Ok, foi uma experiência interessante, mas estou pronta para retomar a minha vida fora de casa. Ou DA casa, porque, convenhamos, isto tudo está a ganhar proporções de reality show. Não me interpretem mal: o teletrabalho tem inúmeras vantagens – tomar banho à hora do almoço surpreendeu-me pela positiva, por exemplo – mas é como se o confinamento tivesse acabado para todos menos para mim.

É como se estivessem a fazer uma experiência sociológica (e maquiavélica) comigo. Eu tento falar mas ninguém me ouve: pessoal, lembram-se, sou eu a Cíntia, naquela liberdade de escolha que as mulheres conquistaram eu era da grupeta que não queria ficar em casa a tomar conta dos filhos. E agora enfiaram-me num grupo em que não só ficamos em casa com os filhos como ainda temos de trabalhar a tempo inteiro. Por muito polivalentes que as mulheres se afirmem, ainda não descobri como descascar cenouras com o rato do computador (mas estou mestre em falar ao telefone com a mão direita e esfregar vinha d’alhos nos costados do peru com a esquerda).

Meteram-me em casa e tornei-me uma espécie de Glovo do meu próprio agregado familiar. Assim como assim, se estou em casa, porque é que os meninos hão de almoçar na escola? Se estou em casa, posso muito bem dar um pulo à farmácia ou colocar as lentilhas a demolhar. (Ia dizer Chega! mas já nem isso posso, não quero de modo algum incentivar o aumento da extrema direita em Portugal.)

Eu era uma excelente mãe quando não estava em casa. Porque agora estou em casa mas tenho defingir que não estou. Não é muito mais fácil para uma criança perceber que não estou se realmente não estiver? E como dizer que estou cansada se me veem a tarde toda sentada ao computador, será que pensam que foram enganados a vida inteira com a conversa da ‘correria do dia-a-dia’, afinal dizia que andava sempre a correr e agora fico ali sentada a mexer os dedinhos no teclado – o conceito de cansaço intelectual pode ser algo muito abstrato para uma criança.

E porquê usar um smartwatch se sei que vou apenas dar 2 mil passos, entre o ‘escritório’, a cozinha e a lavandaria – a minha casa não é uma mansão! Do ponto de vista empresarial, de repente todo o conceito de trabalho de equipa migrou para o espaço digital… ou simplesmente para o espaço. Horas e horas de palestras sobre a importância das relações, dos olhos nos olhos, para remetermos tudo para reuniões via Zoom em que parece que tivemos todos um inesperado ataque de estrabismo – é que passado este tempo todo ainda não domino a posição da câmara, muito menos do tal ring light que insiste em implicar com os meus óculos. E se havia pessoas que já tinham dificuldade em distinguir o dia da noite, agora é a verdadeira loucura: se estamos sempre em casa, porque não trabalhar a todas as horas?

Para não falar dos vampiros, que só quando cai a noite e eu me levanto da cadeira é que têm as dúvidas e as crises existenciais. E agora, que já desabafei, vou só ali buscar mais uma caipirinha – enquanto não legislam o consumo de álcool no local de (tele)trabalho – e virar o peru na marinada. Volto já.

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