não me lembro se cheguei a subir os três andares a pé, mas sei que poucos minutos depois estava no carro, o homem a conduzir em quatro piscas, sem parar nos semáforos, porque eu só chorava a minha morte. Que não tinha acontecido ainda – caso contrário seria impossível chorá-la –, mas que eu sabia estar próxima. Santa Maria comigo e… tudo normal. Pressão normal, coração normal, tudo “normal” nas palavras de quem me atendeu. Já não me sentia tão mal, verdade, mas estava longe de me sentir bem. A sensação de “vou morrer” deu lugar a um “mas que merda é que se passou aqui?”, que depois deu lugar a um “e se isto me acontece de novo?”

E aconteceu. Não naquele dia, mas nos muitos dias que se seguiram. Ou noites. “Porque era sempre à mesma hora da noite que aquilo começava: as mãos suadas, os pés dormentes, a sensação de falta de ar, o ‘não estou bem, tenho de sair daqui’, as crises de choro por não saber o que era aquilo, o ‘estou a ficar maluquinha’. Começava a anoitecer, eu começava a ter medo de me sentir mal, o medo fazia com que me sentisse realmente mal, e era sempre isto. A minha vida tornou-se um pequeno inferno de medo constante. Começou o corrupio de médicos, o folclore de exames, porque eu tinha ‘a certeza’ de que havia alguma coisa. Examinou-se a coluna, a cabeça, o coração, a tiróide, os dentes, e a cada ‘está tudo normal’ eu tinha vontade de morder pessoas.”

A quantidade de comentários que se seguiu com pessoas a partilharem as suas experiências mostram que, longe de ser um caso isolado, os ataques de pânico são frequentes.

Desativar o pânico

A psiquiatria descreve um ataque de pânico como um período abrupto de medo e desconforto intensos que atinge um pico em poucos minutos. Os sintomas físicos são muitos: palpitações, suores, tremores, sensação de falta de ar, desconforto no peito, náuseas, vómitos, dores abdominais, diarreia, tonturas. “Podem ocorrer sintomas psicológicos, como sensação de desrealização (parece que há alguma coisa de diferente no mundo) e despersonalização (parece que não somos a mesma pessoa)”, explica Diogo Telles Correia. Mas os sintomas mais assustadores são o medo de morrer, de perder o controlo, ou de enlouquecer.

O que é que pode fazer quem passa por uma situação destas? O mais importante: recorrer a um psiquiatra para diagnosticar a situação e excluir situações médicas como ataque cardíaco ou doenças hormonais. “A psicoterapia pode focar-se nas questões pessoais: relacionadas com o trabalho, com a relação, ou mesmo existenciais”, explica Diogo Telles Correia, “mas pode também focar-se em exercícios destinados a lidar na prática com as crises de pânico. Para isso, o mais importante é explicar o ciclo vicioso do pânico que contribui para uma maior sensação de controlo sobre as crises.”

O que é o ciclo do pânico? Basicamente, é um treino mental para eliminar pensamentos catastróficos. “Em vez de ‘vou morrer’, pensar ‘já tive isto várias vezes, já sei que é ansiedade, os sintomas passam com calmantes…’.” Como se fica muito descontrolado nestas crises, há até quem escreva cartões com estas mensagens para levar na carteira. “É importante ensinarmos os pacientes a tratarem a ansiedade como uma ideia normal, passível de ser confrontada e debatida, e não como uma realidade inabalável”, explica Diogo Telles Correia. “É igualmente importante ensinar-lhes a capacidade de dominar os pensamentos que lhes provocam sofrimento. Como dizia o psicólogo William James, ‘a grande arma contra o stresse é a capacidade de conseguir escolher um pensamento sobre outro’.”

Também ajuda treinar técnicas de relaxamento (percorrendo os vários grupos musculares com momentos de contração forte seguidos de relaxamento, mantendo sempre uma respiração profunda), técnicas de distração (ensinar o paciente a concentrar-se em algo externo, descrevendo um quadro que veja à sua frente, lendo as matrículas dos carros que passam, etc.), entre outras.

O exercício físico também é bastante útil: “Não só porque estimula o relaxamento mas também porque aumenta a tolerância às alterações do organismo. Ou seja, os pacientes habituam-se a associar alterações fisiológicas, como o bater mais rápido do coração, a situações prazerosas e isso torna mais fácil desassociá-las dos pensamentos catastróficos das crises de pânico.”

Como nos podemos proteger

Na luta contra a ansiedade também ajuda voltarmos ao início e percebermos que na verdade tudo nos empurra para lá. “Este mundo é um viveiro da doença mental”, nota Diogo Telles Correia. “Este rodopio cego e sem norte esgota o corpo e esvazia a alma. Não há como sair desta teia para refletir ‘qual o rumo que quero seguir?’, ‘a minha vida está a realizar-me?’, ‘o que pretendo da vida?’. Por outro lado, estas questões trariam pesar momentâneo, podiam trazer também tristeza, e não há espaço para estas emoções. Há que buscar o prazer e a alegria imediatas, à distância de um toque no telemóvel com a compra de uns óculos de sol, uma publicação com muitos likes…”

No livro ‘Status: Ansiedade’ (D. Quixote), o filósofo Alain de Botton também fala da ansiedade ligada à ideia de que temos de ter tudo já. No nosso século houve um extraordinário aumento de riqueza e de bens de consumo mas também um aumento dos níveis de angústia de estatuto: a preocupação com a importância, o sucesso e o rendimento. “Populações abençoadas com bens e recursos muito para além de tudo o que os seus antepassados podiam imaginar vêm revelando uma capacidade assinalável de sentir que tanto aquilo que são como aquilo que têm não lhes basta.”

Também somos controlados de formas que nem sequer percebemos, manipulados por sistemas que criam novidade e estímulo, e que vão funcionar no cérebro como vícios poderosos: “Há estudos que demonstram que a busca de informação nova no telemóvel se assemelha, em termos de mecanismos cerebrais, ao consumo de drogas”, explica Diogo Telles Correia.

Então, o que é que precisamos de fazer? “É preciso parar! É urgente encontrar uma nova forma de olhar o mundo para ajudar a preencher a nossa vida com algo mais profundo e que nos faça perder o medo de tudo, ajudando-nos a superá-lo. Para tal, precisamos de encontrar algo que nos preencha verdadeiramente e que seja pensado e adaptado à nossa realidade e não impelido pelos pseudoideais veiculados pelos media. Pode ser uma relação duradoura, uma profissão que nos preencha, uma atividade desportiva, uma ação de solidariedade…”

Cada vez há mais gente que consegue fazer o caminho oposto ao óbvio e que se pergunta de facto o que é que quer da vida. “A minha mensagem para quem quer evitar um problema de saúde mental, além de ter uma vida saudável com exercício e boa alimentação…  é parar para refletir sobre o que realmente quer levar desta vida e lutar por isso.” Ou seja, como também dizia Botton, há mais do que uma maneira de ser bem-sucedido na vida.

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