No último domingo, 14 de março, estreou a versão portuguesa de “Hell’s Kitchen”, na SIC. O chef Ljubomir Stanisic é o apresentador e lidera uma cozinha com 16 concorrentes. Mas uma produção bem feita, com um bom ritmo televisivo e entretenimento de qualidade tem um problema que é muito difícil de olhar para o lado – o primeiro episódio foi extremamente sexista.

“Adoro esta competição feminina”

A começar pelo facto de as equipas serem divididas entre homens e mulheres. Em 2021 é no mínimo antiquado dividir pessoas pelo critério do género. Se todos têm chances de vencer, um sorteio seria mais justo. Se as experiências são muito diferentes, que a divisão fosse feita pelo tempo de cozinha. Uma equipa feminina e outra masculina só perpetua a ideia estereotipada sobre homens contra mulheres. E é o que aconteceu, quando um concorrente afirmou que ao fim da primeira prova saberiam “quem é o sexo frágil”, ou quando o narrador do programa mencionou que começava “batalha entre homens e mulheres”.

A edição mostrou que a equipa de mulheres teve muitos conflitos. Nem todas pareciam gostar de trabalhar em grupo. Em determinado momento Ljubomir afirma: “adoro esta competição feminina”. A questão aqui é – porque seria uma competição “feminina”? Qual é a razão para criar entretenimento a partir de conflitos entre mulheres? Ninguém pensou na possibilidade de as concorrentes mulheres terem personalidades mais confrontadoras, ou de simplesmente não ter existido afinidade entre aquelas pessoas?

“Já tive namoradas menos complicadas”

Quando Ljubomir Stanisic avaliou os pratos, saíram mais comentários sexistas. A determinado momento, ao analisar o prato de um concorrente, o chef comparou cozinhar com sexo: “Comida é como um sexo, como mulheres… Antes de pinares tens que fazer preliminares no mínimo meia hora, 40 minutos. Para a mulher ficar louca por ti. A cozinha é o mesmo processo”. Ljubomir ia ficar surpreso se soubesse que há mulheres que trocam 40 minutos de más preliminares por 5 minutos de sexo com homens que não se preocupam em serem os “machos alfa”. E que sexo é sobre duas pessoas. E que, diferente da cozinha, não existe receita para fazer uma mulher “ficar louca” por um homem. Pergunto-me que tipo de comparação Ljubomir faria se estivesse a avaliar o prato de uma mulher.

Antes desta comparação, ao comentar a mudança de humor de um concorrente, que foi do choro ao riso em alguns minutos, Ljubomir disse: “És um gajo de espírito de altos e baixos. Ris e choras. Já tive namoradas menos complicadas”. Nem sei o que dizer sobre isso.

“Vocês são senhoras, deviam dar o exemplo”

O estereótipo foi reafirmado mais uma vez ao fim da segunda prova. Ao comentar o estado da cozinha, Ljubomir afirmou que não estavam limpas o suficiente, principalmente a da equipa vermelha, composta por mulheres. “Vocês são senhoras, deviam dar o exemplo para estes pilas que estão aqui todos, que supostamente deveriam ser sujos, estão 10 vezes mais limpos que vocês”.

A cozinha da equipa vermelha poderia ter ficado mais limpa, mas as mulheres não tinham que dar exemplo de nada apenas por serem mulheres – foi-se o tempo em que limpar uma cozinha era tarefa exclusivamente feminina. 

Comentários como estes, vindo do chef executivo do restaurante, é como assédio no trabalho – quem é que vai responder o próprio chefe, por mais incomodado que fique com uma frase discriminatória? Sendo Ljubomir Stanisic homem e numa posição de hierarquia superior, é natural que as mulheres escutem e aceitem falas que as diminuem e reduzem ao papel de empregadas de limpeza, objetos sexuais e descontroladas.

Termino com um momento que me deixou particularmente chocada. Sendo eu brasileira, já vivi na pele muitos episódios em que o estereótipo de mulher brasileira sexualizada é explorado como piada – no dia-a-dia, no ambiente de trabalho, na televisão como entretenimento. Volto a dizer, estamos em 2021. A concorrente Cândida trabalhou em restaurantes de chefs estrelados, como Gordon Ramsay e  Konstantin Filippou. Mas isso não interessa, afinal de contas ela é brasileira, trabalhou 20 anos como modelo e foi capa da revista Playboy. Portanto o vídeo de apresentação de Cândida nem menciona as experiências profissionais da chef. O vídeo termina com a concorrente a dizer: “O Brasil não vive só de samba, a gente também tem comida boa”, e a derrubar um robe no chão. Claro, ao falar sobre brasileiras é preciso meter “samba” em algum lugar.

Os fãs de Ljubomir Stanisic e do programa podem dizer que esta é a personalidade do chef. Quando comentei a minha surpresa ao ver o comportamento de Ljubomir na televisão, foi o que muitos amigos disseram-me: “Ele é assim”. Mas a personalidade de Ljubomir Stanisic não pode ser justificativa para promover sexismo na televisão. Foi-se o tempo em que repercutir o machismo estrutural era forma de entretenimento. Ser machista não é sinónimo de ser malvado e não apaga a história de trabalho e mérito de ninguém. Estamos na era da desconstrução e é tempo de repensar atitudes. Se esta é a personalidade de Ljubomir, que a mude. 

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