Getty/Montagem Activa

Afinal, é possível criar um filho que saiba pensar? Ou posto de outra maneira: será sequer desejável? “Não tenho nenhum talento especial. Sou só apaixonadamente curioso.” A frase é de Albert Einstein, e pode aplicar-se a todas as crianças, pelo menos as mais pequenas. E no entanto a curiosidade devia acompanhar-nos pela vida fora. Mas criar um ser humano em busca da verdade parece cada dia mais complicado. Nunca tivemos tanta informação como hoje e no entanto os mais novos têm sérias dificuldades em separar o trigo do joio. Há mesmo quem defenda, como o neurocientista francês Michel Desmurget no bestseller ‘A fábrica de cretinos digitais’, que o quociente de inteligência das novas gerações é consideravelmente menor do que o da geração anterior, afirmando que os adultos de agora estão a pôr em risco o futuro e o desenvolvimento dos mais novos, ao entregarem todo o seu tempo nas mãos (ou nos ecrãs) dos dispositivos digitais.

O espírito crítico é, portanto, mais do que uma abstração intelectual, uma ferramenta que qualquer pessoa deve desenvolver. Problema: é uma ferramenta que requer o desenvolvimento de outras capacidades que dão trabalho num mundo feito de imediato: a curiosidade, a pergunta, a busca de informação, a confirmação.

“As crianças aprendem pelo exemplo. E quando olham para as atitudes dos pais e veem pouco tempo, pouca disponibilidade e pouca paciência, elas reagem da mesma forma.” As palavras são da psicóloga clínica Maria José Farinha. Até aprender a ler, uma criança precisa de alguém que lhes traduza o mundo, que lhes leia as etiquetas e as histórias e as placas. Mas se não há diálogo, as crianças calam-se cada vez mais. E os aparelhos eletrónicos, nomeadamente os tablets, vieram piorar tudo.

“Noutra época, os pais levavam canetas de feltro e cadernos para entreterem os filhos nos restaurantes, por exemplo”, lembra Maria José. “Hoje dão-lhes tablets para as mãos. E isto é muito diferente! Com papéis e canetas, a criança escolhe, pensa, desenha, cria. Quando pega num meio eletrónico vai à procura de um conteúdo que já existe. E as ativações cerebrais são diferentes.” A relação com os adultos também é diferente. “Quem faz um desenho acaba por perguntar: ‘Está giro? Gostas?’ Com um tablet, têm mais tendência para se isolarem, não gostam de ser  interrompidos e lidam mal com a frustração quando, por exemplo, estão num jogo cujo nível não conseguem passar. E ensiná-los a lidar com a frustração é um dos principais desafios na educação de hoje.”

É importante não desistir

Esta não é uma altura fácil para ser pai ou mãe. Os próprios adultos têm dificuldade em regular-se entre ambientes de trabalho difíceis, desemprego, dívidas, empréstimos, cansaços, e enfrentam desafios por que as gerações anteriores nunca passaram. Mas, segundo Maria José, é hoje necessário mais do que nunca que os pais assumam o seu papel: e este passa por ensinar os filhos a pensar. “É conveniente educar os nossos filhos para se saberem defender. E nós só nos podemos defender se tivermos informação. Se questionarmos, se nos interessarmos, se investigarmos.”

A base do espírito crítico é ensinar-lhes a não acreditar em tudo o que lhes dizem. E o primeiro passo é ensutiasmá-los para a leitura. “Uma criança que lê é uma criança que vai ter ferramentas para pensar. Sei que é uma batalha difícil, mas cabe aos pais não desistirem dela.” Hoje desiste-se muito? “Desiste-se muito e desinveste-se com alguma facilidade. E educar é trabalhoso. Sabemos que as pessoas têm vidas difíceis. Porém, importa perceber que terão vidas ainda mais difíceis se se demitirem do seu papel, pois a probabilidade de as crianças chegarem à adolescência com comportamentos de irresponsabilidade, insegurança, sem autoconfiança, sem amor-próprio e sem respeito pelos pais será maior. Apostar na prevenção é uma mais-valia.”

É possível ensinar a pensar? “É, se os pais também forem pessoas pensantes, se encorajarem as conversas e a leitura, se não derem respostas imediatas, se estimularem a curiosidade e a exploração do mundo”, explica Maria José Farinha. Mais do que controlados, importa que os miúdos aprendam a pensar sozinhos. E proibir telejornais e assuntos tristes ou complicados não é solução. “Convém que vejam, com acompanhamento. Se os protegemos de tudo, como é que vão aprender a lidar com o lado menos bom da vida?”

A educação para o espírito crítico tem nos pais e professores as maiores bases. “Os miúdos são muito interessados: portanto, não lhes cortem as asas, não os desvalorizem, não digam ‘isso não é para a tua idade’, e não lhes deem respostas imediatas. Estimulem-nos a pensar, a encontrarem as suas respostas, a fazer mais perguntas”, explica Maria José. “Se lhe damos logo as respostas, aquela criança ou adolescente não vai pensar mais sobre o assunto. Ora saber pensar ajuda-os a analisar uma situação com rapidez e mesmo a defenderem-se dos riscos do dia a dia. Por exemplo, fala-se muito de bullying. Miúdos que sabem pensar, mais facilmente se conseguem defender ou defender um colega se conseguirem perceber que aquela atitude é errada.”

Os mais novos hoje também não sabem esperar. E qual é o problema? O problema é que a ansiedade, as fobias e a depressão se tornaram as áreas mais problemáticas. É um desafio criar uma geração diferente? “É. Temos de nos esforçar agora, os pais, a família, os professores. Caso contrário, não há vontade de evoluir. Há preocupação com a roupa, com os amigos, com a foto, com o comentário, com o like, e queremos mais do que isto para eles. Já fomos à Lua, mas há muito mais a ser conquistado do que o planeta Tiktok.” Na luta contra o imediatismo e o facilitismo, há muito a fazer: “Encorajar a que a criança seja autodidata, que aprenda por ela, que faça pesquisas, que faça perguntas. Quanto mais se facilita, menos a criança se desenvolve e mais frágil se torna.” O ideal é estar presente, sem facilitar mas encorajando.

ENSINAR A PENSAR EM 3 ATOS

1. Ler – Os livros dão-lhes palavras, que são as ferramentas do pensamento. Também lhes dão mundo, ideias, pessoas, e mostram-lhes várias formas de pensar.

2. Debater – Dada esta situação, qual era a melhor maneira de a resolver? Porquê?Que pensam sobre este ou aquele assunto?

3. Conversar – Falem do que se passou na escola, no dia a dia, do que ouvem na televisão ou na rua

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