No outro dia fiz um post no Facebook sobre os desafios que enfrentamos na imprensa escrita. Era uma partilha sentida, para variar das fotos do meu cão, que fazem lembrar a coleção da Anita, entretanto reconvertida em Martine: ‘Coco Manuel vai à praia’, ‘Coco Manuel vai de férias’… Até não estava a correr mal, pensei, apesar da hora e de as pessoas ainda estarem a digerir os resultados das eleições presidenciais (salve, batom vermelho!). Só que a minha satisfação absoluta transformou-se num descontentamento relativo quando olhei para o lado e no feed vi um peixe acabado de sair do forno: era um robalo com ar delicioso, é certo. Mas aquele ser inanimado a caminho do intestino de alguém já contava com mais de uma centena de likes e tantos outros louvores de mérito, mais de o dobro do meu pedido de misericórdia. Eu estava viva, ou melhor, a tentar sobreviver; o peixe ali jazia, afogado em azeite e alheado das homenagens póstumas e dos filtros que lhe abrilhantavam a pele empalada, tornando-o mais apetecível, mesmo depois de morto.

Ainda bem que a segurança dos 40 não é facilmente abalroada pela caravana de guelras cintilantes, rostos e corpos larocas, dentes alinhados por aparelhos invisíveis e decorações minimalistas. Temo não poder dizer o mesmo em relação às adolescentes e, por isso, numa altura em que se fala tanto de gratidão, gostaria de exprimir os meus mais sinceros agradecimentos ao destino – em meu nome e do meu ido cabelo Tina Turner dos anos 80 – por não ter colocado prematuramente as redes sociais no meu caminho de miúda absolutamente normal, apesar do índice de volume capilar acima da média (‘Diz-me que a minha carapinha te faz lembrar uma coroa de rainha’, canta pertinentemente Sara Tavares na minha lista de reprodução aleatória).

Gostava de acreditar que hoje as miúdas já vêm com um filtro que as protege do constante despique por atenção e aprovação, que já não fica do lado de fora quando entram no quarto: antes da omnipresente internet, era lá o nosso refúgio, resguardadas das comparações, dos comentários maldosos e dos resultados das indesejadas sondagens de opinião e de popularidade – e da trollagem, conceito que aprendi com a minha filha e que basicamente significa, na gíria digital, chatear o outro. Espero que se tornem mulheres mais resistentes à opinião alheia, mas não ao ponto de se tornarem indiferentes aos demais.

Tenho uma adolescente em construção, os primeiros sintomas foram precoces e abruptos (terá sido do leite artificial que lhe dei nos primeiros meses, contra as recomendações das embaixadoras da amamentação, ou do boião de puré de borrego com legumes que ousei sacar num encontro de recém-mamãs?). Até agora, consegui convencê-la de que é preciso ter carta de condução para circular nas redes sociais – e aquele anúncio dos supermercados DIA com idosos facilitou a tarefa de a afastar do Tik Tok. Mas fica aqui a promessa: não haverá peixe a ridicularizar a minha filha. Se ele ainda estiver vivo, eu braseio-o com as minhas próprias mãos. ‘Coco Manuel vai à pesca’ – o melhor é voltar aos posts caninos e aos likes garantidos, sob pena de verem renascer a juba desta mãe leoa. Paz à sua alma.

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